“A mulher silenciosa” | A. S. A. Harrisson

“A mulher silenciosa” | A. S. A. Harrisson

Tudo se irá resolver

É um facto mais do que consumado. Um pouco por toda a parte, o casamento foi trocado pelas uniões de facto, transformando os maridos em companheiros e as mulheres em companheiras. Apenas com os bancos os casamentos persistem de vento em popa e, quanto a esses, não há divórcio que consiga terminar com a relação amor/ódio de um empréstimo.

Porém, para os mais incautos, convém conhecer bem as teias com que a lei vai construindo a sua casa pegajosa, que de país para país vai variando – e muito – em número de assoalhadas e no material dos acabamentos. Veja-se o caso da mulher do escritor Stieg Larsson – autor da abissal trilogia Milennium – que, quando este inesperadamente morreu, se viu com uma mão atrás das costas, já que o facto de viverem em união de facto há qualquer coisa como xx anos não tinha qualquer valor perante a lei sueca.

Jodi Brett, uma das protagonistas do romance “A mulher silenciosa” (Editorial Presença, 2014), vai também ela dar de caras com o lado relacional mais obscuro da lei. A viver há vinte e dois anos com Todd Gilbert, numa relação em que se aceita a infidelidade – a do marido – como algo natural e até benéfico, vê-se de súbito ameaçada pela chegada de uma amante mais afoita, que não se contenta em permanecer como a segunda mulher que se alimente de tardes em móteis ou fins-de-semana combinados depois de muita mentira e jogo de cintura.

A. S. A. Harrisson, autora que morreu em 2013 deixando o seu segundo romance inacabado, criou um livro deliciosamente perverso, perto do limite da insanidade invisível, que nos remete para o momento em que um ser, por mais insípido que possa parecer, abraça o lado negro em nome da sobrevivência.

Alternando a narração entre as duas vozes do casal, o que de certa forma nos remete para “Em parte incerta” de Gillian Flynn, Harrisson mostra de forma soberba a erosão de uma relação, feita de coisas não ditas, estranhos silêncios, manipulações exteriores e impulsos que chegam ao corpo por atalhos clandestinos.

«Não há necessidade de encarar a verdade de frente, se houver uma forma mais meiga, mais suave de o fazer. Não há necessidade de toda aquela urgência tão deprimente». Escrevam isto num azulejo, pendurem-no na vossa cozinha e, quando tiverem de ser – nem que apenas por uns minutos – psicopatas de corpo e alma, olhem para ele e respirem fundo. Tudo se irá resolver.



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