Noiserv

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"Sinto-me muito feliz por sentir que as pessoas realmente gostam daquilo que mais gosto de fazer". A conversa com David Santos a propósito de "Almost Visible Orchestra (A.V.O)"

Cinco anos depois do primeiro longa-duração, eis que surge em Outubro um novo trabalho de Noiserv.

Pelo meio houve o esgotadíssimo EP “One Hundred Miles from Thoughtlessness”, os You Can’t Win, Charlie Brown e imensas participações especiais, a prova de que David Santos, o one man show por detrás de Noiserv, não tem muito descanso.

O novo álbum apresenta uma densidade e complexidade de instrumentos e objectos maior daquela a que já estávamos habituados. A forma como tudo se encaixa é a derradeira prova de mestria e originalidade deste músico. São mosaicos que se conjugam perfeitamente, e que aliados a uma voz acolhedora transformam estes dez temas em parelhas musicais perfeitas para qualquer altura do ano, qualquer estado de espírito ou qualquer actividade.

Estes temas resultam em 30 minutos de puro embelezamento musical, cada tema com uma história e vida própria. Peças individuais que vale mesmo a pena coleccionar.

E se há quem afirme que quando estamos bem ouvimos a música mas quando estamos em baixo percebemos a letra, Noiserv tem a capacidade de nos levar sempre para esse espectro sem, no entanto, nos tornar em seres depressivos. Antes pelo contrário, há músicas neste álbum que puxam pela nossa moral, nos fazem erguer, sacudir o pó e avançar.

David deitou por terra a teoria de que os homens só conseguem fazer uma coisa de cada vez. E consegue-o de uma forma magistral.

Torna-se difícil destacar um tema em detrimento de outro mas, para além dos singles já avançados, salienta-se o último tema do álbum, talvez aquele que consiga levar Noiserv para as pistas de dança: «Don’t say Hi if you don’t have time for a nice goodbye».

Depois de ter acesso ao álbum, de ouvi-lo (quase em loop), fomos falar com o David.

Cinco anos depois do primeiro longa-duração, eis que surge um novo LP. No meio houve o EP “A day in the day of the days”, os YCWCB entre outras coisas… Foi-te difícil parar ou encontrar espaço para compores e criares o novo álbum?

Acho que nunca consegui realmente parar, teve de ser sempre um trabalho dividido entre muitas outras coisas, mas como acredito que quando queremos mesmo fazer alguma coisa arranjamos tempo, fui fazendo aos poucos até que… ficou pronto.

Com todos os projectos paralelos, sentes que estes te influenciaram de alguma forma? Ou seja, que deles bebeste alguma inspiração, ou tens uma “nascente” própria para Noiserv?

Eu acho que a pergunta responde a ela própria, pois é um bocado das duas coisas; acredito que tudo aquilo que vou fazendo, e todas as pessoas com quem vou vivendo, de alguma forma me inspiram, mas por outro lado Noiserv é realmente algo muito pessoal que dessa forma julgo ter uma nascente própria.

Este álbum é, a meu ver, muito mais denso no que toca à quantidade de instrumentos e objectos que usaste. É-te fácil dar uma música como terminada, ou achas que estarão sempre em mutação, subjectiveis de mudanças?

Este é o primeiro disco em que, por ter tido muito mais tempo para ouvir/re-ouvir, fazer/re-fazer, sinto que as músicas chegaram a um ponto final, em que sinto que não consigo mesmo dar-lhes mais nada, e por esse motivo estão mesmo terminadas. Mas para teres uma ideia, cada música teve mais de dois meses de indecisões.

Sinto também que ele é composto de sons mais abertos, como se estivesse menos pesado. Uma melodia mais feliz e esperançosa, por vezes até com alguma “batida” mais pronunciada. A introdução da cor… Será este o início de uma mudança de rumo para Noiserv?

Será uma mudança? Eu vejo este disco como o seguimento dos outros, sinto um fio condutor entre todos eles, mas claro com algumas diferenças. Eu acho que os meus discos são sempre um reflexo de mim próprio, e se calhar neste momento estou mais “colorido” do que há uns anos atrás.

O nome das faixas estão a ficar bastante complexos, como se fossem pequenos conselhos. Este títulos são pessoais? Ou seja, achas que pensas de mais e que precisas de parar de pensar numa forma de pensar menos (I Will try to stop to thinking about a way to stop thinking – faixa 7)?

Aparecem-te antes ou depois de terminar a música?

Todos eles apareceram depois da música feita, são como que pequenos resumos daquilo de que a música trata, do meu estado de espírito quando a fiz. Todos eles são pessoais e reflectem um pouco aquilo que eu sou e sinto. Neste em concreto, a temática é mesmo essa, por vezes queremos forçar-nos a deixar de pensar, e não percebemos que só deixaremos de o fazer quando deixarmos de pensar nisso.

Como foi estares rodeado de amigos para a faixa «I was trying to sleep when everyone woke up» (participação especial de Esperi, Francisca Cortesão, Minta, Rita RedShoes, Luísa Sobral, Walter Benjamin, Afonso Cabral e Salvador Menezes)?

Foi uma experiência muito boa mesmo, quase como que uma celebração destes anos que passaram em que fui conhecendo todas estas pessoas.

“A.V.O.” é o acrónimo de “Almost Visible Orchestra”. Haverá aqui também uma dedicatória?

Há também uma homenagem neste título…

Estes oito anos de Noiserv foram uma ascensão lenta ou a bom ritmo?

Acho que tem sido, acima de tudo, sempre um percurso ascendente, umas vezes mais lento outras vezes mais rápido, mas nunca senti uma queda, e acho que isso é o mais importante para uma pessoa se sentir motivada. Sinto-me muito feliz por sentir que as pessoas realmente gostam daquilo que mais gosto de fazer.



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