22º Festróia

Cinema de qualidade à beira do Sado. Conheçam a programação e leiam a entrevista com Mário Ventura, o presidente do Festival.

É um dos mais antigos festivais cinematográficos de Portugal: o Festróia – Festival Internacional de Cinema de Setúbal – que surgiu no já longínquo ano de 1985, celebra este ano a sua 22ª edição e mantém-se na linha da frente dos festivais, não só nacionais, mas até internacionais. O certame inicia-se no próximo dia 2 de Junho e decorrerá até ao dia 11 do mesmo mês.

Uma prova desse reconhecimento além-fronteiras veio este ano por parte do CICAE – Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio –, que escolheu o Festróia para nele ser atribuído o prémio com que anualmente distingue e apoia um filme de grande qualidade artística e humanista. Esta escolha pelo festival setubalense deve-se ao reconhecimento da qualidade artística e criativa dos filmes habitualmente exibidos no certame.

Chama-se Festróia, mas é o festival de cinema de Setúbal. Pode parecer paradoxal, mas não o é. Em 1985, quando surgiu, o Festróia era mesmo o Festival Internacional de Cinema de Tróia. Contudo, com o passar dos anos e com a consequente perda de influência e de condições da Península de Tróia, o certame foi transferido definitivamente para Setúbal que, enquanto capital de distrito, ganhava assim o seu primeiro festival cinematográfico e uma das suas principais bandeiras culturais.

Desde o primeiro dia que o principal objectivo do Festróia é divulgar cinematografias de qualidade, provenientes de países com uma baixa produção cinematográfica. O reconhecimento internacional não tardou a chegar: em 1987, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica marca presença pela primeira vez no festival, com o reputado júri internacional FIPRESCI. Também o Conselho da Europa atribui um prémio para o melhor filme sobre a Natureza, que se mantém até aos dias de hoje, na secção O Homem E A Natureza.

Para além das centenas de filmes que o festival apresentou, o Festróia sempre contou com algumas das mais conceituadas estrelas da sétima arte ao longo destes vinte e dois anos. Kirk Douglas, Cristopher Walken, Bigas Lunas, Pedro Almodovar… são alguns dos nomes que honraram o Festróia com a sua presença. Contudo, o ano mais glamouroso terá sido o anterior, em que estiveram presentes, pela primeira vez em Portugal, as Shooting Stars, as mais promissoras estrelas do firmamento cinematográfico europeu. Em 2006 o Festróia homenageará Satyajit Ray, o lendário realizador indiano de quem Kurosawa disse um dia “Não ter visto os filmes de Ray, é ter vivido no mundo sem ver nunca a lua e o sol”; em Setúbal estará presente o seu filho Sandip Ray para receber, em nome do pai, um prémio de consagração.

Para além destas, existem outras secções a destacar: a homenagem ao cinema centenário da Noruega; a rubrica dedicada ao Moderno Cinema Indiano, para provar que o cinema na Índia não é so Bollywood; a habitual secção dedicada ao Cinema Nacional do Ano; e, especialmente, a rubrica Westerns de Leste, onde vão ser apresentados alguns dos westerns mais famosos rodados na Alemanha comunista, por alturas da Guerra Fria, em que eram usados como panfletos de propaganda anti-americanos, onde, ao contrário da tradição dos westerns clássicos, os índios são encarados como os bons da fita.

Como vem sendo habitual, o Festróia divide-se pelas duas salas de cinema municipais de Setúbal, a saber: o Fórum Luísa Todi e o Auditório Municipal Charlot. O certame inicia-se no próximo dia 2 de Junho e decorrerá até ao dia 11 do mesmo mês. O alinhamento do festival divide-se então pelas seguintes rubricas: as competitivas (Secção Oficial, Primeiras Obras, Independentes Americanos e O Homem E A Natureza) e as não-competitivas (Homenagem Ao Cinema Norueguês, O Moderno Cinema Indiano, Westerns De Leste, Escolas De Cinema, Cinema Português Do Ano, Panorama E Ante-Estreias, Curtos Europeus e Curtos Europeus Para Crianças e ainda o European Discovery Fassbinder Awards).

A Rua de Baixo conversou com o presidente do festival, Mário Ventura, que nos fez a primeira antecipação do festival.

Rua de Baixo – O que faz o Festróia ser um festiva especial, que o distingue dos demais?

Mário Ventura – Entre outras razões, o facto de seguir rigorosamente uma linha original, ditada pelo objectivo de divulgação, sem cedências de qualquer espécie. Sendo inadmissível que o público português esteja impedido de apreciar outras cinematografias que não sejam, quase exclusivamente, a norte-americana, o Festróia mantém o propósito de apresentar as obras de países que estão por motivos comerciais impedidas de ser vistas no nosso país. Não é, por isso, um festival dirigido a gostos minoritários, mas sim a todo o público, que através das nossas programações terá ocasião não só de conhecer outras estéticas e culturas, mas também de se familiarizar com expressões artísticas diferentes das que lhe são impostas massivamente.   

Esta é a 22ª edição do festival. 22 anos são muitos anos; para quando uma restrospectiva do Festróia?

Era uma iniciativa que estava projectada para o ano do 20º aniversário. No entanto, como o ICAM nos retirou nesse ano o seu habitual apoio – por motivos que se mantêm na obscuridade -, tivemos de adiar o projecto, talvez para a 25ª edição.

Ao longo de 21 edições muitas estrelas internacionais têm marcado presença no Festróia, desde Kirk Douglas a Bigas Luna. Como é que surge, este ano, o nome de Satyajit Ray?

Surge, em primeiro lugar, porque foi um dos grandes criadores do Cinema mundial, justamente considerado como o pai do Cinema Indiano. Depois, porque a sua obra está a ser recuperada em muitos países, no ano em que se comemora o cinquentenário do seu primeiro filme. Em particular nos Estados Unidos, onde existe um centro de estudos da obra de Satyajit Ray, estão previstos estudos e colóquios, além de um intenso trabalho para recuperar muitos dos seus filmes.

Para além desta homenagem e a mostra do Novo Cinema Indiano, outro dos destaques deste ano é a rubrica “Westerns De Leste”. Quer falar-nos um pouco disso?

Além de se tratar de filmes que nunca foram apresentados em Portugal, permitem-nos avaliar de que forma o cinema também foi usado como instrumento da Guerra Fria, a exemplo do que fizeram os estúdios norte-americanos. Durante dez anos, a DEFA, a famosa produtora alemã, localizada na ex-RDA, produziu filmes sobre o Oeste americano, numa perspectiva de defesa dos índios, ao contrário do que acontecia normalmente no cinema norte-americano. O resultado é deveras interessante e permite-nos revelar uma faceta desconhecida do Cinema alemão.

Vão estar representados a concurso mais de 30 países distintos. Qual é o lugar do cinema nacional neste cenário?

É relativamente modesto, tendo em conta os níveis da produção nacional, e também porque produtores e realizadores fazem as suas opções para apresentar as suas obras e em geral escolhem os festivais estrangeiros. Mesmo assim, penso que iremos apresentar um conjunto de obras bastante apreciável.

Além de todo o prestígio que o Festróia tem em Portugal, é ainda um festival com grande reconhecimento internacional. Uma prova disso foi o facto de ter sido dada ao Festróia este ano a possibilidade de atribuir o prémio CICAE. Que significado tem este prémio não só para o festival, mas até para o próprio país?

Não são muitos os festivais – creio que apenas cinco ou seis – onde o prémio CICAE é atribuído. Destina-se a galardoar um filme de elevada qualidade artística e a promover a sua difusão em cerca de 600 salas europeias, que são as que se incluem na CICAE. Penso que se trata de uma honra para todos nós, tendo em conta que um filme exibido no Festival poderá ter deste modo uma difusão invulgar.

O Festróia é uma das bandeiras de Setúbal, uma cidade cujos níveis de relevância cultural continuam muito em baixo. Não se podia (e devia) fazer mais?

A relevância cultural é bem evidente, pelo menos para o público cinéfilo. Mas também penso que deveria ser mais divulgado, por forma a assumir a feição de uma grande festa da Cidade. Mas essa é uma tarefa para a qual não dispomos de meios.

Até onde pode o Festróia ir?

Até onde os meios disponíveis lho permitirem. Temos um conjunto de patrocinadores e apoiantes que contribuem para o funcionamento normal do Festival,  mas o trabalho de promoção, que consideramos indispensável, exige recursos de que não dispomos. 



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