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Afterschool – Depois das Aulas

A geração YouTube: uma juventude que vive à sombra da imagem física onde os sentimentos se misturam com os pedaços de amadorismo que populam os canais de video da internet nesta ficção quase documental do americano Antonio Campos.

“Afterschool” é quase o paradigma de uma geração que nasce na internet. É um filme sobre a alienação e a paranóia, contado numa perspectiva fria e quase documental, desprovida de moral ou sentimentos. Robert é um jovem estudante de uma escola privada nos Estados Unidos. Como qualquer um da sua idade, encontra dificuldades em concentrar-se numa actividade que lhe dê prazer, um hobbie que o faça sentir. É na internet que procura o seu à-vontade, e encontra-o em filmes pornográficos filmados na primeira pessoa que são mais reais que os outros porque há uma certa violência subjacente ao acto. Todos os alunos têm que ter uma actividade extra-curricular, desporto, trabalhos manuais, vídeo. Robert escolhe a aula de vídeo. Em preparação de um trabalho, filma acidentalmente a overdose mortal de duas gémeas que são o ícone da escola – giras e populares, desencadeando uma série de não-situações que o levam a questionar-se sobre o seu papel numa escola e sociedade com poucos valores morais.

Esta intensidade psicológica é contada através de longos planos fixos, de uma forma fria e distante mas desiquilibradamente intimista. Esta câmara é também a extensão de Robert, é também o seu olhar desligado. Mais que um retrato de uma geração sem sentimentos ou à procura apenas da imagem, encaixada em pacotes ou rótulos, é também o retrato de uma geração alienada, robótica, desencaixada de tudo o que se passa lá fora, desinteressada de tudo.

O filme percorre a escola, os alunos e as suas sexualidades, as hierarquias,a violência e os professores que se conformam a um sistema do qual, por vezes, não concordam. As relações de interesse e poder entre os jovens, as regras, a procura de uma perfeição-fachada que é também uma luta perdida. Afterschool é um gigante corredor de fantasmas.

É notória a influência de, por exemplo, Gus Van Sant, especialmente na composição dos lindíssimos longos planos fixos e na busca pelo pormenor metafórico que é o olhar do protagonista (que filma com uma perfeição de enquadramento notória). Mas Antonio Campos vem de outra geração. A violência emocional que filma não se transforma numa tragédia, é antes um documentário visceral (sem o ser). Isto porque não há espaço para resolver conflitos ou moral e sentimentos. “Afterschool” é um cemitério, as almas são os actores e a câmara é a única testemunha. Sai-se do filme com um vazio enorme. Por isso é que “Afterschool” é um documentário de ficção.

Longe disso, “Afterschool” é um filme arrojado que embora não se consiga libertar de um género de cinema independente com fortes influências europeias, é uma estreia arrebatadora de um realizador que vai, concerteza, trazer-nos muitos outros momentos de puro conflito psicológico. “Afterschool” é para ver em branco, e, uma semana depois, juntar as peças do puzzle; ou não.



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Existe 1 comentário

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  1. tricks

    Um tema de agora e premente. Todo o desligamento, a plasticidade superficial das relações, é constragedora, incómoda, chegando a causar mal estar, ampliado pelo tipo de planos e filmagens. Há um tipo de violência silenciosa, escondida, vivida debaixo de um candeeiro no quarto, na cantina ou nos vazios da escola.
    Alguns planos, desnecessários, revelam ideias que já construimos, e os sucessivos planos fixos desfocados, embora com um propósito claro, por vezes são demais. No entanto, para quem é sensível ao tema, não deixem de ver!! Lugares de hoje numa realidade demasiado rápida, que de tão largas possibilidades de aproximação se torna cada vez mais só e de laços mais difíceis e frágeis.


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