rdb_byebyebicycl_header

Bye Bye Bicycle

Entrevista a Anders Vikingsson, vocalista, e crítica a "Compass"

Comecemos pelo princípio, o nome da vossa banda é Bye Bye Bicycle: pode interpretar-se como um adeus à adolescência ou tem um significado completamente diferente? De qualquer maneira, sente-se na vossa música uma saudade pelo tempo em que eram (mais) novos.

Anders Vikingsson – Nós nem sabemos muito bem por que é que escolhemos este nome, só sabíamos que estávamos fartos de todas aquelas bandas começadas por The… Mas um “adeus à adolescência” é uma ideia interessante, embora ainda fossemos adolescentes e muito miúdos quando formámos a banda e escrevemos o álbum. As nossas canções são um olhar sobre o passado: de onde viemos, como nos conhecemos, como é as coisas eram quando éramos mais pequenos. Não sei porquê, mas estes pensamentos têm uma aura romântica à volta deles, e costumo pensar muitas vezes como é que seria a minha vida se nunca tivéssemos formado a banda ou até por que é que começamos a tocar… Ainda bem que o fizemos.

Se não estou enganado, vocês andarão pelos vinte e poucos anos, mas a vossa música soa como a de alguém que tem trinta e muitos (ou que tem as memórias de uma pessoa dessa idade). O que me traz às vossas influências: a New Pop dos ABC e Spandau Ballet, os Smiths, os Tears for Fears e alguma “música do mundo”.  Andarei muito longe?

Reconheço e aprecio muita dessa música. A Pop dos anos 80 é muito elegante e sofisticada e a “música de mundo” pode ser maravilhosa. Acho que nos inspirámos na maneira de se fazer música nos anos 80 pelas melodias e pela produção delicada. Às vezes, quando ouvimos música actual ficamos fartos dos sons e dos arranjos, muitas bandas de agora soam ao mesmo.

“Compass” é o álbum de alguém que foi deixado para trás. Sabemos que os vossos amigos foram todos viajar mundo fora, enquanto vocês ficaram em casa a trabalhar neste álbum. Esta é a vossa forma de fazer essa viagem, imaginando-a, imaginando os lugares distantes onde eles foram? Ou seja, será um álbum de uma não-viagem? É por isso que aparecem alguns elementos de “música do mundo” – as congas, a guitarra arábica?

Sim, esses elementos de “música do mundo” conjugam-se com o tema da não-viagem do álbum. Eu descrevo “Compass” como a música de uma viagem à volta do mundo, sem se sair do mesmo sítio. É um álbum conceptual duas vezes. Há o conceito do álbum — a viagem — que é feita de memórias (conceitos) imaginárias. Foi uma maneira muito divertida de gravar o álbum: imaginar diferentes lugares e sentimentos. Quase como viver numa ficção…

Só uma curiosidade: Na vossa canção «Kairo», a música lembra-me dos GNR, uma banda portuguesa. Mas é impossível que vocês os conheçam ou os tenham ouvido. Talvez ambos tenham sonhado com viagens a locais longínquos e tenham acabado no mesmo sítio. Talvez  possam arranjar o CD do “Os Homens não se querem bonitos” quando cá vierem tocar em Abril.

A sério? Uau, temos de ouvir isso. O nosso conhecimento sobre Portugal limita-se à geografia e à História. Muito aborrecido… mas prometemos melhorar o nosso conhecimento sobre Portugal quando estivermos aí.

“Compass” é o álbum de alguém que foi deixado para trás. Na primeira parte, as canções falam de um ser amado que se foi, na segunda parte, é como se tivessem a tentar esquecer-se e na última canção “Footstpes” desistem. Estarei a divagar?

Parece-me que andaste a ouvir o álbum com uma mente aberta, e construíste a tua própria história. Uma história que se assemelha àquela que nós ouvimos nele, mas isso não é importante. O que nos interessa é que cada um traga os seus pensamentos para o disco. Não pretendemos impor uma versão definitiva dos “factos”.

Numa altura de consumo rápido de música na Internet, quando cada canção funciona como um single, vocês fazem um álbum conceptual que conta a história de uma não-viagem e até está dividido por um “Meridian”. A ideia de “álbum” é assim tão importante para vocês?

É muito importante, “Compass” é um álbum que deveria ser ouvido da maneira clássica, quer dizer, para quê fazer um álbum se ninguém vai ouvi-lo como tal, para quê contar uma história se só vão ouvir uma parte dela. Por outro lado, também é importante que existam canções que sobrevivam por elas próprias, se não, não temos singles. A nossa ideia com “Compass” foi fazer um álbum conceptual sem forçar as pessoas a ouvir o álbum completo. Mas se gostarem dos singles, ouçam a história toda!

Agora a pergunta do costume sobre o futuro: sei que estão a gravar um novo álbum, como é que vai ser, muito diferente deste, vai ser sobre outra não-viagem?

Sim, estamos a trabalhar num novo álbum, e, sim, iremos continuar a trabalhar sobre um conceito porque é mais fácil e estamos habituados. (risos) Mas prometemos que não vai soar ao mesmo. Se não reinventamos o nosso som, cansamo-nos muito depressa de fazer sempre a mesma canção uma e outra vez. Mas, ao mesmo tempo, a música tem de soar a Bye Bye Bicycle. A reinvenção é boa desde que não se perca a ligação ao que se fez antes. Acho que a isso se chama progredir.

————————————-

Crítica

Bye Bye Bicycle, “Compass”

Sorrisos de uma noite de Verão

Desculpar-se-á ao autor desta crítica a menção de um filme de Ingmar Bergman logo no sub-título. Os Bye Bye Bicycle — oriundos de Bovallstrand, uma pequena vila costeira — são tão suecos como o realizador, mas os pontos de contacto entre uns e outro ficam-se por aí. No entanto, há algo — uma certa nostalgia de um amor adolescente que se perdeu, de um amor de Verão que não ficou— que lembra esse filme. Quem o viu, saberá que os sorrisos não duraram para sempre e se tornaram em lágrimas. Os Bye Bye Bicycle — mal saídos da adolescência — cantam essas lágrimas.

Não serão uma absoluta raridade, mas os discos conformados a um conceito escasseiam nestes dias de consumo rápido de música, mais dados ao single do que ao álbum conceptual. Os Bye Bye Bicycle rebelam-se com o facto e em “Compass”, em vez de contarem só uma história, contam logo três.

A primeira, a que se percebe imediatamente pela capa, pela rodela do CD, pelos títulos das canções, é a de uma não-viagem. Os membros da banda viram os seus amigos partir, cada um para o seu destino, enquanto ficavam na sua terra a compor e a gravar este disco. Daí que tenham decidido viajar através dele. Ouvem-se recordações fictícias de idas a terras longínquas, umas congas ali, uma guitarra meio-árabe acolá. Um turismo de bilhete postal sem se sair de casa, como nos melhores livros de aventuras da infância.

A segunda, é ainda de outra viagem. Uma viagem às memórias musicais de irmãos vinte anos mais velhos, que ouviam a New Pop elegante e sofisticada dos ABC, dos Spandau Ballet, até dos Duran Duran, se deleitavam com a guitarra de Johnny Marr nos Smiths («NorthPole» é uma espécie de homenagem a «Barbarism Begins at Home» da banda de Manchester) e se abraçavam ao som da grandiloquência coral dos Tears for Fears. Nostalgia pelas memórias de outrem, quando trabalhadas assim (um pouco como George Lewis Jr. faz nos Twin Shadow), são tão perversas quanto viciantes.

A terceira, é a de uma paralisação. Sente-se o abandono do ser amado (é aqui que se recorda os sorrisos de Bergman), na primeira parte do disco, só se fala desse desgosto de amor, fala-se como quem diz, obceca-se. No fundo, não houve viagem porque essa mágoa petrificou. Na segunda metade do disco, aparece uma esperança, um fiozinho de luz ao fundo do túnel. É possível voltar a andar, é possível sair dali… Mas não é. No fim, na última canção, «Footsteps», fica a certeza que os esforços foram em vão e não vale a pena tentar o impossível. A tentativa de fuga fica-se por uns passinhos. Vem a resignação.

O melhor de “Compass” vem da fricção destas três histórias, contadas ao mesmo tempo, umas em cima das outras. Os Bye Bye Bicycle são Pop da boa, não vão revolucionar a música, nem tencionam fazê-lo, fazem uma viagem pelos clássico sem perderem a bússola das nossas memórias. (E, como simples curiosidade, em «Kairo» lembram as aventuras por locais distantes dos nossos GNR.) Um álbum muito recomendável.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This