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Antonio Campos

O jovem realizador de Afterschool em discurso directo, onde nos fala de alienação, escolas privadas, moral e internet, enquanto tentamos descodificar a sua primeira longa-metragem.

Antonio Campos nasceu em Nova Iorque há 26 anos atrás. O 11 de Setembro está, então, muito presente na sua fase final da adolescência, facto que não tem muito a ver com esta estória. Mas referir este pormenor faz-me assumir que há um pré 9/11, e um pós 9/11. E para esta geração é mais que relevante. Antonio Campos frequentou a escola privada Dwight School, situada no Upper West Side de Nova Iorque. “Estar na Dwight foi uma experiência estranha. Embora a escola apoiasse a minha decisão de ser realizador, houve sempre um cinismo que cresceu em mim e nos meus amigos depois de a frequentarmos”.  Em «Afterschool» também temos uma escola privada, com uniforme e tudo, onde há uma diferença notória entre os ricos, os influentes, os giros, os nerds, os outros. “Foi também onde percebi o que o dinheiro pode fazer. Havia miúdos que vinham de famílias muito ricas e que podiam evitar entrar em problemas por causa disso. O sistema não era nada justo ou igual para todos”.

Mas o filme não é sobre a escola. É antes sobre Robert, um jovem que parece ser o paradigma desta geração pós 9/11. “Robert não é uma personagem sem sentimentos. Para mim, Robert está tão cheio de emoções que tem medo de expressar ou lidar com elas.” A única câmara de «Afterschool» é a extensão de Robert; o filme é uma extensão de Robert. “Ele está a sentir um conjunto de emoções confusas e ao mesmo tempo distancia-se do que está a acontecer e a câmara faz o mesmo”. Este é o também o retrato de uma Internet formada na sua maioria por jovens, que criam o seu próprio mundo e utilizam as redes sociais, o YouTube e os blogs para se expressar, e cá fora limitam-se a observar ou a respeitar as hierarquias de poder, mantendo-se à margem de qualquer acto revolucionário.

São jovens que também ouvem música e que vão a concertos e, sobretudo, que os filmam e colocam na internet. Também filmam os seus companheiros em manobras de skate, os seus animais de estimação, cenas de violência nas escolas ou simplesmente que se filmam a eles próprios. São eles que criam os seus próprios micro-fenómenos, e se um vídeo é popular no YouTube ele salta cá para fora e anda de boca em boca nas ruas, nas escolas.

Será que o cinema está ameaçado por esta forma rápida de publicar conteúdos vídeo on-line? “A tecnologia vai crescer, e as pessoas vão usá-la da maneira que quiserem. Pode ser para algo interessante ou para algo importante, como vimos nas redes sociais e canais de video os protestos no Irão. Como no cinema, vão existir aqueles que usam essas ferramentas para criar algo bom ou importante, e vão existir os outros, a maioria, que criam e espalham coisas que, francamente, a maior parte do tempo são lixo e um desperdício de tempo. No final do dia, o cinema é O Cinema e o que vês on-line é algo completamente diferente. Mas vai haver sempre uma diferença entre um pedaço de video amador e cru e uma elaborada e completa experiência de cinema”. Mesmo que a maior parte dos jovens desista da televisão por uma experiência de vídeo no YouTube, onde escolhem o que querem ver, a experiência do cinema é sempre superior.

«Afterschool» tem também uma escola quase fantasma. Isto porque os jovens que a frequentam são quase inertes, parecem desligados; têm poucas aspirações. E há corredores vazios. É num deles que se desenrola o conflito inicial do filme, a morte das duas gémeas por overdose.

Mas não há, aqui, qualquer tipo de moral ou redenção. “Em «Afterschool», não estava necessariamente à procura da redenção dos meus personagens. Estava a criar um mundo onde o compasso moral é incerto, e onde são os próprios jovens role models deles próprios, imperfeitos e sem certezas do que é certo ou errado.”

Os adultos em «Afterschool» são sempre remetidos a papeis secundários ou enquadrados fora de plano: o foco aqui são os jovens. Estes adultos são ainda mais fantasmas que os próprios alunos. Mas não são os maus da fita (não há vilões no filme). “Os adultos estão a funcionar com a certeza de que o que estão a fazer é o melhor para a escola, no momento, não necessariamente o que está certo”.

Mas são os jovens actores quem brilha, não só porque as suas chamas ainda estão no ínicio de actividade ou porque são pequenos prodígios, brilham também porque Antonio Campos os filma com uma sobriedade distinta. São eles que sobressaem no centro do enquadramento, com um à-vontade tão real como num documentário. Mas há um guião a seguir. “Existe sempre espaço para improvisação, e houve alguma em «Afterschool». Mas, a maior parte das vezes, os actores queriam seguir o guião. Durante as filmagens continuo a escrever e a rescrever porque vou conhecendo os actores e a forma como eles falam. Não tivemos muito tempo para ensaiar no filme por isso muito do nosso tempo antes das filmagens foi gasto apenas a falar, a conhecermo-nos uns aos outros de forma a que os actores formem ligações entre si. Acho que isso é o mais importante, porque qualquer coisa real que aconteça fora de cena vai encontrar o seu caminho no filme.”

Não é, contudo, um filme que procura uma estrutura clássica de conflicto-resolução. Aliás, sai-se do filme com a mesma sensação com que se entrou. Excepto que, depois de «Afterschool», podemos reconstruir o filme na cabeça e dar a nossa própria interpretação social ou emocional. “Não quis ter respostas no final, isso é uma das razões porque o filme acaba daquela forma. Mas, ao fim ao cabo, a redenção num filme não me interessa tanto como a redenção na vida real. Prefiro criar uma experiência que a audiência tenha que completar assim que sai do cinema”.

«Afterschool» está em exibição, em exclusivo nos Cinemas El-Corte Inglés.

Nota: Existe também outro realizador, Português, de nome António Campos, falecido em 99. Foi no documentário que deixou a sua marca. Começa a filmar nos anos 60, paralelamente a outros realizadores do género, mas sem sequer conhecer as suas obras. Foi um pioneiro da antropologia visual e experimentou com o documentário de ficção e, por isso, merece esta breve nota.



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