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Sandro Norton

"Para mim, não existe técnica tradicional. A guitarra é sem dúvida o instrumento com maior variedade de técnicas de instrumento e afinações. Cada afinação transporta-me para diferentes ambientes acústicos aos quais eu me inspiro, componho e deixo fluir o que eu tenho dentro de mim."

Sandro Norton é tão ocupado como o seu currículo. Estudou psicologia, completou um mestrado em composição musical em Londres e agora, aos 33 anos, reparte o seu tempo entre o dar e o receber. O primeiro materializa-o nas aulas que dá, algo pelo qual também passou várias vezes e que o ajudou a dominar a guitarra e a chegar aos grandes nomes do jazz com quem teve aulas. O receber chega-lhe pela sua própria mão, pelos concertos que dá e pelas canções que grava, quer a solo, quer com os projectos paralelos que vai mantendo activos. E no meio disto tudo, ainda arranjou espaço para falar connosco.

Começaste a estudar música, sozinho aos 12 anos. O que é que ouvias na altura?

É verdade, o primeiro contacto que tive com o instrumento foi nessa idade, por influência de um familiar que já tocava. Nessa altura ouvia de tudo um pouco, desde Carlos Paredes, Zeca Afonso, Beach Boys, passando pelo Louis Armstrong, Mozart entre outros. Tinha muito interesse em ouvir diferentes tipos de música.

Como é que uma criança tão pequena arranja motivação para se dedicar a um estudo exaustivo?

A primeira vez que peguei na guitarra senti-me muito confortável com o instrumento, houve desde logo uma ligação muito forte e um sentimento de tranquilidade. Esse bem-estar e equilíbrio levou-me a prosseguir os meus estudos de guitarra clássica e mais tarde guitarra eléctrica.

Sei que chegaste a frequentar aulas da licenciatura em Psicologia. O que é que te levou a seguir essa área?

A Psicologia foi sempre uma área que me despertou bastante interesse. Como nessa altura estava indeciso relativamente à área a seguir profissionalmente, tentei durante algum tempo conciliar as duas coisas, por um lado os estudos académicos na área da Psicologia, por outro o estudo de guitarra.

Quando é que te apercebeste que o teu caminho não era de todo essa área mas sim a música?

Surgiu uma oportunidade de concorrer a uma Licenciatura em Música numa Universidade bastante conceituada em Londres, sendo um dos requisitos o envio de um trabalho musical individual. Fui seleccionado em segundo lugar numa candidatura de 1200 guitarristas espalhados pelo mundo, e nesse momento a minha escolha estava feita.

Durante o período em que estiveste em Inglaterra estudaste com grandes nomes da música como, por exemplo, Barry Harris e John Scofield. Como foram essas experiências?

O primeiro contacto com esses artistas foi para mim uma experiência extraordinária! A oportunidade de estudar com grandes músicos como John Scofield, Phillip Mead, Chris Bachelor, Mike Outram, entre muitos fez-me sentir um privilegiado, com vontade de absorver toda a informação e todos os ensinamentos que conseguisse. Ainda hoje estudo com o grande mestre Barry Harris e continua a ser uma experiência bastante enriquecedora para o meu desenvolvimento enquanto músico e que faz de mim aquilo que sou na actualidade.

Trabalhas como professor de música. Isso teve alguma influência no teu processo criativo?

Posso dizer que transmitir conhecimentos como professor apela sem dúvida ao lado criativo, uma vez que temos por vezes de arranjar novas estratégias e imaginação para transmitir conhecimentos, principalmente nas faixas etárias mais baixas. Apesar de trabalhoso, acompanhar o processo evolutivo de um aluno é das sensações que mais me dá prazer, embora seja uma actividade distinta comparativamente ao meu trabalho enquanto compositor e músico.

Tocas guitarra usando uma técnica de guitarra percussiva, em que as duas mãos tocam em partes diferentes da guitarra. Como é que descobriste esta técnica? Porque é que optaste por ela ao invés da técnica mais tradicional?

A realidade é que desde cedo comecei a explorar diferentes afinações no meu instrumento. Mesmo antes de ir para Londres já experimentava afinações celtas e irlandesas. Ainda nessa altura vi que poderia explorar diferentes estéticas musicais. Já em Londres tive a oportunidade de conhecer, conviver e estudar com Eric Roche, um dos pioneiros da técnica de guitarra percussiva.

E para mim, não existe técnica tradicional. A guitarra é sem dúvida o instrumento com maior variedade de técnicas de instrumento e afinações. Cada afinação transporta-me para diferentes ambientes acústicos aos quais eu me inspiro, componho e deixo fluir o que eu tenho dentro de mim.

Participas em vários projectos, desde um quarteto a um octeto, passando ainda pelo teu trabalho em nome próprio e o projecto Café de Paris. Como é que todos estes projectos coabitam?

Todos estes projectos são a consequência e a necessidade de me exprimir musicalmente em diferentes contextos musicais. O facto de ter convivido e ter tido experiências musicais com músicos de diversas nacionalidades teve um grande impacto no meu desenvolvimento enquanto músico, daí que todos esses projectos em conjunto sejam sem dúvida a expressão dessa experiência e da vontade de explorar essa diversidade musical.

As tuas influências musicais vão desde Bach, Debussy ou Mozart a Louis Armstrong, John Coltrane ou Charlie Parker. Em que é que estes artistas te influenciam?

A vida e a obra desses grandes músicos entre outros são um grande exemplo de individualidades que, sobretudo, acreditaram nelas próprias. Para mim, sem dúvida, e nesse sentido, serão sempre uma inspiração enquanto músico.

Em Março do ano passado andaste em digressão pela Noruega com o teu quarteto. Como foi essa experiência e a recepção por parte dos noruegueses?

A tournée pela Noruega constituiu um desafio enquanto músico e também uma experiência muito enriquecedora. Já toquei na Noruega várias vezes e sem dúvida que é um dos meus públicos preferidos.

Estás a concluir a gravação do teu primeiro disco. O que podemos esperar? Já há data de lançamento?

O meu primeiro disco é precisamente o resultado de todas as experiências que tenho vivido. Nele poderão ouvir diferentes correntes musicais, com arranjos vanguardistas. Consiste numa viagem entre diferentes correntes Jazzísticas e World Music. Quinze músicos participaram na gravação e conta com a produção/colaboração de Jorge Fernando e Mário Barreiros e antes da Primavera já estará à venda.

O que podemos esperar de ti em 2012?

2012 vai ser um ano bastante importante para mim. Além de ser o ano do lançamento do meu primeiro trabalho discográfico que o público terá a oportunidade de apreciar, continuarei a desenvolver os restantes projectos em que estou inserido e acima de tudo tentarei manter a mesma dedicação e seriedade com que encaro o meu trabalho no dia-a-dia.



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