“Alguém para Tomar Conta de Mim” de Yrsa Sigurdardottir

“Alguém para Tomar Conta de Mim” de Yrsa Sigurdardottir

Nas labaredas de uma peculiar justiça

Em 2009, um incêndio criminoso que vitimou cinco pessoas e destruiu as instalações de um lar de cuidados continuados em Sogn, a sudoeste da Islândia, colocou o pequeno país em sobressalto. A culpa fora atribuída a Jakob, um jovem adulto com síndrome de Down que na sequência da investigação foi condenado por fogo posto.

Não convencido com o veredicto, Jósteinn Karlsoon, um sociopata internado na Unidade Psiquiátrica de Sogn, assumindo-se como camarada de Jakob, entra em contacto com a advogada Thóra Gudmundsdóttir solicitando a reabertura do caso pois acredita na inocência do punido.

Ainda que muito receosa e timidamente, Thóra embrenha-se no caso e num ápice descobre, entre outras questões, como a sociedade ainda vê e trata os portadores de deficiência. Até ao início da década de 1990, estas pessoas não tinham direito a cuidados especiais e eram, muitas vezes, em casos de extrema gravidade, encerradas em prisões comuns.

Esta disfuncionalidade social muito distante de qualquer laivo de solidariedade, ajuda a contextualizar uma investigação que ameaça mexer com a estrutura da própria sociedade islandesa mergulhada numa profunda crise financeira e também moral.

Aos poucos, certezas e dúvidas ganham espaço num invernoso janeiro de 2010 que apenas aquece verdadeiramente devido ao mistério que Thóra tem entre mãos. Na companhia do seu companheiro Matthew, também ele abraços com as contingências da crise financeira que assola todo o continente, a advogada revê processos, entrevista familiares das vitimas e condenado, conversa com funcionários ligados à referida instituição psiquiátrica de Sogn e os resultados são preocupantes.

As visões de um incêndio criminoso, assassinato, violação e corrupções várias ganham corpo e para complicar ainda mais toda a investigação surgem dados sobre a morte de uma jovem por atropelamento e fuga, uma casa assombrada e alguns violentos e expressivos desenhos sobre a vida do internato na Unidade Psiquiátrica de Sogn.

Enquanto isso, Thóra recebe mensagens de texto anónimas que apontam direções precisas na investigação e tenta, exasperadamente, juntar as múltiplas peças de um enigmático puzzle.

À semelhança de toda a restante obra da islandesa Yrsa Sigurdardottir, “Alguém para Tomar Conta de Mim” (Quetzal, 2015) é um livro complexo, aditivo e que coloca o dedo na ferida da sociedade dita moderna que tende a esconder problemas (familiares ou outros) com falsas aparências, crimes e delitos realizados em proveito de uma verdade que se quer real, induzida.

Com uma assinalável dose de suspense, Sigurdardottir oferece-nos mais um grande thriller construído com uma bem-sucedida fórmula narrativa que faz com que cada capítulo seja revelado através de uma metodologia em crescendo que, numa primeira fase, contextualiza a ação e revela cenários e protagonistas, para depois, já no domínio dos diálogos, acelerar uma trama que desagua quase sempre numa frase ou ideia derradeira que serve de essencial pista para o que se segue.

Autêntico exemplo do que de melhor se faz em termos da dita literatura policial (nórdica), “Alguém para Tomar Conta de Mim”, eleito por alguns órgãos de referencia como o “Policial do Ano” e cujos direitos foram entretanto já reservados para uma futura adaptação hollywoodesca por parte do veterano produtor sueco Sigurjon Sighvatsson, apresenta os ingredientes certos de intensidade, emoção e assertividade que tornam este livro num dos mais interessantes dentro do género e que lhe vale, dizemos nós, a comparação com clássicos como “Voando Sobre um Ninho de Cucos” de Ken Kesey, muito por culpa por uma pertinente reflexão sobre as perturbações mentais e as consequentes questões sociais das mesmas.



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