Amatorski

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Paisagens de Flandres prestes a invadir a Europa; estivemos à conversa com a banda

Quando os Amatorski se juntaram e decidiram canalizar os ensinamentos do Conservatório de Música do Gent, talvez não imaginassem que estavam prestes a conquistar vários corações pelas suas redondezas. Com uma base de fãs bastante sólidas na Bélgica e na Holanda, a banda de Inne Eysermans (voz e piano), Sebastiaan Van Den Branden (guitarra), Hilke Ros (contra-baixo) e Christophe Claeys (percussão) acaba de assinar pela Crammed Discs e prepara-se para conquistar o resto da Europa – a começar com a reedição do material no mercado europeu.

Decorria a Primavera de 2010 quando se começou a ouvir «Come Home» na rádio flamenga: uma tenra balada sobre o amor à distância, com rasgos de sinceridade e guitarra corrida ao género dos anos 50. Mas com bastante minimalismo, de onde brotava a frágil voz de Inne Eysermans; no EP, “Same Stars We Shared”, a situação mudava um pouco. Um pesaroso piano incorporava-a na faixa-título e uma secção de cordas comportava-a dramaticamente em «My favorite work of art»; enquanto se abria num ambiente mais solarengo a lembrar a banda sonora de Karen O para “Where the Wild Things Are”: a faixa «The King».

Um ano depois, era tempo de gravar o primeiro disco. “TBC” continuou a canalizar esse dualismo feito de matéria-de-sonhos, mas com uma renovada profundidade. Em «Soldier», talvez o mais bem recebido single, ouve-se uma desesperante mensagem a emanar por batidas emprestadas aos Portishead. Mas o minimalismo mantém-se: há espaço para «Never Told», uma faixa ao contra-baixo e à tímida guitarra, que acorre com os teclados a um clímax que os encaminha mais para o post-rock.

Mas a segunda metade revela o culminar das pistas deixadas, com uma promissora capacidade de criação de atmosferas ora sónicas, ora oníricas. Em «22 Februar», com grande atenção à produção, vão surgindo várias camadas de uma mensagem que só é inocente nas aparências. O grande momento talvez chegue em «8 November», no início profundamente melancólico e a caminhar para um culminar instrumental catártico. Volta a raiar o sol por «The Cheapest Soundtrack».

Estivemos à conversa com Hilke Ros, o contra-baixista da banda.

Como é que nasceram os Amatorski?

A Inne [Eysermans] lançava músicas no Myspace e depois foi para o Conservatório de Música, no Gent, para estudar produção musical. Foi aí que conheceu o Sebastiaan [Van Den Braden] e o Christophe [Claeys], que tocavam guitarra e bateria, e pensaram que talvez devessem juntar-se e formar uma banda ao vivo. Eu também lá estava, mas estava um ano antes deles e tinha uma aula com o Sebastiaan e o Christophe. Um dia perguntaram-me se queria juntar-me a eles e foi assim que começou.

Como o Gent foi o epicentro, entra no processo de escrever música?

O Gent foi onde começámos a estudar e agora vivemos todos aqui, mas foi principalmente o sítio onde nos conhecemos. É uma cidade muito criativa, por isso ajuda a fazer música. Mas acho que a música vem de dentro de nós e não tanto das vibrações da cidade.

É verdade que começaram a distribuir o material por vossa conta?

Tínhamos uma distribuidora, a Munich Records, que faliu no início do ano passado. Quando trabalhámos com eles, eram bons parceiros porque nos deram grande divulgação na rádio com o single «Come Home» e era importante que os discos estivessem nas lojas. Assim, podíamos manter-nos bastante independentes enquanto eles tratavam da distribuição física. Promoveram o “TBC” quando o lançámos também e correu muito bem na Bélgica e na Holanda. Entretanto decidimos assinar com a Crammed porque queríamos uma história mais internacional.

Sei que a capa do disco de remisturas do “TBC” [“re:TBC”] veio de um passatempo que organizaram, e também a letra da música «Sonar»

Sim, são duas coisas. Para o disco de remisturas, começámos a receber remisturas de várias pessoas e depois achámos boa ideia remisturar também a capa do disco. Então organizámos um concurso e recebemos propostas muito boas, incluindo, claro, a que ganhou, a Jenna. No início estávamos com medo de não receber participações suficientes mas a aceitação foi excelente.

Em relação à letra da «Sonar», é uma coisa organizada na Bélgica que é a “Feira do Livro” que promove vários artistas. Este ano foi a nossa vez e gravámos uma demo instrumental e as pessoas podiam submeter letras: foi assim que fizémos a música, com a letra do texto vencedor.

Essa proximidade com os fãs permite um feedback muito directo, certo?

As pessoas reagem a isso muito bem. Gostamos de fazer coisas destas para manter as pessoas e os fãs envolvidos. Acho que hoje em dia é importante, quando és um artista, usar o poder da internet, porque é o que faz a diferença. Que possas estar próximo da tua audiência.

Que referências é que surgem no processo criativo?

É difícil responder a isso porque ouvimos estilos muito diferentes de música e artistas muito diferentes. Acho que a forma como fazemos as coisas é muito atmosférica e muito aberta e subtil e isso se calhar está muito relacionado com bandas escandinavas e islandesas – toda a gente fala dos Sigur Rós, claro – ouvimos isso muitas vezes. Mais recentemente, dirigimo-nos para outros tipos de música… sabes, és influenciado por tantas coisas, e não só na música, filmes também e coisas assim.

Mas parece que tomam uma direcção mais negra no disco, em relação ao primeiro EP. Como na «8 November», em que aquilo começa muito melancólico mas depois vai acabar num grande estardalhaço…

Sim… se considerares como é que os registos surgiram, muitas músicas foram criadas no mesmo período. Em 2010 decidimos que tínhamos de lançar alguma coisa e as quatro faixas do EP iam muito bem juntas. Foi por isso que as lançámos como um conjunto. A nível de produção, muitas delas foram gravadas no quarto. Muitas faixas do disco foram escritas no mesmo período, mas entretanto fomos tocando ao vivo e elas evoluíram e só depois é que as gravámos. O processo foi um pouco diferente, mais negro talvez… mas eu acho que são é mais elaboradas, com mais orquestrações, menos acústicas e mais electrónicas. Costumamos ouvir dizer que têm sempre um lado negro, associado a um sentimento melancólico, mesmo as do EP – mas talvez essas sejam um pouco mais ingénuas do que as do disco.

Fiquei também com a sensação de que há um destinatário em cada faixa

A Inne é que escreve as letras, mas já a ouvi explicar isso e acho que te posso explicar. A aproximação varia muito de canção para canção. Ela tenta contar histórias e vai buscar inspiração a situações reais dela ou de outras pessoas. Às vezes é ela que está a falar, às vezes é outra pessoa.

O que significa “TBC”?

Gostámos desse título porque pode ter muitos significados. Podes interpretar como quiseres e isso também serve as músicas e as letras: é assim que olhamos para isso. Podes dar-lhe o significado que quiseres.

Sendo todos de Flandres, porquê o Inglês?

Soa-nos um bocado estranho cantar alguma coisa em Holandês – ainda que o concurso da letra fosse em Holandês, o que acabou por ser uma experiência muito interessante. Eu acho que há menos confronto quando escreves noutra língua. Se escreves em Holandês, a coisa torna-se mais pessoal. Com o Inglês, há mais distância entre ti, enquanto pessoa, e o que dizes na música. É mais confortante e natural. Acabas por evitar esse confronto, o que não sei se é deliberado. Há muitas bandas flamengas a escrever em Inglês, ainda que também haja quem o faça em Holandês, naturalmente.

E o futuro?

Temos trabalhado em bandas sonoras. Há uns meses fizemos a banda sonora para um programa na televisão flamenga, “1 op 10”: uma série de documentários sobre pessoas que vivem na pobreza, o primeiro episódio estreou na última quinta-feira. Agora, estamos a trabalhar na banda sonora de um filme holandês chamado “In Your Name” (no original, “In Jouw Naam”). Estamos também a trabalhar num projecto multimédia chamado “Deleting Borders”, que é um projecto online e que vem da ideia de que a internet acabou com muitas fronteiras – entre a audiência e o artista, entre os domínios da arte… Vai haver um site onde podes criar a tua versão pessoal de uma música nossa, que vai ser lançado no início de Abril. Também haverá uma parte de performance ao vivo associada, que começa em Antuérpia no dia 18. Lá para o Outono vamos também andar na estrada em Países que nos conhecem melhor (como a Bélgica ou a Holanda) e vamos andar um pouco pela Europa a promover o lançamento internacional do “TBC”.

O repertório completo dos Amatorski está disponível no respectivo Bandcamp



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