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Jay Jay Johanson

Em Guimarães, o músico sueco deixou de lado as ambiguidades e deu o seu íntimo mais doloroso a uma plateia hipnotizada. 14 de Novembro, Centro de Artes do Espectáculo São Mamede.

Jay Jay apresenta-se muito mais sóbrio e recatado, embora mais introspectivo e mais cansado.
Vestido de cinza e preto, o cantor manteve o cabelo comprido apanhado, escorrido ao longo das costas, com ar cândido de quem vem receber visitas habituais à sala de estar. O músico sueco, que começou a editar em 1996, com “Whiskey”, é conhecido pelas suas músicas melancólicas e pelo seu aspecto andrógino. Em Guimarães, só o aspecto andrógino ficou de fora.

Veio a Portugal para apresentar o seu último trabalho, “Self Portrait”, de 2008, despido das fantasias ambíguas, apresentando-se apenas como o homem que traz debaixo da língua e nas pontas dos dedos as dores. Domina vários instrumentos, e é um espírito musical. As suas letras de reflexão depressiva e muitas vezes centradas em amores complicados, desejos frustrados e relações falhadas, acompanhadas pelas suas músicas de toque quase divinal, fazem do cantor, compositor e produtor uma personalidade especial, mas pouco conhecido no circuito comercial. Em Portugal, actuou em Lisboa, no Santiago Alquimista, e em Guimarães, no CAE São Mamede, evitando grandes recintos, uma vez que o seu público, suspenso em fios de seda, é reduzido, mas fiel.

O São Mamede sossega quando as luzes se apagam e a figura de Jay Jay entra em cena. A  atmosfera é quase palpável, de tão densa. «Alone again», do álbum “Poison” (2000), abre as hostes, configurando uma atmosfera de solidão em jeito de balada que irá prolongar-se por todo o concerto. Voltando às raizes trip-hop do início da sua carreira, Jay Jay canta «It Hurts me So», e a voz grave e o olhar magoado acompanham a performance. As mãos perdem-se entre o colo e o microfone e as suas palavras arrastadas fazem a audiência ver de dentro o mundo interior, a pele de Jay Jay virar para dentro, como se cantasse sobre si próprio naquele palco onde não se sente confortável. Encarna o confessor, o amigo que ouve, o amante que sossega a cabeça de quem chora mágoas. “Baby don’t worry while I listen to your story”. A sala cheia de olhos e atenção, bebe Jay-Jay em cada palavra.

«Far Away» rasga o silêncio compacto, timidamente aplaudido pelos hipnotizados. Johanson deixa cair as mãos lânguidas sobre o colo, perdidas sobre o manto intimista do seu “Self Portrait”. O cantor move-se numa teatralidade minimalista, e consegue manter o público emudecido. «Wonder wonders» entra ao compasso do metrónomo, e Erik Jansson, no piano, providencia uma melodia leve que caminha lado a lado com a voz fina e semi-rouca do cantor. Escapam-lhe uns sorrisos de cumplicidade, mas nunca com o público. Ao longo do concerto, aliás, a cumplicidade entre os dois músicos exclui o público de qualquer interacção.

O público manifesta-se quando Jay Jay apresenta as músicas anteriores e introduz a música «She doesn’t live here anymore», do álbum “The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known”, de 2007. Jansson, ao piano, parece partilhar com Jay Jay o deleite de interpretar as músicas que não tocam o chão – talvez pelo facto de acompanhar o cantor desde o início da carreira deste. Em Guimarães, Jay Jay parece um cantor romântico, porque a plateia é preenchida de casais e grupos de amigos. «Only for you» e o conhecido «I believe in us», seguido de «Escape», entram em cena, num palco em que piano de cauda, órgão, microfone e computador portátil potenciam a magia do concerto.

Jay Jay mostra-se cansado, algo que se veio acentuando desde “Antenna”. No palco, o único poder que o senhor de “On the Radio” detém é sobre o público e sobre a nostalgia que espalha na sala, com o magnetismo dos seus olhos azuis. Sorri pela segunda vez na noite, de modo tímido, ante o aplauso cheio e barulhento do público.

Preludia «Liar», do último álbum, mas, com «Rush», do álbum de 2005, Jay Jay deixa a plateia pensar, apesar de a tensão da sua música não permitir que o público descole; domina-lhes os pensamentos e as vontades. A respiração colectiva está suspensa e ninguém arreda pé. O público comete o pecado capital de acompanhar a balada com aplausos compassados. Jay Jay é um amante frio e sem tolerância, e mostra o desagrado pelo “entusiasmo” excessivo do público.

Com «The girl I love is gone», de 1996, e olhos fechados, Jay Jay enuncia uma marcha fúnebre tocada  de amor, acompanhada por um solo de piano dramático, a que a voz do cantor dá uma chama incandescente. O sueco dirige-se ao público, timidamente, e agradece a Portugal por ter sido um dos primeiros países a “descobri-lo”. “Continuem a convidar-me. São vocês que mantêm a vida que estou a viver”.

Jay Jay mantém-se de olhos fechados durante a maior parte das músicas e o público, os mais fãs, esperneiam gritinhos de excitação, enquanto saboreiam «Tomorrow» ou «Humiliation». O músico sueco apresenta uma música nova, ainda não editada no álbum de 2008. «Monologue« reforça a interacção longínqua. A plateia fica fora do espaço vital de Johanson, que mantém a alma bem presa ao mesmo tempo que enfeitiça a audiência com o prelúdio acapella «Skeletal», ao introduzir «I’m older now». Jay Jay afasta-se e cria um espaço bolha para Erik brilhar com um solo de piano, numa lullaby melódica, acompanhado pelos samples de cordas e trompete que o portátil do cantor emite.

“Self Portrait”, o foco especial da digressão do cantor, volta ao placo com «My Mother’s Grave» e «Broken Nose», a única música que irrompe em allegro e assim se mantém ao longo dos desafios do refrão. Na despedida, «She’s mine but I’m not hers» irrompe com toda a emoção vocalizada. O público aplaude incessantemente, na saída dos dois, até que o encore não surpreendente acontece, com «So tell the girls that I’m back in town». Uma das músicas mais esperadas da noite, clássico do músico, é acompanhada pelo público, que conhece a letra de cor. Apesar de esta música ser melhor em estúdio, com toda a parafernália instrumental, Erik Jansson é competente a converter a música ao órgão. «Suicide is painless» faz mudar o tom, trazendo um toque de jazz ao ambiente. Erik Jansson torna-se expressivo no órgão, com empenho físico na performance.

Na despedida final, sem direito a segundo encore, com «Milan, Madrid, Chicado, Paris» quase podemos ver Jay Jay soltar os braços, quais asas, e sair a voar pela sala, os pés a encaminhar o caminho de Chicago ou Paris.

A sala do são Mamede, pequena e intimista, deixou folgas para as bolhas de espaço. As fugas dos movimentos embalados foram acompanhadas por mãos postas encostadas à cara, com o olhar perdido num palco estéril, e a precisar de companhia intensa.



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