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Nós Lá Fora

Todos os anos milhares de portugueses emigram. Quem não conhece alguém que trocou Portugal por uma aventura no estrangeiro? Fomos à procura destes jovens emigrantes para tentar perceber um pouco melhor as suas motivações.

No Museu da Electricidade em Lisboa encontra-se patente, até 15 de Março, a exposição “Lá Fora”. São mais de 100 obras, dos mais diversos formatos, representantes de diversas gerações de artistas que têm em comum o facto de terem escolhido outro país para viver e desenvolver o seu trabalho. Tal como estes artistas, muitos portugueses escolheram outro país para viver, estudar e/ou trabalhar. Estima-se que existam 4.5 milhões de emigrantes portugueses, sendo que apenas no último ano saíram 100 mil pessoas de Portugal. Num país periférico que valoriza tudo aquilo que vem de fora e negligencia a qualidade e o trabalho efectuado dentro de portas, a emigração parece ser uma solução para contornar o problema e amplificar as competências de cada um. Mas quem são estes novos emigrantes? O que andam a fazer espalhados um pouco por todo o mundo?

Embora a emigração já faça parte da identidade dos portugueses desde o início do século XV, aquando a descoberta das Ilhas Atlânticas dos Açores e da Madeira, temos assistido, na última década, a uma alteração profunda nas características do emigrante português. Muitos são jovens nascidos após o 25 de Abril e têm formação superior. Alguns vão para fora trabalhar, outros partem à aventura sem ter qualquer plano elaborado ou vão estudar e regressam. Num mundo cada vez mais global, o êxodo dos jovens portugueses torna-se natural. Programas como o Erasmus serviram de mote para muitos optarem por uma vida no estrangeiro. A descoberta de novas cidades, de novos estilos de vida, de sociedades mais desenvolvidas e liberais, bem como a maior oferta de emprego, motivaram muitos a deixar a sua vida em Portugal e começar uma nova longe das suas origens.

Da ambição à paixão

Embora existam diversas razões para deixar Portugal, Rita Afonso, licenciada em Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, resume em apenas uma frase as principais razões que têm motivado muitos jovens portugueses a deixar o nosso jardim à beira-mar plantado: “por haver mais oferta, por poder conquistar uma independência financeira mais rapidamente e por ser uma experiência social e cultural”. Para esta arquitecta a trabalhar em Nova Iorque a escolha de começar a trabalhar fora de Portugal foi sempre “inquestionável”, sendo que a escolha da cidade foi “puramente pessoal”.

Mas se o motivo descrito no parágrafo anterior é aquele que melhor se encaixa na maioria dos jovens emigrantes, existem situações que fogem “à regra”. Ana Rita Sousa encontra-se há dois meses em Amesterdão e é Food Designer, algo que em Portugal seria muito difícil de acontecer. Licenciada em Design Industrial, iniciou “algumas experiências com comida”, no projecto final de curso. “O que no início começou por ser um processo totalmente experimental acabou numa série de objectos que me fizeram querer continuar a explorar o tema”, disse-nos. Tomou conhecimento do trabalho da designer holandesa Marije Vogelzang, contactou-a e foi convidada para um “estágio no seu estúdio”.

Barcelona é, para muitos, uma das cidades mais interessantes da Europa. Para além de todo o seu esplendor arquitectónico, a cidade respira criatividade, cultura e inovação. Foi isso que o cozinheiro Diogo Noronha encontrou depois de ter vivido em Nova Iorque e na Ásia: “uma cidade cosmopolita, cheia de ritmo e com uma dinâmica social e cultural bastante viva e actual”. Diogo trabalha no restaurante “Alkimia”, de cozinha de autor e alta gastronomia. Saiu de Portugal empenhado em absorver o maior conhecimento possível. “Considero que em Portugal ainda existem bastantes oportunidades no ramo da hotelaria e restauração, mas que neste momento não estão integralmente aproveitadas, pois parece-me que há uma grande necessidade de formação nos conhecimentos do público e profissionais”, conclui.

Zé Paz é Designer Gráfico e quem o conhece afirma que o seu nome é o espelho da sua personalidade. Foi o seu gosto de viajar que o levou para Hossegor, uma vila francesa, onde trabalhou numa conceituada marca de skateboards. “Sempre viajei, por isso sabia que ia ser uma boa experiência trabalhar fora de Portugal”, disse-nos. Encontra-se agora em Barcelona, a sua “cidade de eleição”, com novos desafios profissionais. “Com esta opção de vida tive a oportunidade de ir atrás do que acredito, beber um pouco do que estava à minha volta, aprender pela experiência onde os maiores problemas deram lugar as melhores soluções”, conclui.

Este espírito de viajante é também partilhado por Bruno Monteiro, actuário, que trabalha com fundos de pensões desde 2002. Após quatro anos em Paris, decidiu ir trabalhar para Londres onde vive há seis meses. “Gosto de desafios e decidi partir em busca de enriquecimento pessoal e profissional”, disse-nos.

Embora a maioria dos emigrantes portugueses esteja em Londres e Paris, tem-se assistido nos últimos anos a um aumento da presença portuguesa em Berlim, uma das capitais europeias mais agitadas a nível cultural.  Lira Lousinha vive desde 2002 na capital germânica e trabalha no Festival Internacional de Cinema de Berlim. A opção de sair de Portugal não foi planeada. “Tinha acabado o curso na Faculdade de Letras, estava desempregada e apaixonei-me por alguém que vivia em Berlim. Achei que não tinha nada a perder e mudei-me”.

“Está tudo óptimo”

Para além da distância, quem parte à aventura tem que ultrapassar diversas dificuldades. “As casas são caras, especialmente se não se quiser prescindir de viver em Manhattan”, disse-nos Rita Afonso. Em Berlim a habitação não é problema, já que as “rendas de casa são muito baixas”. Para Lira Lousinha, as maiores dificuldades de adaptação foram o clima e a língua. “Vim morar para cá sem saber uma palavra em Alemão. No início nem conseguia memorizar os nomes das estações de metro”, disse-nos. A mentalidade do povo foi também uma barreira difícil de ultrapassar. “Os alemães são muito directos. Ainda hoje fico espantada com a facilidade com que perdem a paciência”, conclui.

Ultrapassadas as dificuldades, a grande maioria afirma que a qualidade de vida é melhor onde vivem do que em Portugal. Para Ana Rita Sousa, a Holanda é um país mais “evoluído” e mais “atento ao mundo e às suas transformações”. A nível cultural as diferenças são também enormes. Para Daniel Barroca, Artista Plástico que tem passado os últimos anos entre Berlim e Lisboa, a cidade alemã é “um lugar em que se cultiva exponencialmente a procura de formas independentes de participação na vida pública”, ao contrário de Lisboa que parece um pouco “estagnada”. ” Na cultura portuguesa não existe uma tradição do diálogo e da discussão crítica e, por norma, pouca gente lida bem com o confronto de ideias”.

Também bastante surpreendida com Berlim, Lira afirma que encontrou uma cidade “muito segura”, com uma rede de transportes “fantástica” e mesmo de noite “existem imensos autocarros e muitas pessoas a utilizá-los, pelo que é sempre possível voltar para casa”. Embora exista a percepção de que os alemães são pessoas “frias” nas relações pessoais, Lira encontrou uma outra realidade: “É bastante fácil abordar as pessoas na rua ou quando se sai à noite. Há sempre festas em casas de alguém e a necessidade de convívio aqui é de certa forma maior do que em Portugal”.

Radiante com a sua vida em Nova Iorque, Rita Afonso aponta-nos as principais diferenças entre nós e os americanos. “De um modo geral, são optimistas e confiantes – geram emoções de uma forma positiva e transmitem-nas da mesma forma. Os portugueses, por sua vez, são pessimistas – carregam um Fado pesado, melancólico e contagioso, que a maior parte das vezes encontra-se desfasado da realidade”. Esta atitude positiva manifesta-se em todos os aspectos da vida, principalmente a nível profissional, onde a motivação para fazer mais e melhor é “diária”. Quando Rita terminar a seu “sonho americano”, o maior retorno será “passar a responder ‘está tudo óptimo’ em vez do tradicional ‘vai-se andando’”.

Voltar?

Se para alguns a experiência “lá fora” ainda agora começou, Bruno Monteiro já planeia o regresso a Portugal e espera fazê-lo daqui a “quatro ou cinco anos”. Embora tenha encontrado um mercado de trabalho “recompensador e interessante”, afirma que “em Portugal é possível usufruir de uma qualidade de vida que é difícil encontrar em grandes cidades como Paris ou Londres”. Zé Paz é da mesma opinião. A escolha de Barcelona como cidade de “eleição” está relacionada com a “extensa oferta cultural” mas também com a proximidade e o “fácil acesso a Portugal” onde tem a sua família, amigos e projectos. “Portugal é o melhor país da Europa e por isso será sempre uma boa opção”, conclui.

Feliz com a sua vida em Berlim, o regresso a Portugal não  é uma “preocupação” para Lira, até porque tem trabalhado nos últimos quatro anos com alguns festivais portugueses e dá para “matar as saudades”. Imaginando a sua vida a longo-prazo, pensa que o regresso será natural porque não se imagina a “viver a sua reforma” na Alemanha. Diogo Noronha partilha parte da opinião de Lira, mas a possibilidade de não regressar é real. “Não sinto uma necessidade imediata de regressar nem consigo encontrar uma data”, diz. “Só o farei, ou não, quando perceber que estão reunidas as condições para implementar os conhecimentos adquiridos com sucesso e por consequência realizar um sonho pessoal”.

Embora a maioria dos intervenientes neste texto estejam a viver e a trabalhar fora de Portugal, para muitos portugueses o estrangeiro é uma opção ao nível da formação. Rute Gomes é Designer de Produto, sendo que essa especialização foi adquirida no Royal College of Art em Londres. “A grande vantagem de ter tirado o curso em Londres foi sem dúvida a proximidade e a troca de experiências profissionais que tive com pessoas de interesses similares aos meus e com backgrounds culturais bastante diferentes”. Na sua opinião, o resultado mais evidente da sua experiência revelou-se na sua “formação e trabalho”, que permitiram um maior leque de oportunidades profissionais. Hoje em dia reside em Lisboa, dá aulas na ESAN e na ESTA e abriu a sua empresa rute gomes, product design, com escritório em Lisboa e Londres. “Decidi regressar para Portugal por se terem aberto oportunidades profissionais”.

Não vou …

Para Portugal, é muito importante termos representantes nas mais variadas áreas espalhados por todo o mundo. Daqui a uns anos esperamos que o nome de Portugal seja reconhecido no meio arquitectónico devido ao trabalho da Rita Afonso ou na gastronomia mundial com os pratos do Diogo Noronha, mas ficar em Portugal também é uma boa opção.

Embora exista cada vez mais oferta e oportunidades de trabalhar no estrangeiro, existem muitos portugueses que recusam ir para fora, optando por fazê-lo sem ter que sair de Portugal. Profissões relacionadas com o design e programação são aquelas que encontram maior facilidade para o fazer. Utilizando a Internet como ponte entre fornecedor/cliente, é possível trabalhar para um cliente no Japão enquanto se está na praia na Caparica. Na realidade, Portugal tem tudo para ser um óptimo país para se viver: um clima ameno, muito sol no Verão, praia e a possibilidade de se ter uma vida mais relaxada longe das grandes urbes mundiais. É importante que existam pessoas que continuem a acreditar que é possível melhorar Portugal de dentro para fora. Se assim não fosse, a RDB não existia.



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