A Naifa @ Fórum Luisa Todi

Fado para quem não gosta de fado.

Quem ouve A Naifa pela primeira vez associa-os automaticamente ao universo do fado. É certo que existe uma vocalista (Maria Antónia Mendes) com pose e voz de fadista e é certo que Luís Varatojo toca guitarra portuguesa. Mas A Naifa não é fado; existe um baixo eléctrico e uma bateria que imprimem uma sonoridade new-wave e até existem ritmos electrónicos por cima. Contudo, A Naifa é o que de melhor aconteceu ao fado nos últimos anos.

O fado, tal como nasceu e cresceu, já não faz muito sentido nos tempos de hoje. Tal como o punk soube renovar os motivos pelos quais se rebelia, também o fado precisa de descobrir novas formas de exprimir a saudade. Existe uma nova geração de fadistas (alguém mencionou a Mísia ou a Mariza?) que vão ser fundamentais nesta campo, mas A Naifa apresenta um outro (válido) caminho a seguir.

A Naifa dessacraliza o fado (e neste ponto são importantíssimas as letras das músicas, assinadas por alguns dos mais promissores escritores de língua portuguesa da nova geração, que colocam o fado a falar sobre sexo como nunca antes falou – e Deus queira que consiga não me masturbar, em «Fé», é o exemplo mais claro)  e desmisitifica-o (apesar de não renegar ao negro, Maria Antónia Mendes mostra mais pele do que é costume).

É sabido que, apesar de ser capital de distrito, Setúbal está no nível zero de relevância cultural, um pouco à imagem do que acontece por toda a margem sul. Por isso, a população da cidade devia aproveitar estes “projectos de interesse cultural” (o que quer que isso seja…) para saciar a sua sede. Mas os setubalenses não aderiram e o Fórum Luísa Todi estava a meio-gás para receber, pela primeira vez, a passagem de A Naifa pela cidade.

O alinhamento do concerto fez-se, sobretudo, com o mais recente álbum de originais, “3 Minutos Antes De A Maré Encher”, um disco que segue uma linha mais constante que o anterior, “Canções Subterrâneas”, claramente mais eclético. Tal como no disco, o concerto iniciou-se com «Da Uma Da Noite Às Oito Da Manhã» e, depois de ultrapassar o som sofrível das primeiras músicas, encarrilhou ainda os principais temas do primeiro álbum.

Em palco, A Naifa quase que se divide em dois: de um lado a vocalista Maria Antónia Mendes e Luís Varatojo na guitarra portuguesa, formam uma facção claramente fadista; do outro, o baixista Luis Aguardela e o baterista Paulo Martins constituem uma facção claramente new-wave, cuja sonoridade dos instrumentos e a presença em palco (Aguardela assemelha-se constantemente a John Cale) parece transportada directamente dos anos 80. A fusão entre as partes garante o todo e, rapidamente, o fado tradicional irrompe num pop-rock depourado e, por vezes, swingante.

O jogo de luzes, a pose pós-romântica de Aguardela e os passos de dança tímidos, mas sensuais, de Maria Antónia Mendes produzem uma mise-en-scène que complementa a pose intimista da música ou, pelo contrário, a faceta mais rock e dançante de A Naifa. E ao segundo encore (o primeiro tinha tido «Metereológica» e «Rapaz A Arder», do primeiro álbum “Canções Subterrâneas”), a banda despediu-se com a sua versão pop de «Tourada» (com direito a palminhas e la la las e tudo), um original de Fernando Tordo.

A Naifa é o que de melhor aconteceu ao fado nos últimos anos: até para quem não gosta de fado.



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