clean_feed_header

Clean Feed Fest

Conversa com o responsável do festival, que arrancou já ontem, dia 13 de Novembro, no Culturgest, e estende-se até ao próximo sábado, dia 19, na Casa da Música, no Porto, e no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Sendo uma das mais importantes editoras de Jazz a nível mundial, e depois de já ter realizado festivais em cidades como Nova Iorque, Chicago ou Berlim, chegou agora a vez da Clean Feed fazer acontecer a 1ª edição do Clean Feed Fest em Portugal.

Neste âmbito, a RDB decidiu explorar melhor o evento e esteve à conversa com o responsável pela editora e pelo festival, Pedro Costa. O Clean Feed Fest arrancou já ontem, dia 13 de Novembro, no Culturgest, e estende-se até ao próximo sábado, dia 19, na Casa da Música, no Porto, e no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Antes de mais, parabéns pelo 10º aniversário da Clean Feed. Sendo a Clean Feed uma editora nacional, apesar do importante reconhecimento mundial, porquê só agora a 1ª edição do Clean Feed Fest em Portugal?

Porque por alguma razão temos tido mais reconhecimento além-fronteiras do que no nosso próprio país, e tem existido maior interesse da parte de salas de espectáculos e festivais internacionais em acolher os nossos eventos, sejam eles Clean Feed days ou Clean Feed Fests. Para além disso, sabíamos que a primeira vez que o fizéssemos em Portugal teria que ser uma coisa em grande, com músicos locais e estrangeiros de forma a conseguir um evento com grande visibilidade. Por alguma razão em Portugal as coisas têm que ter uma certa dimensão para serem levadas a sério e não serem vistas como uma coisa underground ou de guetto. Sempre me incomodou essa ideia de se considerarem as coisas de maior visibilidade dessa forma. Eu não sei o que isso é no século XXI quando toda a gente é livre de decidir o que quer ver, o que quer ouvir e que informação quer receber. Não faz sentido hoje em dia esse tipo de conceitos.

Fazendo uma retrospectiva geral e um retrocesso no tempo, como surgiu a ideia da realização do festival?

Exactamente da vontade em fazermos uma coisa destas no nosso próprio país. A Clean Feed é uma editora internacional, o nosso campo de operações é o mundo inteiro, mas nada nos dá mais gozo que apresentar os nossos artistas, os nossos produtos, as nossas pessoas, o nosso país. Temos levado produtos nacionais como vinho, queijo, azeitonas, azeite, arroz doce aos festivais que fazemos lá fora e a recepção a isso é incrível. Faz-me pensar no mal que se tem promovido as nossas coisas lá fora. É uma pena. Investe-se tanto em coisas sem sentido e coisas óbvias como estas são negligenciadas. As nossas coisas são do melhor que se faz pelo mundo e é dificil perceber porque não são promovidas lá fora. A Clean Feed é uma destas coisas.

Achas importante este tipo de iniciativa?

Acho fundamental. É uma excelente forma de estarmos juntos do nosso público, dos nossos músicos e de dar a conhecer o nosso trabalho e o trabalho de quem tem realmente o mérito do que tem acontecido, os músicos.

O acontecimento dos festivais de música gera sempre muitas expectativas. Como funcionou no vosso caso o processo de selecção dos artistas a actuar no Clean Feed Fest de 13 a 19 de Novembro?

Com os poucos meios de que dispomos para fazer este festival estamos muito orgulhosos com o que estamos a apresentar. Nesta caso dois dos mais importantes lideres e aglutinadores do jazz moderno, o Joe Morris e o Ken Vandermark, para além de três grupos nacionais que têm tido, lá está, mais reconhecimento exterior do que em Portugal, o Sei Miguel, Hugo Carvalhais e RED Trio. Assim, este é o festival que idealizamos com músicos que representam de uma forma excelente a nosso visão desta música.

Uma das características dos festivais de música, independentemente do estilo musical do evento, é justamente a expectativa em torno do cartaz, o que origina sempre muitas especulações. Achas que, no caso do Clean Feed Fest, poderá isso constituir-se como uma estratégia?

Bem, temos o novo projecto do saxofonista Ken Vandermark a actuar três noites de seguida, desenvolvendo o material que será todo gravado para posterior edição, por exemplo. Isso são as condições perfeitas que um grupo pode almejar. Este é um novo grupo de música electro acústica e cujo primeiro trabalho irá ser gravado ao vivo no mesmo local durante três noites. A energia do nosso público, a qualidade da música e dos músicos, e a excelência do local, vão contribuir para a gravação e para a singularidade que nós queremos trazer para esta área da música que vive tanto do momento. Tentamos, dentro do possível, dar todas as condições aos músicos com quem trabalhamos e em particular neste festival que queremos inesquecível.

Agora uma questão mais individual. Sendo o responsável pela editora e pelo festival, algumas confirmações do cartaz partiram de sugestões tuas? Tiveste influência na selecção dos artistas a actuar?

Todo o programa foi definido por mim enquanto parte de um todo.

O Clean Feed Fest assume-se como um meio fortalecedor da divulgação do Jazz e da música improvisada do mundo. Como caracterizas essa fortelecimento? Até que ponto achas que o evento realmente colabora nessa divulgação?

Este, como todos os eventos que fazemos, assim como todo o nosso trabalho editorial, têm como objectivo único documentar da melhor forma possível uma época incrível que está a acontecer neste tipo de música. Tudo o que fazemos é pela música, sem concessões. Não temos nenhuma missão em promover ou divulgar o jazz, mas sim em documentar este tipo de música, seja ele qual for ou nenhum, nesta altura específica. Há quem não lhe chame jazz e isso a mim não me interessa nada. É o que é embora para mim exista através da improvisação um forte link entre todos os projectos que fazemos. É engraçado que o jazz era apelidado de música improvisada e hoje quando a música completamente improvisada acontece por todo o lado já não se chame jazz. Para mim o Jazz é uma questão de atitude, tal como o rock. Não acho possível dizer-se o que é jazz e o que não é, é apenas possível reconhecer essa aititude, tudo o resto é conversa de chácha.

Estamos a chegar ao fim da nossa entrevista, por isso coloco-lhe agora uma questão um pouco mais geral e abrangente. O que esperas ao longo do evento? Que expectativas tens em relação à adesão do público?

Com a promoção que tem sido feita, principalmente através dos media não especializados no jazz ou na música improvisada, espero bastante público nos concertos do festival. Noto que tem havido uma grande expectativa em volta deste programa e na multiplicidade de locais onde o mesmo vai decorrer, todos eles locais óptimos para este género de música, Culturgest, pequeno auditório da Casa da Música, e Teatro do Bairro. Qualquer destes locais tem a sua identidade e o programa foi definido tendo por base o local de cada concerto. Não tenho dúvidas de que o festival vai resultar muito bem em termos musicais e essa é a minha principal função. O resto vai-se conquistando aos bocadinhos. Cada coisa boa que fazemos vai acrescentando mais um bocadinho e é desses muitos bocadinhos que vamos construindo a nossa história.

Tens apostas quanto ao nome do cartaz que achas que poderá atrair mais público ao festival?

Acho que o Ken Vandermark por várias razões. porque toca e grava durante três noites e por ser um músico que quanto mais vezes toca num local mais público tem. É dificil resistir ao seu compromisso honesto com a música e com o seu público. É o músico mais dedicado á música que conheço e isso refrete-se na sua música. Para mim é o músico de jazz mais importante do século XXI.

Para finalizar a nossa entrevista, quanto aos tempos que se avizinham, há alguma novidade importante em relação ao futuro da Clean Feed como editora? Conta já com planos para os próximos tempos?

A Clean Feed vai ter uma editora gémea dedicada a música inclassificável ou que não cabe em nenhum grupo específico de música, incatalogável. Mais até do que o jazz, acho que a música mais viva no nosso país é esta e queremos ajudar a criar uma coisa ainda maior. Para além disso, queremos exportar a nossa música e os nosso músicos porque esse é o único caminho. Já devia ter sido feito há anos mas por falta de visão dos nosso governantes nunca houve nenhum tipo de apoio à internacionalização. Nesta casa tem-se feito o possível por isto acontecer e com bons resultados. Mas é preciso fazer mais e melhor, é preciso ter mais gente envolvida neste processo e é preciso ir furando com paciência até ao dia em que nenhum palco do mundo possa apresentar música nos seus programas sem contar com artistas portugueses. Mas atenção, é preciso continuamente elevar a fasquia da qualidade e da autenticidade. Não é só exportar os nosso artistas mas sim exportar os nosso verdadeiros artistas. É preciso fazer saber que temos músicos incríveis, disponíveis e a tocar música que está realmente a acontecer. E isso felizmente acontece no nosso país.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This