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Beth Gibbons @ Coliseu dos Recreios (16.07.2025)

Mantém-se, no seu segurar de microfone, no seu timbre particular e inconfundível, icónica. Construtora de canções que na sua aparente simplicidade e graça continuam a espelhar outras angústias, para as quais encontramos algum consolo, na sua voz.

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Texto por Joana Santos e fotografia por Rui de Freitas.

Beth Gibbons desceu quase até à beira tejo, para nos oferecer uma pérola, uma sereia que não promete a desgraça, não tenta os incautos nem castiga os arrogantes. Deu-nos um momento suspenso, envolveu-nos numa bolha de ar, de sombras e silhuetas de beleza e graça.

A sua voz continua pristina, a interpretação das canções é praticamente sem mácula. Muito poucos viriam ao engano de poder sequer pensar que estas canções seriam apresentadas sem ser como foram, pareceu-nos muito claro que a maior parte das pessoas que encheram o Coliseu dos Recreios, estavam ali como que para uma sessão do culto, com reverência.

O último disco “Lives Outgrown” foi tocado na íntegra, era esse o pretexto para o encontro, a apresentação do disco lançado em 2024. Pelo meio das canções novas, duas canções que Beth gravou no disco “Out of Season”, em parceria com o músico inglês Paul Web, ou Rustin Man, como é conhecido, «Mysteries» e a belíssima «Tom the Model».

As canções, interpretadas irrepreensivelmente pela banda que a acompanhava, foram o foco de toda a atenção, eram elas que interessavam, foi por elas que ali estávamos, e essa intenção era muito clara, no meio da penumbra criada pelas luzes, que, à exceção de breves momentos a meio e no final do espetáculo, se acenderam sobre o palco, vieram sempre do palco para nós.

É talvez seguro dizer que, quase todos nós, acalentávamos uma ínfima esperança de que pelo meio da generosidade das canções tocadas, viessem uns trocos de nostalgia e ecoassem no ar do Coliseu, algumas canções dos Portishead, uma pelo menos. Foi feita a nossa vontade, aos primeiros sons do encore, é imediatamente reconhecida «Roads», recebida com o amor que merece. Logo depois, «Glory Box» rebenta num geral, “aaahhh” carregado de breves aplausos e vivas, rapidamente contidos para não deixar escapar nem um segundo. “Give me a reason to love you” acompanhado quase em surdina por quem não se continha de partilhar o apelo, a nostalgia e a alegria.

Num mundo em que quase tudo é efémero, em que poucas coisas duram mais do que o tempo de um reel, de um meme, em que a música que arrasta multidões e consome todo o espaço à nossa volta é barulhenta, com todos os artifícios, empacotada numa embalagem que também tem de brilhar, Beth Gibbons mantém-se, resiste e insiste em fazer canções que, lá atrás, nos longínquos anos 90 das dores do final da adolescência, ecoavam e refletiam o que não conseguíamos articular de forma coerente, por nos faltar vocabulário que só em retrospectiva conseguimos construir. Mantém-se, no seu segurar de microfone, no seu timbre particular e inconfundível, icónica. Construtora de canções que na sua aparente simplicidade e graça continuam a espelhar outras angústias, para as quais encontramos algum consolo, na sua voz.

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