“Além da Literatura” | João Bigotte Chorão

“Além da Literatura” | João Bigotte Chorão

A selecção natural dos livros

Habituados que estamos a elevar o romance aos píncaros da expressão escrita, esquecemo-nos por vezes de outras facetas literárias igualmente ricas. Como exemplo temos a correspondência, cuja transfiguração que adveio da revolução tecnológica torna-a uma arte em remissão. No caso das obras de João Bigotte Chorão, trata-se de uma vasta colecção de escritos íntimos sob a forma de diário, assim como ensaios, crónicas e prefácios, estes últimos uma especialização com todo o mérito. Em “Além da Literatura” (Quetzal Editores, 2014), estão reunidos marcos do seu percurso como leitor, uma série de textos que procuram evitar que certos nomes da literatura portuguesa e europeia sejam silenciados.

O tom laudatório com que se dirige aos seus autores “de eleição” procura, sobretudo, alertar para o fadário do esquecimento, que em muitos casos aparenta ser inexplicável. Alguns destes escritores, bastante populares no seu tempo – como Camilo -, parecem ser cada vez menos lidos e afastados do meio escolar, pese a recente adaptação ao cinema de “Mistérios de Lisboa”. Outros, como João de Araújo Correia, quase já nem fazem parte da memória colectiva. Carece de estudo, e tal não é âmbito deste “Além da Literatura”: apurar o motivo desta espécie de maldição do escritor publicado, se  há de facto espaço para toda a gente que escreve bem.

João Bigotte Chorão reforça a ideia de que temos predecessores a respeitar, que «um homem sem passado é como alguém que perdeu o património», acrescentando que «um povo sem passado é um povo sem história, que alguns querem apagar, como se isso fosse possível». Constamos que muitos dos nomes que figuram em “Além da Literatura” tornam-se cada vez mais significativos somente para um grupo restrito de indivíduos: os que escrevem a História e os cientistas da língua. É o que valida esta edição, na medida em que possa haver interesse em poupar tempo no arquivo ou biblioteca em busca destes textos, pelo menos os que estavam por aí dispersos.

Sem contar com as transcrições de discursos ou traduções do romeno para o português, “Além da Literatura” conta com apenas um inédito, o que diminui o preciosismo desta edição. Seja uma leitura aficionada, seja por mero prazer ou curiosidade, pairará a sensação de se estar perante algo redundante que pouco adianta à demais obra corpulenta do autor. Na porção dedicada ao prolífero erudito Mircea Eliade, por exemplo, a repetição de ideias e frases comuns é de tal forma um fardo que se questiona a missão agregadora dos trabalhos do autor com um simplório “isto é para encher chouriço”. Fica retido como matéria para um teste que, além da grandiloquente vida e obra do romeno, Eliade foi também autor de “Salazar e a Revolução em Portugal”, e que fez comentários depreciativos sobre o país onde viveu de 1941 a 45 no seu “Diário Português”, embora, para atenuá-lo e apaziguar os críticos a posteriori, também se tenha contradito com elogios.

Pese a apresentação polida e bonita, “Além da Literatura” não fará mossa na restante obra de João Bigotte Chorão que, caso continue a ser lido, terá mais presente entre nós uma obra que não esconde a influência de Miguel Torga: “Diário quase completo”. Certamente que a consulta das obras que moldaram estes breves textos é mais do que recomendada. Infelizmente fica-se pela entrada, criando algum fastio para os restantes pratos.



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