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FADE IN

Eles dão prazer, mais prazer que um bordel.

“Continuar a existir.” São estas as expectativas de um projecto que perfaz no próximo ano o seu décimo aniversário. Mas não é um projecto qualquer, é um projecto feito de factos e consequências: mais de uma centena de artistas e bandas em Leiria; a apresentação de projectos que não tem lugar entre os lugares comuns de difusão musical; a relocalização de uma “cidade periférica, mas não suficientemente periférica” no mapa de eventos nacional; a dinamização e multiplicação de propostas alternativas e, enfim, a possibilidade de dar ao seu público a opção de aceitar ou rejeitar outros sons, não em função de preconceitos, mas de um conhecimento directo.

Dez anos são de facto muito tempo – e cartografar as opções por detrás deste projecto não é tarefa fácil (e não é pela itinerância dos concertos na própria cidade). Nada fácil, porque o Festival Fade In não é linear – como nunca o são as opções pessoais verdadeiramente importantes. E este festival é, antes de mais, um projecto feito de opções pessoais e não o consenso possível entre várias pessoas – são os próprios a reconhecer: “o traço que nos une: a melomania”. Isso mesmo explica o – para alguns – carácter errático das propostas que leva a Leiria anualmente. Vejamos alguns poucos exemplos dos muitos possíveis: Smog, Kristeen Young e Deine Lakaien (em 2003); Xiu Xiu, Mirah e Ataraxia (em 2004); Jarboe e Laibach (em 2005); Final Fantasy e Art Brut (em 2006); In The Nursery e Die Form (em 2007); Michael Gira e Dorit Chrysler (em 2008); Woven Hand e Little Annie & Paul Walfisch (já este ano). Mas não só: também a promoção de bandas nacionais e locais tão distintas entre si como os Mão Morta, AllStar Project, Born a Lion, Old Jerusalem ou, mais recentemente, Sean Riley and The Slowriders constituiu sempre uma parte importante da programação. Mas, como nos disseram numa tarde de domingo, é simples: são apenas gostos pessoais e a convicção de serem algumas “das melhores bandas do mundo, pelo menos para nós”. Não é difícil imaginar o esforço para prosseguir uma agenda destas em Leiria – nem o espanto que os acolhe do outro lado, nem a persuasão necessária para convencer bandas e artistas firmados a viajarem até uma cidade internacionalmente desconhecida e periférica dos circuitos estabilizados. E valerá a pena o esforço? É como sempre que se vem a conhecer, sem mediações, alguém que seguimos – “por vezes há grandes surpresas, como o foram os Za!, outras vezes, desilusões, como no caso dos Mi and L’au que ao vivo ficaram aquém dos discos”.

Nada que os perturbe.  Não dependem de ninguém senão deles mesmos: patrocinadores não têm, e o apoio institucional residual, centrado na disponibilização de equipamentos, nunca os impediu de partilhar com a cidade os seus gostos e preferências. Afinal de contas, tudo começou com uma loja de música, a Alquimia e com a possibilidade de um ponto de encontro das mais diversas sensibilidades, da audição e discussão de um disco ou de uma banda. Mas faltava ainda a experiência dos concertos e de um contacto mais próximo. E foi assim que Carlos Matos e Célia Lopes, o núcleo inicial e fundador deste projecto, começou por imaginar primeiro o Festival e depois a forma de o concretizar, levando-o a cabo até hoje. Em 2007 surge a Fade In – Associação de Acção Cultural, e em 2009, com o aparecimento de novos contributos pessoais e com o intuito de partir para um projecto mais aberto e alargado, nascem outros projectos paralelos ao festival.

É assim que, até Fevereiro, esperam lançar uma nova publicação quadrianual, a “Arquivista – Cadernos do Terceiro Milénio”, de música (claro), literatura, pintura, ócio, fotografia, cinema, design, artes plásticas e arquitectura, com um suplemento em CD, o “Sob Escuta”. Com mais de 50 contributos assegurados neste momento (sem dúvida, sinal da intensa actividade e interacção da Associação com a cidade e com o exterior) pretende-se que a revista não se subordine a um tema ou se feche sobre um núcleo permanente de colaboradores, mas antes dê expressão à complexidade e contradição das realidades e expectativas das cidades. Daí os cadernos: para arquivo e futuro “testemunho quase etnográfico” escrito e gravado do percurso ensaiado até aqui.

Da mesma forma, tirando partido do grande espólio documental acumulado, que inclui não apenas o registo fotográfico ou videográfico dos concertos, mas também todo o trabalho em torno da sua apresentação – como os bilhetes, sempre diferentes em função de cada concerto, ou a recente edição de postais e posters (impressões limitadas de pinturas a óleo referentes aos artistas convidados) – a Associação espera editar ainda em 2010 – se para tal aparecerem os necessários apoios – uma monografia dos seus dez anos de actividade. “Com tantos artistas e bandas, naturalmente, haverá que fazer uma triagem e, por isso, os critérios serão sobretudo de ordem formal, procurando apresentar as melhores imagens destes concertos, complementadas por pequenas notas informativas e depoimentos.”

E porque se trata de um “Festival pouco ortodoxo”, a Associação desdobrará este ano, o campo da música em novas actividades: por exemplo, a apresentação de filmes mudos acompanhada por músicos nacionais através de composições especificamente produzidas para cada filme. Ou ainda, o FRIC – Festival Regular Independente de Clips, que se pretende constituir como uma mostra do que de mais importante se tem feito em termos de videoclips, a nível nacional e internacional, apresentando também os documentários que têm sido produzidos pela equipa do Fade In com as bandas convidadas do Festival, tirando partido da cumplicidade (e, por vezes, amizade) estabelecida com os seus membros.

E por fim, o Ensina Fade In, um projecto que se pretende desenvolver junto das escolas básicas, e que consiste essencialmente na reinterpretação, pelos alunos, das bandas e artistas convidados ao longo destes anos – fomentando o alargamento e redefinição do público habitual do Festival, aproximando-o das novas gerações a quem se pretende dar outra perspectiva da diversidade da música actual.

Tal como o fixaram há uns anos, eles não são de facto um bordel. Mas nós confirmamos que dão muito prazer e foi isso mesmo o que reconhecemos numa tarde chuvosa e fria de domingo onde, pela primeira vez, pudemos ouvi-los juntos. Não numa orgia, mas numa extraordinária conversa onde a música, entre outras coisas, emergiu de uma outra forma, isto é, como um incessante prazer.

Associação FADEIN:

Carlos Matos, Célia Lopes, Luís Lacerda Estrela, Pedro Miguel, Tânia Marques, Hugo Ferreira e Anabela Lopes (com João Diogo e Tânia Simões até 2007).

Texto realizado por Sofia Lamachão e Pedro Trindade.



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