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Apocalyptica e Livingstone @ Aula Magna

Metal é metal, seja com que cordas for.

Concertos na Aula Magna onde se veja o públicos de pé são raros; concertos na Aula Magna onde se veja o público de pé e a fazer headbanging ainda mais raros são. Mas foi assim na noite em que os Apocalyptica encheram uma das mais icónicas salas de Lisboa (do país, até) num concerto energético, agressivo, forte, visualmente e sonoramente exemplar, com punhos no ar e vocalistas a gritar ao público para cantarem mais alto. A sala é para concertos sentados, mas os assentos de pouco serviram para um género de concerto que os dispensa; afinal de contas, os Apocalyptica fazem metal… apenas de forma um pouco diferente.

Os mais desprevenidos talvez tivessem ficado surpreendidos ao ver a monumental fila à entrada da sala meia-hora antes do início do concerto. É inegável que o metal é, por cá, um género muito amado (os Metallica vêm cá todos os anos, e os festivais costumam ter um dia dedicado apenas a este género), e sendo os Apocalyptica já uma banda consagrada dentro do meio, era de esperar a enchente que se verificou tanto à entrada como dentro da própria sala, onde muitos tentavam arranjar um lugar o mais perto possível do palco numa sala já muito cheia; olhando para cima, até as tribunas (lugares normalmente vazios) estavam ocupadas.

O público, esse, era surpreendentemente ecléctico. Avós com netos (alguns talvez demasiado novos…), pais com filhos, casais quarentões. Vários com t-shirts das bandas do costume, desde os próprios Apocalyptica aos incontornáveis Slayer ou, claro, Metallica, e vários outros vestidos de forma mais formal (sim, até um homem de fato e gravata andava por lá). Foi uma verdadeira mescla, com um público constituído por todas as faixas imaginárias. A própria quantidade de público presente foi, claro, uma indicação disso mesmo (não esgotou, mas andou perto).

A ansiedade sentia-se no ar como raramente se sente, e quando as luzes se apagaram para deixar entrar Livingstone, banda que fez a primeira parte, muitos aplaudiram com um entusiasmo que certamente rapidamente se terá transformado num “Ah espera, ainda não são eles…”. Entusiasmo esse que rapidamente foi recuperado, graças a uma primeira parte feita com empenho e talento. Os Livingstone não trazem nada de novo, mas são uma banda de rock que faz bem aquilo que faz, com um som catchy e agradável que facilmente cativa qualquer público. Alguns belos toques de originalidade (muito agradável, quando o vocalista e o guitarrista se reuniram à volta de um tambor) e sem dúvida muito empenho deram-lhes uma recepção mais que meramente calorosa por parte duma Aula Magna cheia para ver outra banda; um feito sem dúvida notável que, por si só, mostra que ali há-de haver talento. Excelente e surpreendente primeira parte; agora, que venham cá a solo.

E pouco depois, entravam finalmente os senhores esperados com uns meros cinco minutos de atraso: Apocalyptica, o grupo de três violoncelistas (e um baterista, contratado há sete anos) que um dia se juntou para tocar covers de Metallica e que, hoje em dia, anda por aí com sete álbuns na bagagem a tocar por todo o mundo. Foram longe, e a recepção que tiveram foi exemplo disso: uma Aula Magna cheia de pé para a chegada da banda ao palco, intensa e com um belo jogo de luzes, numa entrada que um amigo meu apelidaria de “Épica”; pela reacção do público, não foi o único.

O que se seguiu foi aproximadamente hora e meia de puro metal, energético e primário, contagiante e agressivo. Os Apocalyptica podem ter violoncelos, mas é como se tivessem guitarras eléctricas: usam efeitos de distorção, correm pelo palco, e gritam pelo público. Caem por vezes em momentos demasiado genéricos, onde o sentimento de “Onde é que eu já ouvi isto antes?” atinge o espectador, principalmente nas músicas com voz; neste caso a de Tipe Johnson, músico que acompanhou a banda no concerto para interpretar as músicas onde um vocalista é necessário. Mas mesmo nestes momentos a devoção do público é completa, e esse sentimento de deja vu é facilmente colmatado pelo profissionalismo e empenho de uma banda que não pára a partir do momento em que entra em palco.

Começaram com originais, logo reconhecidos pelo público que não tardou a levantar-se. «Grace», terceira canção, foi talvez o primeiro grande momento de aclamação do espectáculo, com os músicos a correrem pelo palco perante um público a fazer um constante headbanging com punhos no ar. E logo a seguir veio um dos melhores momentos de toda a noite: «Master of Puppets», uma daquelas que tinha mesmo de se ouvir. Não interessa que os Metallica cá venham todos os anos, não interessa que nem tenham sido eles a tocá-la: foi cantada como o hino que é pelo público e pela própria banda (longe dos microfones, claro…), com bateria perfeita e violoncelos o mais perto possível do mesmo. Tornou-se aqui óbvio que não se pode, naquele instrumento, obter a rapidez ou energia que se obtém numa guitarra eléctrica; o solo final ficou algo difuso, disforme até. Ainda assim, foi apenas uma pequena falha num grande momento.

Se as covers tocadas ao longo da noite foram todas elas recebidas com aplausos, gritos e devoção, o mesmo se pode dizer das originais. Mesmo quando a banda se sentou e ficou reduzida a um trio para tocar algumas canções mais calmas (o trio «Beautiful», «Sacra» e «Bittersweet»), as ovações de pé a meio de canções foram frequentes, mostrando um público familiar ao lado mais soft e  clássico da banda, que aqui abandonou o seu estilo metaleiro para se concentrar naquilo a que Eicca Toppinen, o violoncelista porta-voz da banda, chamou de “lindíssima música clássica de violoncelo”. Sendo a banda constituída por violoncelistas treinados classicamente, não é de espantar o magnífico domínio que mostraram ter dos seus instrumentos, num momento que foi, realmente, lindíssimo. Quebrou um pouco o ritmo, mas quebras assim agradecem-se.

A setlist foi exemplar por conciliar tanto as canções originais da banda como as covers que os tornaram famosos; se o corpo principal do concerto terminou com magníficas versões de «Seek and Destroy» (“Épica”, como diria o meu amigo, aplaudida e cantada a altos berros) e a obrigatória «Inquisition Symphony,» logo a seguir veio o encore com «At the Gates of Manala», a emocional (e algo banal/genérica, mas perdoa-se) «I Don’t Care» acompanhada por um público mais que conquistado e um ou outro isqueiro no ar e, a fechar, a grandiosa «Hall of the Mountain King», música caótica, com bateria ao máximo e violoncelos quase a pedir piedade; final mais que convincente, a manter a boa qualidade a que a noite tinha habituado.

Metal é sempre metal, seja de que forma for; e metal bem feito é sempre uma noite bem passada. Os Apocalyptica tiveram o público na mão do início ao fim, e mereceram-no.

Metal é sempre metal, mas raramente é assim tão bom.



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