“A História de uma Serva” | Margaret Atwood

“A História de uma Serva” | Margaret Atwood

Mayday, mayday!

No universo literário, quando se trata de falar do mundo das distopias de uma forma geométrica, desenha-se normalmente um triângulo equilátero que compreende os seguintes vértices: “1984”, de George Orwell, “Nós”, de Yevgeny Zamyatin e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Porém, a sensação que fica depois de terminada a leitura de “A História de uma Serva” (Bertrand, 2013), de Margaret Atwood, é que talvez faça mais sentido trocar o triângulo por um quadrado, tal não é a pertinência e o espírito visionário que habitam as suas páginas.

Defred é uma serva na República de Gileade, fundada pelos extremistas cristãos de direita, que derrubaram o governo norte-americano a atiraram com a Constituição à fogueira. Trata-se uma cidade sitiada, cercada por um muro de tijolo vermelho, «com arame farpado junto ao chão e pedaços de vidro em cima.» É junto a este muro que, em ganchos suspensos, são exibidos os corpos dos dissidentes capturados, para servir de aviso e acalmar qualquer indício ou vontade de rebelião.

Aqui, as mulheres perderam todos os direitos e voltaram à Idade da Pedra: estão proibidas de ler – ou de aprender a ler -, os seus movimentos são vigiados, têm de se remeter ao silêncio na quase totalidade do tempo, estão proibidas de tocar e, basicamente, limitam-se a servir de máquinas procriadoras, sendo esse o seu pequeno mas periclitante trunfo, já que o fracasso reprodutivo implica uma viagem e exílio para as Colónias, um mundo extremamente poluído e com poucas hipóteses de sobrevivência.

Como não podia deixar de ser num regime extremo, deparamo-nos com um tímido movimento de resistência – o Mayday, em homenagem ao 1º de Maio -, ainda que pareça não ter força para derrubar um regime alicerçado na punição e controlo extremos.

A pirâmide social feminina está assente em quatro plataformas: as não-mulheres, que vivem nas colónias; as martas, que passam as novidades oficiosas de casa em casa, escutam por detrás das portas e conseguem ver quase de olhos fechados; as esposas dos comandantes, normalmente inférteis, com privilégios incomuns mas extremamente infelizes; e as servas, como Defred, que vivem como que num presídio militar – ou num quarto monástico -, vestidas de vermelho da cabeça aos pés, excepção feita ao chapéu branco com abas. A missão das servas é a de procriar, sendo os filhos entregues a outras mulheres.

Como teremos chegado a este cenário, em que as compras são feitas com senhas de racionamento, o pensamento é racionado, a fé não passa de uma palavra, o mercado negro representa o paraíso e onde não há qualquer espaço para o amor? Como diz orgulhosamente uma das martas – através de uma memória de Defred -, glorificando o estado das coisas, «éramos uma sociedade moribunda, de demasiada escolha.»

Escrito como um diário de sobrevivência, “A História de uma Serva” é um retrato político e negro da sociedade moderna, que mostra de forma soberba a injustiça que a História pratica ao tentar, em vez de julgar, apenas compreender. «Como é fácil inventar uma humanidade, seja a quem for», afirma Defred a certa altura. Sábias palavras.



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