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Halloween @ Galeria Zé dos Bois

A Bruxa evaporou-se.

À segunda visita ao centro de Lisboa, na noite de 31 de Outubro, Allen Halloween foi recebido com uma casa cheia de entusiastas da sua música. O aquário da ZDB, agora com ar condicionado instalado e a funcionar (para felicidade dos ouvintes de boa música), teve lotação esgotada. Em Abril, no São Jorge, o panorama tinha sido bem diferente: mau som, pouca gente a assistir, mais interessada nos comes e bebes da inauguração de um festival de cinema do que nas palavras do rapper de Odivelas. Deu a ideia, na altura, que Halloween se agastara com a pobre recepção. Pensou-se, por isso, que desta vez, e até porque desde o lançamento de “Árvore Kriminal” tem andado nas bocas do mundo, a apoteose era certa. Não foi bem assim.

Em noite das bruxas, regada a chuva molha-tolos, o público esperou cerca de uma hora por Allen e a sua crew Youth Kriminals. A demora serviu para fazer crescer ainda mais as expectativas, que já eram altas. O início do concerto, apesar do som fraquito, não desiludiu. Halloween é daquelas pessoas intensamente carismáticas, que exerce um estranho fascínio (feitiço) sobre quem o ouve e/ou vê; apesar do palco estar tão movimentado como um metro em hora de ponta, era difícil não lhe devotar toda a atenção. Ele nem precisa de uma entrega feroz, passeia-se para cá e para lá, nunca baixando o capuz, ora declamando os seus versos, ora gritando-os (não tem um flow espantoso, mas o carisma da sua pessoa continua na voz), deixando as demonstrações mais espaventosas para a sua Kriminal Família.

Se começou bem, o concerto continuou melhor: nem os já referidos problemas de som, nem o muito fumo na sala (proibido em mais do que um sentido) travaram a forte sequência de canções — do último álbum e coisas mais antigas —, que o público conhecia e cantava. De repente, depois do hino «Fly Nigga Fly», e quando ainda não se tinha chegado à hora de concerto, Halloween abandonou o palco pela primeira vez, despedindo-se. Paragem surpreendente e que deixou os espectadores perplexos (pelo menos este).

Allen Halloween voltaria, uns dez minutos depois, sentando-se no palco, invisível para quem não estava lá à frente, e queixando-se da voz que lhe começava a faltar (e notava-se). Foi sol de pouca dura. Mais quinze minutos, abrigado por nova enchente, sai outra vez do palco, despercebidamente, para não mais voltar. Alguns membros da sua crew tentaram manter a chama acesa, mas, um divertido improviso e algumas tentativas de engate depois, as luzes acenderam-se, significando o fim do concerto.

A resposta para este misterioso desaparecimento encontra-se, provavelmente, nas letras (tantas vezes brilhantes) de Halloween: é evidente que o sucesso o assusta, assim como a possibilidade de se tornar num “vendido”, num dos poseurs que odeia, sentimento de certeza acirrado pela presença de muitos brancos de classe média (como eu), de que guarda algum ressentimento, no meio do seu público; por outro lado, fica a sensação de que Allen, uma voz dos subúrbios, que olha a capital de fora, como uma terra quase estrangeira, não se sente ali em casa.

Claro que há, neste último parágrafo que escrevi, uma boa dose de especulação, e que, se calhar, foram as falhas de voz a principal razão para ter abandonado o próprio concerto. Até podia estar só doente, constipado ou engripado, ou então, tal como a bruxa em “O Feiticeiro de Oz”, simplesmente evaporou-se com a chuva miudinha que caía.



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