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Joana Bastos – Ask Me

até 20 de Dezembro @ Kunsthalle Lissabon

Quando entramos no espaço da Kunsthalle Lissabon encontramos Joana Bastos. É para isto que viemos, para vermos a sua mais recente exposição Ask me. Quem está familiarizado com a expressão que dá nome ao trabalho, entende a referência aos assistentes de exposição que tanto encontramos por qualquer galeria ou museu que visitemos.

Esta relação é a forma de trazer para o visível algo que normalmente, nós espectadores pouco ou nada reparamos quando vamos a uma exposição. Estes assistentes encontram-se sempre nas salas por onde vamos vagueando, como uma companhia silenciosa, sempre pronta a ajudar-nos, caso precisemos e a requisitemos.

Assim, encontramos Joana, como assistente e a artista, numa só pessoa, aquela que nos recebe e simultaneamente aquela que fomos contemplar. Joana é a obra, a artista performer e, ao mesmo tempo, a zeladora do espaço expositivo, aquela nos guia e nos orienta.

O objectivo primeiro desta peça é utilizar a referência à profissão de assistente de sala (tantas vezes, como mesmo diz Joana, exercida por outros artistas) e colocá-los como problemática do mundo da arte e de toda a sua esfera. Quantos de nós sequer nos lembramos do assistente que encontrámos naquela ou na outra exposição? Quantos de nós perguntou realmente algo sobre o que estamos a ver ao assistente que temos ao nosso dispor? Por isto, mas sem nenhum toque dramático ou fatídico, Joana questiona-nos sobre este posicionamento e, acima de tudo, sobre a arte em si mesma.

Na folha de sala encontramos a legenda do objecto / performance, onde podemos ler: Mesa, cadeira, computador, assistente de exposição – dimensões variáveis. Poucas legendas poderão dizer tão bem o que realmente vemos e, em simultâneo, dizer tão pouco sobre a sensação que temos ao depararmo-nos com esta obra.

As peças da artista demonstram a sua análise da realidade. Talvez seja uma obra o mais aproximada da verdade, quanto possível na arte, já que quando observamos o objecto / performance, estamos a ver Joana Bastos, a artista – o objecto artístico.

Existe um paradoxo nesta obra, já que Joana nunca pode ser em simultâneo os dois Eus que nos propõe: o Eu assistente e o Eu artista. Assim sendo, existe um desdobrar da realidade e nós espectadores temos o privilégio de podermos conversar com os dois em simultâneo.

A artista tem vindo a desenvolver nos  últimos anos trabalhos onde a realidade é tratada como arte, como são exemplo, Hostess – Impossible Exchange (2009), exposto na Frieze Art Fair em Londres, Guest room – site specific (2009) no Centro Cultural de Lagos ou ainda Survive to perform to survive to perform and so on (2008) apresentado na exposição 7 artistas ao décimo mês no centro de arte moderna da Gulbenkian. No seu percurso entendemos a sua necessidade e vontade de procurar expor situações quotidianas e possíveis para qualquer um de nós, como forma de repensar a ideia de objecto artístico.

Talvez a melhor forma de compreender esta forma de estar na arte é pensarmos que, ao contrário de muitos artistas que se propõem fazer algo, Joana propõe-se Ser. Esta utilização da ideia de se Ser algo, como encontramos em Ask me, o ser um assistente de exposição, permite-nos a nós espectadores contactar com a realidade que muitas vezes nos passa despercebida.

Esta exposição é sobretudo sobre o que não se vê, aquilo que não está naquele espaço e que se não nos propusermos, não alcançamos.

Ao entrar na Kunsthalle e ao encontrarmos somente Joana à nossa espera, com a sua mesa, a sua cadeira e o seu computador, num espaço aparentemente vazio e mal tratado, poderemos não conseguir entender para além desse mesmo (falso) vazio. No entanto, este espaço poderá dar-nos hipóteses de ver um outro lado da performance e da própria noção de arte.

A performance neste caso, parece-me a mim, ser um verdadeiro entrar na realidade, uma performance do real. O depararmo-nos com tal objecto / performance permite-nos pensar nos muitos Eu sou que diariamente dizemos, e como os temos de ser, a todos eles em simultâneo.
Esta performance é sobretudo sobre aquilo que é Ser.



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