Fatal 2013 – “Zona” – Fotografia de  José Furtado

Fatal 2013

O maior FATAL de sempre termina a 25 de Maio. Entrevista com Marisa Costa, uma das responsáveis pelo festival.

Na sua 14ª edição o FATAL mostra que está mais activo do que nunca. Surge com a maior programação de sempre e com novas categorias que permitem dar a conhecer o talento de mais grupos de teatro universitário. Marisa Costa, da organização, conversou conosco e partilhou os objectivos deste festival, cuja palavra de ordem é transformar.

Este ano a palavra de ordem do FATAL é transformar? Não é também disto que se trata todos os anos? Transformar através do teatro? O que pretendem transformar de novo?

“Transformar” não uma ideia nova ligada ao teatro e é aliás, rodeada de alguma discussão pelos que entendem o teatro como arte pela arte. Discussões à parte, pareceu-nos que, mais do que nunca, nas circunstâncias que constrangem tudo e todos, se deveria reforçar a ideia de “transformação”, nas suas várias “facetas”. Transformar para intervir na sociedade, transformação em palco, transformar as dificuldades em sucessos, através do teatro, transformar o nosso pequeno mundo, nem que seja por breves momentos, quer sejamos actores ou espectadores, no mais belo dos universos… São muitos os significados possíveis.

Este ano o FATAL surge com a maior programação de sempre. Como se chega a este ponto, 14 anos depois do primeiro festival?

O primeiro FATAL teve a participação de 9 grupos, maioritariamente vindos de Lisboa. A partir de 2000 abriu-se o Festival à participação de grupos de todo o país e estrangeiro. Entre 2000 e 2006 o modelo de programação foi-se consolidando, com a participação de 12 a 14 grupos, anualmente. Ultrapassando os números, chega-se a este ponto, com 27 grupos a participar em 2013, com muito trabalho, muita dedicação, muita vontade de todos quantos se têm envolvido neste projecto, começando pela própria Reitoria da UL, pelos grupos de teatro universitário e passando pelas pessoas e entidades que nos apoiam. Em 2013, no meio de todas as crises, era mais importante do que nunca tentar transformar, como sempre, o aparentemente “impossível” em possível, aumentado a programação, tentando não deixar nenhum grupo de fora desta “festa” do teatro universitário, tentando divulgar, o mais possível, os grupos de teatro universitário. Dar palco quem, por vezes, não o tem, reconhecer desta forma o trabalho das centenas de pessoas que fazem o teatro universitário português.

Isso significa que o investimento tem sido cada vez maior?

A cultura é secundária em Portugal, infelizmente. Ser músico, actor, cantor, artista plástico é, por vezes, encarado como um passatempo, uma excentricidade. Ser consumidor de bens culturais é também um desafio… O materialismo e a ditadura dos números e da criação de dinheiro impera e sufoca o espaço da criação e fruição artísticas. É triste perceber que não é assim tão importante formar crianças e jovens também através da arte. Uma educação humanista e ampla de horizontes e a estimulação do pensamento crítico são quase um exotismo. Perde-se muito, ganham-se indivíduos aprisionados, transformados em máquinas de repetição, com formações pobres. No caso do FATAL, o investimento de entidades públicas e empresas tem sido variável. Apesar de o festival ter já conquistado um núcleo de parceiros que acreditam no projecto, fazendo do Teatro Universitário uma das suas apostas, e que continuam, ano após ano, a apoiá-lo financeiramente e materialmente, infelizmente, em maior ou menor grau, lidamos com as mesmas dificuldades de tantas outras estruturas culturais por esse país (e por essa Europa!) fora. O investimento humano é também muitíssimo importante para a evolução e continuação do festival. Falo dos grupos de teatro, das pessoas que se associam ao festival, sem nada esperar em troca, pessoas que nos permitem continuar motivados e entusiasmados, a querer fazer sempre melhor, ano após ano.

Fatal 2013 - "Zona" - Fotografia de  José Furtado

Há capacidade para dar resposta às necessidades de um grupo de teatro amador, dentro de uma universidade? Ou as dificuldades são mais que muitas?

A ideia partiu da Isabel Tadeu, coordenadora do Núcleo Cultural da Reitoria da UL, que, percebendo a vontade latente de alguns funcionários e relembrando os grupos de teatro de trabalhadores que foram desaparecendo por esse país fora, propôs à Reitoria da UL criar um grupo de teatro amador. Esta é uma estrutura cultural como qualquer outra dentro de uma universidade, sofrendo das mesmas dificuldades e benesses. Distingue-a o facto de ser dedicada a um grupo que, no caso da universidade de Lisboa, é constituído por funcionários docentes e não docentes. Distingue-a, ainda, a vontade enorme que os funcionários têm de fazer o teatro acontecer e de, tal como os actores universitários, encontrarem no teatro amador a liberdade e possibilidade de expressão criativa que não têm fora das salas de ensaio. Quando há vontade…

O que pode oferecer de novo o teatro universitário?

Cada espectáculo de teatro é único e irrepetível. Não é novidade: a cada noite, o mesmo espectáculo pode trazer ao palco emoções novas, energias diferentes. No caso do teatro universitário em particular, a entrega, a paixão, a força e a vontade irreprimível de expressar alguma coisa é uma marca significativa, distinguindo-o do teatro profissional. Estamos a falar de actores universitários que não têm o teatro como profissão. Para eles o palco, durante aquela hora e meia, é o Universo inteiro. É uma entrega de corpo e alma ao palco e ao público. Até que ponto um actor profissional, pressionado pelo frenesi e pelas dificuldades próprias da profissão em Portugal sentirá a mesma liberdade que sente um actor universitário?

O festival tem chamado novos membros ao teatro universitário?

Acreditamos que sim. Apesar de todas as crises, e, de certo modo, de as mudanças do Processo de Bolonha poderem ter afastado alguns estudantes pelo facto de terem apenas 3 anos para fazerem os seus cursos e a pressão ser muita, há muitas pessoas a fazer teatro universitário. Depende também dos projectos propostos pelos próprios grupos. Uma certeza? O teatro universitário está vivo e continua a inflamar palcos por esse país fora.

Fatal 2013 - "Aquário" - Fotografia de José Furtado

Que objectivo tem o teatro no contexto universitário?

O teatro universitário pode ter vários objectivos, tantos quantos os grupos que o fazem. De um modo geral, e não podendo falar pelos grupos, o teatro universitário é uma das actividades extracurriculares mais importantes no contexto das universidades. É um espaço de liberdade único, um lugar de experimentação, fora dos limites impostos pela vida do dia a dia. O teatro universitário pode ter uma função complementar à formação académica. A integração num colectivo e a experiência do trabalho criativo são indispensáveis, na minha opinião, à formação do indivíduo. Viver a universidade para lá das aulas é da maior importância.

É um festival apenas para estudantes ou chega a um público muito mais alargado?

O público jovem, não necessariamente universitário, constitui uma “fatia”importante de público, é certo. Mas o FATAL tem um público diversificado. Prova disso é podermos encontrar, em qualquer espectáculo, lado a lado, um espectador de 16 anos ao lado de um espectador de 60 ou 70 anos. Este é um festival para todos os públicos. Tentamos que o teatro universitário saia as portas das universidades, precisamente.

Este ano o FATAL tem uma nova categoria, o MAIS FATAL. Qual é a diferença entre essa categoria e o FATAL CONVIDA?

A categoria Mais FATAL inclui espectáculos que não foram seleccionados para a Competição mas que a organização entendeu integrar na programação pois o objectivo do FATAL é, de facto, divulgar o teatro universitário e fazia todo o sentido dar uma oportunidade a estes grupos de mostrarem os seus trabalhos no Teatro da Politécnica. O FATAL Convida apresenta espectáculos de grupos e companhias convidadas, não necessariamente vindas do teatro universitário. Esta categoria surge no contexto do que já tinha vindo a acontecer, desde há várias edições, com a presença de grupos estrangeiros na programação e é motivada, também, pela vontade de aproximar o teatro universitário de outros “teatros”.

Jorge Listopad é o homenageado deste ano no FATAL. Qual a sua importância neste festival? De que forma vão homenageá-lo?

Crítico de teatro, jornalista, professor, encenador, autor, Jorge Listopad é uma figura incontornável da história do teatro universitário português e do teatro nacional. Entre muitos outros marcos da sua vida e do seu trabalho, foi um dos fundadores do TUT, Teatro da Universidade Técnica, e integrou a comissão instaladora da actual Escola Superior de Teatro e Cinema do IPL. A Universidade de Lisboa irá distingui-lo com a Medalha da Universidade e relembrá-lo em diversos momentos do festival através do testemunho de várias personalidades. Um dos objectivos do FATAL é preservar a memória histórica do teatro universitário português e trazê-la à luz do dia o mais possível. É importante relembrar e agradecer, publicamente, o contributo de tantas pessoas que fizeram do teatro universitário o que ele é hoje.

Fatal 2013 - "Cidade Autoada" - Fotografia de Luis Barata

Na categoria Competição têm 13 grupos a concurso. Como é ter que escolher apenas 13 grupos do país inteiro? Em que se baseia o programador?

Existem cerca de 40 grupos de teatro universitário activos no país, neste momento. A cada edição do festival é reunida uma equipa de selecção, coordenada pelo programador, que tem como missão avaliar os espectáculos com os quais os grupos se candidataram. A selecção final é feita com base em vários critérios. De entre eles, tenta-se, por exemplo, que a selecção final seja o mais representativa possível do teatro universitário português, quer geograficamente, quer institucionalmente (representando, tanto quanto possível, as várias universidades portuguesas com grupos de teatro universitário em funcionamento).

O teatro ainda é caro em Portugal ou já existem alternativas para todos os bolsos?

Dizer que o teatro é “caro” é uma afirmação subjectiva e está dependente de muitos factores. Caro para que públicos? Em que contextos? A ver pelos preços praticados pelo FATAL, por exemplo, com bilhetes a 3 e 5 euros, creio que há teatro para todas as carteiras. Falando do que conheço em Lisboa (não tenho informações suficientes para falar do resto do país), neste momento, a oferta é tão variada… existe teatro para todos os gostos. Mais do que isso, as companhias e teatros têm sabido adaptar-se às circunstâncias e criam descontos e preços especiais para os seus espectáculos, permitindo, por exemplo, aos espectadores mais jovens terem acesso a estes bens culturais por valores quase simbólicos. E, se folhearem qualquer agenda ou roteiro, há sempre algum espectáculo gratuito (ou perto disso).
Fotografia do artigo do espectáculo “O Despertar da Primavera” da autoria de Paulo Hung.



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