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Francisca Cortesão

Com a frescura de uma Minta.

Aproveitando o espírito natalício mostrado pela Optimus Discos, que antes da chegada do Pai Natal e das renas disponibilizou mais seis rodelas sonoras no seu sítio, a Rua de Baixo chegou à fala (ainda que por e-mail) com Francisca Cortesão, aka Minta, sobre a saída de “Carnide” pela Optimus, quase um ano depois do seu lançamento original.

Falou-se da Feist de Carnide (que afinal é de Cedofeita), de canções de embalar habitadas por espectros, da origem de uma alcunha que faz lembrar as chicletes da caixa azul e do que o futuro tem reservado para esta rapariga com uma voz capaz de enfeitiçar muito boa gente.

A alcunha de “Feist de Carnide” assiste-te?

Quando muito Feist de Cedofeita, que é o bairro onde nasci no Porto! A minha única ligação a Carnide é termos lá gravado o disco ao vivo, no Teatro da Luz. Seja como for, sou muito fã da Feist – e ando viciadíssima no “Metals” –, por isso fico contente com essa possibilidade de alcunha.

A que deveu a escolha de um nome tão fresco para alter-ego musical, que faz lembrar a frescura que só uma chiclete da caixa azul consegue emprestar a alguns dos cinco sentidos?

Tem qualquer coisa de “menta”, de facto, mas o nome Minta surge de um romance da Virginia Woolf, “To The Lighthouse”, editado em português como “Rumo ao Farol”. Ao folhear o livro encontrei uma personagem cujo nome próprio era Minta, e agradou-me o som.

As tua canções são músicas de embalar habitadas por espectros, fantasmas e duendes, um pouco como se, depois de adormecer, os sonhos percorressem caminhos dados à melancolia, à desilusão amorosa e a uma psicanálise dos sentimentos com alguma agitação. Acreditas em amores felizes ou estamos condenados a navegar de porto em porto sentimental?

Ena pá, serão isso tudo? Claro que acredito em amores felizes. E os outros também têm que se lhe diga.

A edição de “Carnide” pela Optimus Discos chega praticamente um ano depois do seu lançamento digital. A que se deve esta espécie de reedição? Prenda de natal para um país em crise e a precisar de música, a procura de reconhecimento ou o chegar a um ponto de viragem numa carreira que poderá arrancar (merecidamente) a partir de agora?

O disco era para ter saído logo pela Optimus Discos, mas houve um atraso que fez com que só saísse agora, também em edição digital. Entretanto disponibilizei-o na nossa página do Bandcamp, e neste momento pode ser descarregado nos dois sítios. Calhou sair neste Dezembro, um ano depois do concerto ter sido gravado.

Neste disco estás rodeada de músicos, instrumentos e coros. Preferes actuar como banda ou em versão mais intimista?

Com banda, sem dúvida alguma. Só faço concertos a solo quando não há alternativa. Metade do prazer de estar em palco é partilhá-lo com outros músicos, e neste concerto de Carnide tive a sorte de estar rodeada por um grupo extraordinário de músicos e amigos.

“You”, o teu primeiro Ep, saiu em 2008 através de uma editora. Um ano depois aventuraste-te numa edição de autor com “minta & the brook trout”. Em 2010 juntaste músicos, amigos e um sem número de convidados e editaste “Carnide”, em edição digital, num concerto ao vivo que é como a súmula de uma carreira de respeito a que ninguém por cá tem dado grande atenção. Como viveste este percurso?

Sinto que tenho uma sorte enorme por fazer a música que quero e poder contar com uma banda incrivelmente generosa a ajudar-me a trabalhá-la. Vamos fazendo discos e concertos, na tentativa de fazer sempre melhor – é esse o percurso, desde que comecei este projecto, em 2006, e tenho imenso orgulho nele. Os ecos que me chegam de quem nos ouve têm sido sempre muito positivos.

Começaste a compor desde tenra idade. O que se ouvia lá por casa entre o tempo que usavas fralda e o momento em que compuseste a tua primeira canção, por volta dos 13 anos de idade?

Ouvia-se muita coisa. Antes de ser eu a escolher a música que ouvia, tive direito a muito Bach, Mozart, Schubert, Haydn, Schumann mas também muitos Beatles, muito Caetano, muito Zeca, muito Godinho. Lembro-me de adorar o Graceland, do Paul Simon, quando era miúda. E a minha irmã mais velha apresentou-me os Pixies, os Nirvana, a PJ Harvey…

Já cantaste assumindo diferentes vozes, tocas diversos instrumentos, escreves as letras, compões e inventas arranjos para as músicas. Sempre te viste a ser uma cantautora quando fosses grande?

Como comecei cedo a tocar, sempre achei que pelo menos iria ser música, nem que fizesse também outras coisas. Desde a minha primeira banda de garagem que percebi que não ia deixar de tocar.

Como tem sido partilhar o palco – e a estrada – com o bardo B Fachada? Também já te calhou tocar com instrumentos quase de fingir?

Acompanhei o Fachada ao vivo nos concertos de lançamento do “É Pra Meninos”, por isso toquei um metalofone para crianças e umas percussões pequeninas. Dou-me muito bem com ele, conhecemo-nos desde putos. E havemos de fazer mais coisas juntos.

De onde surgiu a ideia dos They’re Heading West? E como viveste esta experiência de viajar pela costa oeste dos Estados Unidos e pelo Canadá?

A ideia surgiu da vontade de lá ir tocar que tinha desde que comecei a fazer música mais a sério. À distância aquelas paisagens sempre me fascinaram, e muita da música que ouço vem especificamente daquela parte do mundo. Incrível foi ter encontrado três amigos com a mesma vontade. Foi perfeito, vimos sítios lindíssimos, tocámos em lugares de todos os tamanhos e feitios e ficámos cheios de vontade de fazer outra viagem destas assim que possível.

Para quando a edição de um novo LP? E, mais importante, que projectos tem guardados a Minta para o futuro próximo (e longínquo)?

Quanto ao futuro longínquo tendo a não fazer planos, mas neste momento estou a acabar de escrever as músicas para o próximo disco, que há-de sair em 2012. E no dia 26 de Janeiro tocamos no Chapitô, o nosso primeiro concerto em quase um ano – vamos certamente aproveitar para experimentar as músicas novas.

Fotografia por Vera Marmelo.



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