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“Cesena”

O nascer do dia num palco

Depois da apresentação de “En Atendant”, Anne Teresa De Keersmaeker reafirma a sua presença no alkantara festival com a peça “Cesena”. Esta foi exibida dias 8 e 9 de Junho, no palco do Grande Auditório do CCB e do Teatro Camões, respectivamente.

Tanto “En Atendant” (2010) como “Cesena” (2011) nasceram e foram apresentadas, pela primeira vez, no Palais Des Papes, em Avignon (França), no âmbito do Festival. Ambas se desenvolvem ao ar livre, utilizando a luz natural como fundamento da peça: “En Atendant” desenrola-se durante o pôr-do-sol, enquanto “Cesena” se desencadeia com o nascer do dia.

Tendo sido feita a estreia da versão de palco em Bruxelas, durante Novembro do ano passado, “Cesena” chega agora a Lisboa. Esta versão utiliza a luz artificial de um projector, localizado sobre o palco, para simular o efeito de crescente claridade semelhante ao despontar da manhã.

Fruto de um encontro de ideias entre Anne Teresa De Keersmaeker e de Björn Schmelzer, “Cesena” junta a Companhia de dança Rosas ao Essemble Graindelavoix, num espectáculo que une a dança contemporânea aos sons do “Ars Subtilior” – estilo de música polifónico, originário de França no séc. XIV, que prima pelos contrastes e dissonâncias entre as diferentes vozes.

São 19 bailarinos e cantores, 16 homens e 3 mulheres, que se entrelaçam entre a música e a dança; todos cantam e todos dançam. Estabelecem-se como colectivo fluído, um todo uno que vive, respira, e comunica entre si através da movimentação do corpo e sonorização da voz.

O palco apresenta apenas como elemento cénico um círculo de areia que, com o desenrolar da performance, vai sendo esborratado pelos bailarinos e cantores. Não há mais artifícios sem ser a luz; não são utilizados quaisquer efeitos ou quaisquer instrumentos. A música é toda ela cantada. Ao longo do espectáculo é possível ouvir-se o som dos pés a baterem no chão, as respirações e os corpos a moverem-se, elementos sonoros que acabam por causar um impacto e contribuem para o ambiente da peça.

À medida que o tempo passa e a luz vai aumentando é possível vermos cada vez melhor as pessoas que cantam e dançam no palco. Este efeito é muito gradual, fazendo de “Cesena” um espectáculo de revelações no qual o espectador vai sendo progressivamente incluído e se torna testemunha da acção.

A claridade não é o único elemento que se vai alterando; há também uma troca de vestuário. Inicialmente os cantores e bailarinos vestem-se de preto, trocando depois para tons mais claros chegando, por fim, a cores que se destacam no palco como o vermelho ou o branco. Este efeito faz com que, no escuro, apenas as partes do corpo que estão descobertas sejam visíveis, como as caras, os braços e as pernas.

“Cesena” é mais do que uma peça de evocação da luz e de celebração do dia. É uma manifestação da passagem do tempo, da dinâmica da transformação e da sua relação com a temporalidade. É uma peça sobre o visível e o invisível, a luz e a escuridão, a permanência e a mudança; uma peça sobre revelações, sobre contrastes.



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