João Afonso | Entrevista

João Afonso | Entrevista

"A forma como componho tem algo a ver com as minhas raízes, o meu inconsciente"

No seu último trabalho, João Afonso juntou-se a Mia Couto e José Eduardo Agualusa e, a partir dos poemas destes dois escritores, criou um disco que oferece uma multiplicidade de sons e de universos, fazendo renascer o mapa cor-de-rosa formado, noutros tempos, por Portugal, Moçambique e Angola.

“Sangue Bom”, que tem na produção – e em alguns instrumentos – o dedo de Vitor Milhanas, reúne lá dentro toda a comunidade e herança lusófonas, num disco em que colaborou uma verdadeira multidão de músicos que, presencialmente ou à distância, contribuíram para um parto musical complicado.

Das 14 histórias contadas no disco, onde a infância se vai desenrolando como um invisível fio condutor, há espaço para a amizade, a fraternidade e o amor, num disco que a cada audição vai revelando camadas escondidas, sempre com a música tradicional portuguesa como fundo.

Enquanto prepara a formação para os concertos de apresentação a “Sangue Bom” – depois do lançamento no B.Leza na passada semana -, João Afonso esteve à conversa com a Rua de Baixo.

Como foi fazer dançar as palavras de José Eduardo Agualusa e Mia Couto? E de onde partiu a ideia de gravar este disco a partir de uma semente literária?

Para além de ser um grande admirador da escrita dos dois, tenho uma grande admiração pela sua forma de estar e de ser na vida. Pela sua coragem, pela forma como encaram as realidades de cada um dos seus países. O projecto começou há uns anos a partir de um desafio lançado pelo Mia Couto, a que depois se juntou o Agualusa. Tive carta branca para mexer nos poemas, mas praticamente não toquei nos originais. Foi um processo dinâmico entre os três, natural entre amigos.

João Afonso

Qual é o fio condutor de “Sangue Comum”? Pode dizer-se que é um disco conceptual à volta da ideia de infância, passada numa pátria lusitana abrangente e sem espaço para a delimitação de fronteiras?

Conceptual só talvez à posteriori, isto se quisermos interpretar as palavras deles. Mas o que ressalta a meu ver é uma sonoridade com uma multiplicidade de universos de sons que tem a ver com a musicalidade que as palavras continham desde início. O que encontro são poemas e mensagens com os quais me identifico muito. Agora, conceptual será a ideia de alguma identidade – não gosto muito de usar esta palavra -, de Lusofonia, do encontro de povos que falam a mesma língua e que têm uma história comum de que nos podemos orgulhar.

Como foi reunir numa única rodela os sons de Portugal, Angola e Moçambique, ainda arranjando espaço para encaixar o Brasil, a Espanha e o País Basco?

Nunca pensei que ganhasse esta dimensão. De início lembro-me de estarmos os três na Casa Fernando Pessoa e eu, como brincadeira, propus como título “O Mapa cor-de-rosa”, que pretendia o regresso, por meio da cultura, ao mapa cor-de-rosa, formado por Portugal, Moçambique e Angola. Durante o processo, as próprias músicas fizeram surgir ideias de uma diáspora musical, e os convites a músicos convidados partiram também daí, o que resultou numa grande variedade musical.

Como decorreu a gravação deste disco, com tantos músicos e convidados?

O disco deve-se fundamentalmente à generosidade e entrega total – e de bom gosto – do produtor e meu amigo Vitor Milhanas, que teve um trabalho de loucos neste disco. E deve-se também à generosidade e amizade desses músicos que colaboraram no disco. E, para ser mais verdadeiro, essa generosidade e essa amizade também foram possível graças aos meios tecnológicos que hoje permitem fazer certas coisas. Se fosse há 30 anos provavelmente não teria conseguido gravar este disco.

Se fosse futebol diria que Vitor Milhanas tinha vestido a camisola 10

Não, ele seria talvez o treinador (risos).

Quanto tempo decorreu da ideia inicial ao lançamento do disco?

O disco foi quase uma epopeia, cheia de interrupções e questões pessoais, minhas e do Vítor. Para dizer a verdade chegou a ter um pé numa editora espanhol, que depois abriu falência. Foi um processo demorado, talvez dois anos com muitas interrupções. Mas não houve falta de canções, até há quatro novos temas que serão lançados como uma espécie de bombons.

Consideras este o teu melhor disco?

Será talvez o meu disco mais conseguido em termos de sonoridade e diversidade. Mas há uma coisa que seria falsa modéstia não dizer. Orgulho-me de os meus discos serem diferentes uns dos outros, e este tem uma particularidade: as canções são muito diferentes umas das outras. Têm algumas famílias comuns mas são de uma variedade muito grande. A minha forma de ir compondo também tem variado um bocado.

O património musical português, nomeadamente a sua vertente mais popular, vai sendo aos poucos reinventado, recusando o estatuto de intocabilidade. Basta pensarmos, por exemplo, naquilo que o projecto O Experimentar Não Me Incomoda fez com o canto tradicional açoriano. Pode “Sangue Bom” ser visto como um disco que reinventa a música popular portuguesa aproximando-a de novos públicos?

Concordo, acho que há um reinventar em busca de outros sons e, no meu caso, sem fugir à ligação meio híbrida a África. A forma como eu componho tem algo a ver com as minhas raízes, o meu inconsciente, mas acho que há por aí muitos grupos a reinventar a música popular portuguesa, como por exemplo A Presença das Formigas, que gravaram há pouco o segundo disco. Ou os Gaiteiros de Lisboa.

Vais-te mantendo a par do que se vai gravando dentro e fora de portas? Assim de repente diz-nos os discos que mais têm passado nos teus headphones ou no sistema de som lá de casa

Ouvi bastante esse disco das Formigas, de que te falei há pouco e no qual colaborei. Em casa ouço muita música clássica e erudita. Mas depois gosto muito de world music – há um disco que reencontrei recentemente do Farka Touré e o Ray Cooder, que o tinha perdido há uns 10 anos, e que talvez por isso o tenha ouvido bastante. As novidades vou-as ouvindo na rádio, e como tenho um miúdo de 13 anos vou-me mantendo a par de outras sonoridades.

Vamos ter concertos para breve dentro de portas?

Neste momento estamos a preparar a tal banda, o núcleo duro, e não temos nada em definitivo. É tempo de trabalhar a banda porque queremos aparecer e estar à altura do disco.



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