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Diesel Be Stupid

... ou 18h feito estúpido em Berlim

O convite foi feito: 18h em Berlim. Sair de madrugada de um húmido inverno português, chegar a previsibilidade gelada do germânico, com um pitstop em Londres, apanhar o autocarro, metro e esperar que não houvesse atrasos que o tempo estava contado ao minuto, passar pelo  Bread & Butter, quase sem parar, seguir para a festa da Diesel equadrada na Fashion Week da cidade alemã e voltar.

Efectivamente, podemo-nos queixar da chuva e de uma estção fria que dura (na realidade, e somados os dias, aceitem) umas semanas; no entanto, se no avião o sol brilha sempre aos não-sei-quantos mil pés, custa aceitar que ao aterrar a realidade vai ser diferente. Quando trespassámos o mar sem líquido de nuvens cerradas, Berlim revelou-se quase mono-cromática entre o escuro dos edifícios e a claridade da neve. Precavido, mas não o suficiente para uma cidade negativa imediatamente pus em questão se teria trazido  calçado correcto… talvez aqui tenha começado a estupidez.

A Diesel lançava a sua campanha Be Stupid que consistia na inversão do principio básico da racionalidade ao tentar ser frio, calculista e conscencioso na obtençao da originalidade. No entanto, não há aqui espaço para o factor literal – Estúpido é aquele que não consegue aprender com os erros e incapaz de acção (daí “ficar estupefacto”); além do facto que na língua portuguesa chamar alguém “Estúpido” tem uma conotação meio maléfica ao estilo do “cafageste” brasileiro. E acima de tudo, não tem a folia inconsciente de pensar fora da caixa, porque não faz NADA. Mas Renzo Rosso fez [ok, sempre que eu escrever a palavra estúpido lê-se orginal, no fundo era essa a ideia da campanha ou seja descrever a genialidade com um epíteto contrário. Rezo Rosso, O Génio equivale a Renzo Rosso, o Estúpido… no fundo, toda a gente está farta do melhor de sempre, certo?] e impôs calças de ganga aos farrapos quando a norma ditava clean, fazendo juz ao “se pensas que isso é o correcto, faz o oposto”.

Agora não vou mentir e dizer que fiz algo imprevisível, ignorando qualquer espécie de planeamento. Sabia que autocarro apanhar e quais as linhas de metro para chegar a Tempelhof vindo de Tegel; não fiz um “logo se vê” à bom português e comprei o bilhete certo que evitou o embaraço com o revisor. Tegel > Bus 128 > U-Bahn linha 6, depois de alguns minutos no autcarro sentado ao lado de um excutivo carregado com placas de linólio [estes alemães, que cultura exótica] e outros mais no metro, quando emergi à superfície já era noite, 16h30m digo.

Desactivado desde 2008, o aeroporto de Tempelhof (que chegou a ser conhecido como Cidade Aeroporto) acolheu a estreia da versão inverno do Bread & Butter 2010 onde 600 marcas [quais? as que interessam] se distribuiam por oito grandes áreas. Há porta havia uma fila enorme e pensei que ia perder o meu plano, pois ainda tinha de ir buscar as credenciais… afinal era fila para o Táxi; aqui sim, estupidez verdadeira. Estão -7º, há gelo no chão e poucos táxis – o que fazer? Esperar numa fila que parece o nível final de um jogo de Snake no telemóvel não me parece o mais acertado.

Eram 18h e o certame dava ares de perda de fulgor ao final de dia, muita gente saía, mas outros tantos ainda mantinham a turba que se distribuia pela grelha de cubículos e stands que sinalizam o ano zero de uma peça – digamos, um sapato – de design atractivo/inovador/fresco que morre vegetativo, 2 anos depois (equivalente a 80 em anos de Moda), como modelo de imitação barata nas montras do Calçado Guimarães [atenção que este paradigma é válido para qualquer área criativa].

Depois de um rendez-vous com representantes da Diesel e recolhida a informação sobre o local da festa, arranquei para o Hotel. À porta lá continuava a cobra já com a cabeça a tocar no rabo, mas ainda à espera de transporte. U-Bhan, 2 linhas e 20 minutos depois, ABBA Hotel – quatros estrelas, zero suecas. Ah! Foi real quando mencionei estupidez, uns parágrafos acima, acerca do calçado escolhido para Berlim… num clima gelado, pensar em estrear umas botas novas, que ainda não se fizeram ao pé –  que por defeito ou crueldade, no calcanhar têm uma costura que corta como um cilício – em nome de parecer fixe, foi mesmo estúpido. Eu sabia o que eram roeduras desde daqueles ténis que insisti em pedir para me comprarem em 1985 mesmo sentido que não me serviam muito bem, mas pelos vistos apaguei as memórias de muralhas de pensos rápidos em pés descarnados.

De qualquer modo, às 20h, depois de um merecido descanso, curativos estilo Primeira Guerra Mundial, e um dönner kebab épico – sim, Sr. Turco quero aquele menu em que é possível enfiar uma cabeça humana média dentro do pão – dividi um táxi juntamente com dois compatriotas em direcção à festa secreta na Arena… tão secreta que o taxista nem sabia onde ficava, mas isso se calhar foi porque insistia em usar um mapa roufenho como guia em vez do GPS que tinha em frente da cara. O caminho foi longo (no google maps era tão directo!) e olhando pela janela via-se uma cidade com pouca gente, bicicletas congeladas e total ausência de restaurantes de comida alemã – joelho de porco assado com couve avinagrada, anyone?

Eis que chegados ao recinto e sentados no calor abrasador das bancadas assistimos ao desfile [por favor cliquem na secção Galeria aqui ao lado]. Chamo a atençao para a estupidez tremenda que aconteceu na passerelle quando terminada a passagem dos modelos estes terem voltado ao som de música de dança altíssima, saltando e dançando para fora da da dita enquanto esta se elevava ao tecto puxada por cabos, abrindo espaço para uma pista de dança imediatamente invadida pelo público.

O som dividiu-se entre esse espaço principal e uma pista secundária, ainda com uma área de lazer onde se podia jogar ping-pong e croquet às escuras – não. não estou a falar de nada “picante”, podia-se mesmo, porque havia luzes negras e cores fluorescentes a contrastar… ou entao estou, decidam vocês. Presente na festa estava o espírito europeu, com várias nacionalidades representadas, que tantas vezes está ausente em Portugal, mais por culpa da geografia que qualquer outra coisa coisa, no entanto sem fazer o choradinho do “cá não há disto” é sempre uma pena ficarmos fora desta União.

Houve actuações de Theofilus London (live act Hip-Hop / música de dança com miúdas chamadas ao palco) e Ebony Bones (concerto alto, exuberante e explosivo, como de costume) e DJ sets de Disco 3000 (Erol Alkan, sem partir aquilo tudo e a lutar pela pista), Daniele Baldelli (uma lenda do cosmic disco), Beppe Loda (já velhote, com uma banana no bolso, que confundi com um técnico de som), Joost Van Bellen (imaginem um Zézé Camarinha holandês a passar música a abrir) e Broken Hearts Club (nu-disco misturado com êxitos alternativos que ainda não o são).

Chegar ao hotel às 4am e acordar para apanhar o avião poucas horas foi feito quase à tangente devido ao rombo mental causado pelo bar aberto. Apesar de tudo, 18h depois estava de volta a Lisboa.

Nota: Mais de metade deste texto foi escrito pouco depois do evento de dia 20 de Janeiro; podia ter sido editado mais cedo, mas fui original (leia-se estúpido).



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