Big Hug
Gabriel Abrantes e Little Claw @ Musicbox.
No passado dia 19 de Março o Musicbox mostrou a alguns (poucos) curiosos e simpatizantes de alguma da multidisciplinariedade criativa o que o independente actual, no que à música e cinema diz respeito, concentra em si mesmo.
Gabriel Abrantes – jovem realizador que além de financiador dos seus trabalhos foi autor da pertinente “Visionary Iraq”- e Little Claw – formação de Portland que assumiu nesta noite algum do histerismo rockeiro que lhes é conhecido – foram motivo de sobra para quem se dirigiu nesta noite à sala do Cais do Sodré na perspectiva de uma noite realmente diferente.
“Big Hug” rompeu as hostilidades e teve como banda sonora uma jovem flautista da secção de sopros do Conservatório Nacional. A película é o último trabalho do jovem Gabriel Abrantes e foi rodada em Trás-os-Montes.
Crítico e analista, Gabriel Abrantes tem no Portugal caricato, profundo, desigual e algo promíscuo a matéria ideal ao seu molde. E é no decorrer da moldagem, com as personagens a manusear toda a tensão, alerta e arrivismo do artista que se lhe descobre o carácter dual fantasioso e realista. Tão rude e visceral como irónico e factual.
“Big Hug” transforma as vicissitudes da região transmontana numa espécie de ideal que globaliza as reacções independentemente da região em que os episódios ocorrem. Sem qualquer receio na abordagem pitoresca e divertida dessa realidade, a pelicula transforma o ridiculo em objecto de reflexão.Na curta convivem, lado-a -lado, o desejo e sedução bizarras, a sub e insubmissão do carácter humano, o provincianismo e interesse pelas vidas de outros.
Acompanhar o trabalho deste jovem cineasta é actividade que, claramente, se sugere.
Os Litlle Claw vieram de seguida, mas não convenceram o suficiente para agitar com vontade numa sexta à noite.
Vagueando entre a sujidade tímbrica assente nas duas baterias e guitarras, e um certo tropecimento baladeiro, expresso quer na postura experimental da banda como na projecção vocal, por vezes desconexa, apresentaram temas do seu mais recente “Human Taste”.
A dificuldade em sentir as duas vozes sob a intromissão desconcertante de duas baterias não ajudou o resultado final.
Certo é que os Little Claw poderão assumir na natureza mais arbritária e até trôpega da sua musicalidade alguma, sofrível, originalidade. O que não significará necessariamente algo de muito positivo.
Reservam-se, ainda assim,as intenções de «Crawl Around Inside»e «Modern Vampire» a desafinação deliberada de «Movies For You» e, claro, «Human Taste».
A contemporaneidade é por vezes (des)fragmentada e a convivência de pedaços da actualidade num mesmo espaço não terá, por isso mesmo, de inusitar algum tipo de clarividência artística que justifique essa união.
Ver e pensar em Gabriel Abrantes não induz uma presuposição no universo musical de Little Claw, pode-se antes sentir nessa reunião uma tentativa abrangente de revelar o convívio experimental (salutar) de sensações ao nível artístico independente.
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