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Cais 24

“Alma urbana” atraca na 24 de Julho.

“Uma memória dignifica-se pela sua reutilização”. As palavras são de Manuel Aires Mateus e expressam a intervenção que deu novo uso à Fábrica do Pinhol, na Avenida 24 de Julho, e que transformou o que era um património histórico industrial num lugar para viver à beira Tejo. Com o rio no horizonte, os olhos em cima do Museu do Oriente, de Carrilho da Graça, e a respirar o ambiente portuário e o sentido fabril que em esforço vai tentando não arredar pé de Alcântara, nasceu o Cais 24.

Tons de rio, alma urbana

A necessidade de recuperar um património histórico e arqueológico ditou o futuro da Fábrica do Pinhol, um edifício que estava em acelerado processo de ruína e que precisava de uma urgente recuperação e readaptação de usos. Para o autor do projecto, Manuel Aires Mateus, aquele era um lugar para quem gosta de manter uma relação próxima com o rio, com o porto e com o movimento da cidade, um lugar de “alma urbana”. Datado dos finais do século XIX, e apresentando características industriais exemplares, Manuel Aires Mateus deparou-se aquando da realização do projecto com elementos de destaque, nomeadamente os vãos de dimensões generosas entre pilares, elementos estruturais esbeltos em ferro fundido, espaços interiores luminosos e amplos, fachadas com áreas de envidraçados preponderantes, paredes em tijolo de burro e pilares e vigas metálicas no interior. Talvez por isso, mudaram-se os usos, reabilitaram-se estruturas mas mantiveram-se as fachadas, reinterpretando os vãos e adaptando-os às novas funções, de forma a que interior e exterior se fundissem, se recebesse luz, se promovesse vistas e não houvesse limites geométricos firmados.

Abstracto

Contudo, mais do que na reabilitação, é na ampliação que o Cais 24 ganha contornos de contemporaneidade. É no ligar dois tempos, e no fazer conviver uma pré-existência com um novo volume que ganha uma tradução cosmopolita. A imagem que o edifício iria passar para a cidade e a forma como se iria diferenciar dos demais foram para Manuel Aires Mateus dois aspectos fundamentais. Posto isto, o arquitecto optou por um objecto que apelidou de “abstracto”, aberto e de relação directa com o exterior, revestido por uma pele metálica que se abre e fecha consoante os gostos e quereres de cada habitante. O novo volume nasceu com limites rarefeitos e a exceder o perímetro da pré-existência sobre o qual está pousado, porque, diz Manuel Aires Mateus, “só dessa forma se entende a sua independência conceptual”.  “As texturas das paredes conservaram-se, mudando apenas a cor para uma intensidade neutra. Foi adoptado o cinzento, enquanto estratégia de subtracção cromática urbana. O protagonismo agora será formal, na ampliação, mais do que na reconversão do edifício existente”, pode ler-se na memoria descritiva do projecto.

Renascer

“O novo interior é um delicado equilíbrio entre as exigências dos novos princípios de habitar e a compatibilização com as fachadas cuja escala e ordem se mantêm inalteradas”. Procurou-se uma intensidade neutra, uma subtracção cromática, conseguida com o recurso ao cinzento, dominante nas fachadas e na relação do edifício com a sua envolvente urbana. A Fábrica do Pinhol viu assim renascer das cinzas a sua memória, Alcântara preservou uma parte do seu espírito, Lisboa ganhou um exemplo a seguir, e hoje, quem habitar aquele Cais atracado na 24 de Julho pode respirar e absorver um pouco desta história.



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