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“JIM”

Da percepção à (re)acção, um espectáculo para o nosso tempo

É cerrado sobre o seu próprio corpo curvo, e maioritariamente de costas para a plateia, como que se ainda fosse um corpo em luto, que Paulo Ribeiro assume, em participação especial, o início do espectáculo, como que a dizer-nos meticulosamente que tudo isto é um olhar para Bernardo.

É sobre a profunda primeira faixa «Indigo», do álbum homónimo do compositor português Bernardo Sassetti, que o coreógrafo busca a sua própria interioridade para se resolver em colectivo. A introspecção sobre a morte, mesmo que disfarçada de saudade, pode parecer uma coisa demasiado utópica se não conseguirmos ver nela a resolução para repensar o nosso eu interior.

“JIM” acabaria por ser mais um entre os múltiplos manifestos que a nova dança contemporânea portuguesa tem lançado desde o início da rentrée. Mas o cunho deste marca-se pela busca do seu próprio tempo, ritmo e sustentabilidade. Os caminhos são abertos e as suas possibilidades redobradas a cada instante, numa versatilidade da percepção, que faz com que seja o olhar do público, também ele, um rigoroso bailarino, equilibrado entre o tempo e a acção.

Mas esta ponte de que falamos nada tem de vertiginosa, pelo menos naquilo a que se refere o trabalho coreográfico. Paulo Ribeiro, coreografa o tempo na sua profundidade e no seu sentimento. Procura e compõe a poética do tempo baseada numa honestidade indivisível, que transforma o perigo em tranquilidade e o medo em esperança. Disse-o a Claúdia Galhós, num artigo para o “Expresso”, recordando o universo cinematográfico de Andrei Tarkovsky: “a velocidade mente, o tempo lento diz a verdade”.

Os seis bailarinos (mais Paulo Ribeiro), que deambulam numa dinâmica desconcertante, são na grande parte do espectáculo manifestos corporais individualizados, mas que acabam por atingir uma unidade orgânica em pontos cruciais da acção. Tal qual os ponteiros do relógio, que percorrendo o seu tempo numa unidade individual fluem sempre em conjunto, acabando por coincidir, pontualmente, entre si. Tudo isto melodicamente construído sobre o espírito e ritmo do rock n’ roll.

A cumplicidade com Morrison é evidente e é, lado a lado com “An American Prayer”, um álbum poético – o nono (e último) da banda – que foi gravado já depois da morte de Jim Morrison, que o coreógrafo procura a desconstrução do perigo e a contradição aos medos do indivíduo. Aquilo a que chamara de “aniquilamento interior”.

É isto que o coreógrafo também apresenta de diferente. A criação de imagens e o trabalho sobre a vertigem da mesma potencia a abertura de novos caminhos que, muitas vezes, funciona mais como despertador para a consciencialização interior e para a (re)construção do indivíduo, do que propriamente como um combatente para o estado social e político actual que, ainda assim, é inegável na presença contínua dos discursos poéticos do frontman dos “The Doors”.

Este é um espectáculo sobre os tempos, construído através de uma lógica do tempo. E, como tal, o coreógrafo é infalível nas decisões cénicas quando decide atribuir, de forma inteligentemente insinuosa, o rumo do espectáculo ao público. Fá-lo de forma incisiva nos momentos certos, e só se atreve a fazer isto quem tem dentro de si uma dialética orgânica entre corpo e palavra.

Mas, pessoalmente, nem tudo conflui harmonicamente e o espectáculo apresenta algumas dúvidas relativas às projecções em tela. Estas, ora eram utilizadas numa técnica perfeita para jogos de luz e contraluz, alternando entre o corpo lúcido e perceptível e o corpo abstracto e transcendente, ora caíam num universo demasiado abstracto, demasiado pessoal, com o qual o público não se conseguia estreitar, criando com elas uma relação uniforme.

Já os figurinos, assinados por José António Tenente, são um retrato fiel à época e recebem o corpo e a luz de forma impressionante. Os padrões monocromáticos de cores quentes e os padrões ondulados e garridos com linhas abstractas exaltam ainda mais os sentidos e os estímulos dos corpos dos bailarinos, dando-lhes vida e sentido, mesmo em momentos de delírio auto-destrutivos.

O espectáculo começa como poderia acabar. Com Jim Morrison a ressoar: “Is everybody in?

Apresentações em 2013:

18 a 20 de janeiro – Apresentações no Teatro Nacional São João, Porto
01 a 03 de fevereiro – Apresentações no São Luiz Teatro Municipal, Lisboa
08 de fevereiro – Apresentação no Casa das Artes de Felgueiras



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