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Akron/Family @ Galeria Zé dos Bois

Uma família moderna.

Nada é linear na música dos Akron / Family, banda a três que já leva seis discos na carteira em outros tantos anos. Na Galeria Zé dos Bois (ZdB), no Bairro Alto – onde mais tarde revelam ter jantado -, a banda começa por provocar o público: “Estão tão calados…”, até que alguém grita “Vamos lá” e também eles começam o espectáculo de forma suave, com delicados acordes de guitarra que descambam numa canção folk que podia estar no último de Iron & Wine. É uma boa maneira de justificar as fartas, mesmo que não longas, barbas que caracterizam os três Akron / Family. A início, tudo é muito cuidado, tudo é de uma simplicidade desarmante e tudo é arranjos acústicos. O público continua em silêncio, mas atento ao que passa em palco. E nisto passam-se cerca de dez minutos, sem percussão, mas com palmas pedidas de emprestado a esse tão reverente como silencioso público. Entra por fim a bateria – nos momentos com mais ritmo, a plateia aproveitaria para se abanar, para dançar, embora o espaço seja reduzido – a ZdB está praticamente cheia nesta noite de 20 de Novembro.

Quando está esgotado um quinto do concerto, mais coisa menos coisa, a linha da frente, composta por Seth Olinsky e Miles Seaton, guitarrista e baixista da banda, respectivamente, começa a incentivar o público a uma maior pro-actividade. O duo ensina uma “dança asiática”: braço e dedo indicador no ar, como quando queremos colocar uma questão, uma dúvida, olhos fechados, respirar fundo e derivar o corpo, esquerda, direita, esquerda direita… a ZdB dançou a tal dança asiática enquanto a bateria segue constante, a compasso, hipnotizante. “You look sexy, so fucking sexy!”, exclama Seaton. “Lembrem-se: somos todos constituídos por x percentagem de água. Somos todos iguais por dentro”, conclui Olinsky.

Finado o momento mais bizarro, lá se vão os meninos, os “atinadinhos”, e somos levados por uma aula de pancadaria que leva com camadas e camadas de ruído – o microfone na boca de Olinsky, a guitarra e o baixo, tudo distorcido, sons marados, rock completamente estragado. De repente sai um riff à Jimmy Page e esse rock torna-se suado. “Vocês são muito bem comportados. Vamos lá, um, dois, três! Gritem!” – e agora sim, ouvem-se gritos animalescos, o rock torna-se selvagem. O duo, o tal da linha da frente, lança-se em coros catárticos, e apela à participação de toda a gente – misturam-se com o público, pedem bonés emprestados, salto, incitam, quase levam o telemóvel do escriba que, entretanto serve de lanterna, graças à escassa luz na sala. Escangalham-se instrumentos e exibe-se uma longa cavalgada de solos e gritos selvagens, é psicadelismo, é rock progressivo, é rock n’ roll e é sentido. Este texto só podia acabar assim: concerto assombroso.



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