“Austeridade – A História de Uma Ideia Perigosa” | Mark Blyth

“Austeridade – A História de Uma Ideia Perigosa” | Mark Blyth

A insustentabilidade económica e as teorias dos cintos apertados

Ainda longe de se pensar, realmente, na profunda crise financeira que o mundo de hoje atravessa, a francesa Viviane Forrester preparava o planeta para um futuro próximo, em 1996, com o premiado ensaio “O Horror Económico”, uma acutilante crítica ao ultraliberalismo e que colocava em cheque as “virtudes” do capitalismo pós-industrial e as teorias económicas nascidas nas últimas décadas do século XX.

Ainda que muitos continuem a venerar as teorias de Adam Smith, a conjuntura atual mudou drasticamente as noções de sustentabilidade financeira e económica e, a crise vigente, dificilmente será debelada em grandes sacrifícios.

As despesas geradas pelos Estados são vistas por muitos como as principais causas da deterioração da economia, apontando aos governos o dedo acusador face à irresponsabilidade e ao desperdício de gastos. Para “remendar” e tentar encontrar uma solução a curto-médio prazo implementam-se políticas selvagens, onde o corte orçamental castiga sobremaneira o cidadão. Será o apelo ao aperto do cinto um sinónimo asfixiante?

No cerne da questão existe uma tendência crescente para os responsáveis governamentais “esquecerem” a atitude despesista do Estado e virarem baterias para a recapitalização da banca. De privada a dívida passou a pública e os contribuintes levam por tabela. Os impostos crescem, o desemprego agiganta-se, os trabalhadores perdem direitos fundamentais e a precariedade é vista como uma forma de competição.

Estas são algumas das questões abordadas pelo economista e professor Mark Blyth que, em “A Austeridade – A História de Uma Ideia Perigosa” (Quetzal, 2013), alerta para o perigo que as políticas de austeridade severa implicam tornando a eventual salvação económica num pesadelo superior ao que Forrester alertava já em 1996.

Docente de Economia Política na Universidade de Brown, instituição norte-americana localizada em Providence, o escocês é perentório ao rejeitar as mais recentes medidas de corte utilizadas pelos governos e dá, como exemplo, o insucesso crescente que tais políticas representam e que alimentam a castradora ideia de (des)investimento que, a par da recessão global, leva a um buraco sem fundo.

Com este livro, Blyth prova que não podem ser os contribuintes a pagar a fatura e que a austeridade apenas serve para adensar as diferenças económicas entre ricos e pobres, linha cada vez maior face ao homicídio da chamada “classe média”. Bem a propósito dessa ideia escreve o economista escocês: «Quando dizem que todos temos de apertar o cinto, sou o primeiro a concordar, desde que usemos todos as mesmas calças. O que me irrita é a injustiça do corte. Quando se faz isso numa democracia, é desestabilizador. Porque devia ser um campo de jogo nivelado.»

Uma das mais-valias da escrita de Blyth prende-se com a forma simples com que aborda alguns assuntos mais técnicos, conduzindo um discurso de cariz “user-friendly” que faz um exame à história intelectual da própria austeridade. Chamados à discussão, John Locke, David Hume e o já referido Adam Smith vêm as suas teorias expostas, que têm nas noções de propriedade privada e dívida pública pontos de grande relevância. Ficamos também a saber que o argumento da aplicação da austeridade emergiu na década de 1920 quando os Estados Unidos trabalharam sobre a noção de liquidez, ou depois dos britânicos abordarem de outro prisma a questão do tesouro nacional.

Independentemente da sua origem ou destino, a palavra “austeridade” ganhou nova e importante relevância nos dias que correm podendo, o perigo da sua banalização, colocar em causa a efetiva recuperação económica. Tem a palavra Mark Blyth.



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