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Se esta rua fosse minha

O artista britânico Joshua Sofaer quer dar o nome de um cidadão desconhecido a uma rua do Porto.

Joshua Sofaer é o criador do projecto Viver a Rua. A ideia é simples mas revolucionária: dar o nome de um desconhecido a uma rua do Porto. O artista britânico foi convidado pelo Núcleo de Experimentação Coreográfica (NEC) para idealizar este projecto para o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica 2010. Conhecido por intervenções que envolvem o público, este artista de 38 anos questiona o poder instituído e convida as pessoas a pensar e a agir. É contra a produção de celebridades instantâneas. Os seus projectos mais conhecidos trazem cidadãos anónimos para a ribalta: em Birmingham, prestou homenagem a uma enfermeira escrevendo o seu nome num letreiro luminoso; em Londres, o projecto “Rooted in the Earth” (“Enraizado na Terra”) imortalizou o nome de cinco desconhecidos em arbustos de jardim. Em cada iniciativa, Joshua Sofaer lança a questão que serve de premissa ao projecto que desenvolve actualmente no Porto: quem queremos como modelos nas nossas vidas? E o que faz as pessoas serem merecedoras de uma homenagem pública?

À Rua de Baixo, o artista lamentou o divórcio entre a política e os cidadãos e convidou-os a agir: “A cidade é vossa”.

Nos seus projectos anteriores, “Name in Lights” (“Nome em Luzes”) e “Rooted in the Earth” (“Enraizado na Terra”), pôs nomes de cidadãos desconhecidos eleitos por outros cidadãos em letreiros luminosos ou esculpidos em arbustos. Como surgiu essa ideia?

Não houve um plano definido desde o início, de uma certa forma um levou ao outro. Estava interessado em conseguir alguma distância desta cultura de celebridades que agora está em todo o lado, especialmente no Reino Unido. No Reino Unido, quando perguntam às crianças nas escolas o que querem ser quando forem grandes, a resposta deixou de ser maquinistas ou enfermeiras para dizerem que querem ser uma celebridade, uma profissão sem significado. Para mim isto era muito mau, e quis lançar a discussão sobre quem queremos que os nossos cidadãos sejam, quem queremos que sejam os nossos modelos, e o que significa ser um cidadão. E foi assim que surgiu “Name in Lights”, para oferecer esta espécie de mística de Hollywood a um cidadão desconhecido. Resultou muito bem em termos de obtenção de ambos os objectivos: na altura, mais de dois milhões de pessoas visitaram o website durante o concurso, um número absolutamente descomunal. Conseguimos realmente lançar um debate, mas ao mesmo tempo havia este mistério sobre este nome, este nome em luzes que parecia pairar ali; as pessoas não sabiam realmente quem ela era e tinham de investigar um pouco para descobrir.

Está a falar do letreiro luminoso com o nome de Una White por cima de um edifício, em Birmingham. E quem era ela?

Tinha sido nomeada pela filha. Veio para o Reino Unido nos anos 60 e trabalhava como enfermeira, trabalhou de forma incansável pela sua comunidade. E depois “Rooted in the Earth”, que foi o projecto seguinte, funcionou de uma forma muito parecida, mas acabou por ser muito diferente. Enquanto “Name in Lights” se focou em pessoas dos 16 aos 25 anos (foram essas as pessoas que fizeram as nomeações), o “Rooted in the Earth” era sobretudo para famílias e pessoas mais velhas. Era o mesmo conceito, mas envolvia plantar arbustos e flores, e escolhemos cinco desses nomes [para podar nos arbustos], por isso passou de uma visão algo Hollywoodesca para uma visão de jardinagem quase folclórica.

Quando vim fazer um workshop em Novembro [de 2009], o Núcleo de Experimentação Coreográfica (NEC) disse-me que queriam comissionar-me para desenvolver uma ideia para o FITEI 2010. Queriam algo que tivesse uma consciência social e que causasse um grande impacto público, mas que não custasse quase nada, porque eles têm muito pouco dinheiro. Isto foi um grande desafio para mim, porque os outros projectos tinham um orçamento pelo menos dez vezes maior. Mudar o nome de uma rua não custa dinheiro nenhum, num certo sentido – claro que a campanha de marketing, o tempo das pessoas, tudo isso custa dinheiro –, mas a ideia é tentar cativar a imaginação das pessoas e iniciar uma discussão sobre o assunto. Por isso, mesmo que as pessoas não estejam a participar, apenas o facto de estarem a pensar nisso, no que significa viver numa cidade em que as ruas têm nomes de cidadãos, e o que justifica termos o nosso nome como um legado permanente da cidade – estas são as coisas em que eu quero que as pessoas pensem.

Ficarei contente se conseguirmos algumas centenas de nomeações. É algo bastante difícil de nomear, estamos a pedir às pessoas que escrevam uma pequena exposição. Mas quer nomeiem ou não, não se pode julgar o sucesso ou o fracasso apenas pela quantidade de nomeações. A não nomeação de alguém também é um sucesso, de certa forma, porque pensamos “bem, não consigo justificar isto, não sinto que seja merecedor, ou não sinto que conheça alguém merecedor disto”, e é-se forçado a fazer esta avaliação.

Como explicaria o projecto às pessoas que trabalham e vivem no Porto?

Explicaria simplesmente o que o projecto oferece: uma oportunidade para se nomear a si mesmo ou nomear alguém que considere importante para si e oferecer-lhe um tributo. E a razão pela qual faço isto é porque quero que todos nós pensemos nas pessoas que valorizamos e de que forma a sociedade como um todo valoriza as pessoas.

Qual é a rua que vai ser nomeada? É uma decisão que faz parte do projecto ou vai ser decidido mais tarde?

Vai ser decidido mais tarde. Estamos a ver várias opções. Uma é escolher uma rua nova no Porto. Outra opção é que há algumas ruas que não têm nome, e uma terceira é que seja algo maior do que uma rua, como um parque. Eu gostaria muito que fosse uma rua, mas vamos ver.

Mudar o nome a uma rua já existente é uma possibilidade?

Provavelmente não uma rua já estabelecida, mas algumas ruas no Porto têm nomes algo informais ou não estão registadas, como pequenas vielas e outras. De momento estamos a tentar iniciar o diálogo [com a Câmara Municipal do Porto] e mantê-lo activo. Mas as opções estão em aberto.

A placa da rua vai ser especial, vai ser diferente das outras?

A longo-prazo, o legado do projecto vai ser o mapa da cidade – com o novo nome da rua, todos os mapas terão obviamente de mudar, e isso é algo com bastante impacto. É apenas uma placa normal, sem explicação – o que também é muito importante para mim. Quando fiz o “Name in Lights” e o “Rooted in the Earth”, uma das contingências das autoridades locais era que queriam uma placa que explicasse o que era o projecto. Sou muito resistente a isso, porque acho que quando explicamos uma coisa, podemos torná-la desinteressante por excesso de explicações. Por isso, quero que a informação esteja disponível se as pessoas a procurarem, e que ao descobrir digam: “Ah, então era isso!”; mas na verdade prefiro que haja muitas perguntas, “quem diabo é a Una White, o que é isto?, quem é a Lorna Jones, o que é isto?”, e na rua no Porto, “porque é que deram a esta rua o nome desta pessoa?”. Não quero que seja imediatamente explicado, porque assim as pessoas tendem a desligar.

Então não haverá qualquer informação sob o nome?

Não. Há muitas ruas no Porto, incluindo a rua em que estou a viver enquanto estou cá, sobre as quais não consigo encontrar qualquer informação, quem a pessoa era; e quando se procura no Google é super irritante, porque tudo o que encontramos é a referência geográfica, não encontramos a biografia. Ao passo que desta vez, se procurarem, vão de certeza obter a biografia desta pessoa, porque será publicitada e estará disponível.

Está a falar dos sites que já existem, como o do Viver a Rua e o seu, por exemplo?

Sabe, no caso da Una White, há agora uma entrada na Wikipédia sobre ela que não existia antes. Não há uma sobre mim, curiosamente. Apareço na página da Wikipédia da Una White como o artista, mas estou a vermelho, o que quer dizer que não há uma entrada na Wikipédia sobre mim. De certa forma, isso também é muito interessante, que a Una White tenha ultrapassado o meu conceito para se tornar a parte visível para o público. Quando se fazem projectos destes, o projecto é disseminado largamente, e não temos qualquer controlo sobre isso. Estará por aí – e se se transformar num mito, isso também será interessante.

Imagina poder fazer um projecto assim noutra cidade?

Honestamente, pensei que fosse impossível aqui. O que o torna difícil de concretizar é a flexibilidade das autarquias. Aqui foi-me dado a entender que a Câmara Municipal era bastante conservadora, por isso fiquei absolutamente deliciado e encorajado por eles reconhecerem o valor do projecto.

O Porto também dá a sensação de viver muito das ruas. Querem ter coisas na rua. Reparei que a Feira do Livro está a acontecer na principal praça da cidade [Avenida dos Aliados]. Não me lembro de nenhuma outra cidade que conheça que pusesse a feira do livro na principal praça da cidade. Parece-me que uma parte importante da cidade gira em torno das ruas: há alguns centros comerciais, mas as ruas parecem ser muito mais importantes, e os centros comerciais são relativamente pequenos. E é interessante ver como no último andar do Via Catarina, por exemplo, reproduziram as ruas e as fachadas das casas dentro do centro comercial; é muito kitsch, uma espécie de Porto Disneyficado. Está-se dentro, num local fechado, mas é como estar no exterior, na rua, ou pelo menos numa fantasia do exterior. É uma cidade de ruas, para cima e para baixo, para cima e para baixo…

O que acha do Porto?

Acho que é incrivelmente bonito. Dá a sensação de estar num ponto de viragem.

De que forma?

Bem, vê-se que tem uma teia de História apertada e que traja a sua história à superfície. Isso é visível na estratografia dos edifícios: alguns azulejos caíram das fachadas, há estuque novo por cima do antigo, a superfície é velha e desgastada, por isso vê-se a história da cidade por todo o lado, mas ao mesmo tempo dá a sensação de ser surpreendentemente jovem. A primeira vez que cá vim era Inverno, e não me apercebi tanto desse lado: pensei que era uma cidade antiga, com uma população envelhecida. Mas na verdade dá a sensação de ser muito juvenil, e tenho a impressão de que são os estudantes, a cultura de vida universitária, que a mantém jovem. E culturalmente parece ser muito activa. Para ser sincero, eu não sabia nada de Portugal antes de cá vir. Foi este projecto que me trouxe cá pela primeira vez, e estou muito contente por ter descoberto o país. Tive um amigo na escola cuja mãe era portuguesa. Para mim Portugal era esta língua estranha que ele falava com a mãe, era tudo o que eu associava a Portugal até aqui…

Qual vai ser o impacto do Viver a Rua no Porto, na sua opinião?

Uma característica de todos os projectos que faço é que terminam a um dado momento – e este, potencialmente, existirá depois de eu morrer, de uma forma real. E as pessoas vão viver nesta rua e as coisas continuarão a acontecer, as pessoas terão desavenças nela e darão abraços nela e talvez até sejam concebidas nela. Por isso, de uma certa forma, o mundo inteiro, tudo é potencialmente possível, o que é muito entusiasmante, conceptualmente. Claro que não é uma virtude artística em si, não é algo que eu vou criar, mas é algo que este projecto vai pôr em acção. O que espero realmente é que isto aconteça. Não posso evitar sentir-me nervoso até que aconteça. A minha esperança é apenas que aconteça, que realmente aconteça.

Há uma mensagem política nos seus projectos?

Acho que todo o trabalho é político na medida em que é contextualizado na sociedade, mas sim, diria que o meu trabalho é político. Mas com um P pequeno, não é de todo político de forma partidária. Interesso-me por activar a cidadania, penso que a prática da arte, no seu melhor, oferece uma espécie de permissão às pessoas para pensarem ou agirem de uma forma que de outro modo não lhes ocorreria. Para mim o pior lado da arte é a faceta comercial do mercado da arte visual, mas o seu melhor lado é que pode ser transformativa. Acho isso incrivelmente poderoso. Não tenho pretensões de transformar a sociedade com este trabalho, mas penso que de uma certa forma ele pode desafiar as pessoas para reflectirem e também para darem um passo em frente e desempenharem um papel na comunidade. É nisso que estou verdadeiramente interessado, em construir comunidades.

Diz no seu blogue que um dos problemas que enfrenta no projecto é as pessoas não acreditarem realmente que isto vai acontecer.

Isso é mesmo verdade! E é uma coisa que eu não esperava e que tem sido um desafio. Até o NEC, quando falou sobre o projecto aos amigos, ouvia “ah, isso é óptimo, mas não vai mesmo acontecer, pois não?”; e eles, “sim, nós vamos mesmo mudar o nome de uma rua, vamos mesmo fazer isto”. Suponho que as pessoas não acreditem que é possível, e isso é porque estão desligadas politicamente como cidadãos, não acreditam que possam ter voz activa. Isto prova o propósito e a necessidade do projecto, de certa forma, porque mostra que as pessoas não sentem que têm poder na formação da sua própria cidade – e isso é trágico! É por isso que penso que este projecto é pertinente no Porto neste momento. A segunda questão que as pessoas põem é: “a Câmara concordou com isto?”, ou “o que é que a Câmara pensa disto?”. Acho que as pessoas não sentem que a cidade lhes pertença. Talvez este projecto possa, de alguma maneira, dar-lhes a noção de que podem fazer as coisas mudar.

Como artista, esta é a sua forma de reclamar as ruas para as pessoas?

Em parte, sim. Não quero parecer muito grandioso, mas acho que as pessoas devem sentir que têm poder, é a cidade delas. Os burocratas daqui, eleitos ou não, devem trabalhar em nome dos cidadãos. No Reino Unido a retórica é esta (ainda muito recentemente, porque tivemos eleições): estes são membros eleitos do Parlamento que devem servir os cidadãos, não são os cidadãos que devem servi-los a eles.

Tem uma mensagem para as pessoas do Porto e para as suas autoridades?

A mensagem seria a mesma. É uma mensagem para os cidadãos, que eu pediria à Câmara Municipal para ouvir: esta cidade é vossa. Façam a vossa parte e podem mudá-la.

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Conhecem alguém que mereça ter o nome numa rua?

Conhecem alguém que mereça uma homenagem pública? “Viver a Rua” é a oportunidade de nomear alguém para ser homenageado com o nome de uma rua do Porto. Qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode sugerir um nome. Até 10 de Junho, podem participar no concurso, enviando o nome da pessoa que desejam nomear e explicando o motivo pelo qual a pessoa em questão merece uma homenagem pública. Após o encerramento do concurso, o júri escolherá o nome para ser homenageado. Esse nome será revelado oficialmente até à edição do FITEI 2011.

Para participarem, consultem o site do projecto (ver link externo)

Esta iniciativa vai ser divulgada em vários locais do Porto por um grupo de alunos de escolas artísticas: dia 2 de Junho, das 15h às 18h – Foz (zona esplanadas); 5 de Junho, das 16h às 19h – Inaugurações de galerias na Miguel Bombarda; 6 de Junho, das 15h às 18h – Serralves em Festa.

Fotografia por Diana Rui



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