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JP Simões – Canta José Mário Branco @ Musicbox (20.04.2023)

Escuta-se Zeca Afonso e faz sentido. O Musicbox vai enchendo a um ritmo muito próprio e, entretanto, é a vez de se ouvir a voz de Sérgio Godinho no sistema de som a cantar a «Quimera do Ouro». Damos por nós a pensar em como irá JP Simões interpretar as músicas de Jose Mário Branco, na sala onde, em 2009, deu o seu último concerto. Juntamos a isto, estarmos a apenas alguns dias de assinalar o 49º 25 de Abril e sentimos que nada disto é um acaso. E ainda bem. É importante, essencial mesmo, passar o testemunho e manter a memória destas canções viva e presente.

JP Simões sobe ao palco com a calma e descontração que o caracteriza e a dizer que vão “tentar não estragar” as canções quando arranca com o «Fado da Tristeza», com um minimalismo que nos enche pela maneira como é executado com a indispensável cumplicidade de Ruca Rebordão na percussão e Nuno Ferreira à guitarra. Segue-se a “canção dramatico-financeira”, as «Contas de Deus» e assustam as palavras que são cantadas, tal a sua actualidade, “Alguém que acorde esse país / Que pegue fogo aos alibis / De quem pensa que o dinheiro / Se gasta primeiro / Que o amor”.

«Maio Maduro Maio» canção enorme de Amélia Muge, José Afonso e José Mário Branco. Magnífica a forma como JP Simões personaliza a interpretação e mesmo assim mantém uma ligação e uma reverência ao original.

Dúvidas restassem, ficam dissipadas quando ecoa na sala «Cada Dia São Cem (Carta ao Remetente)». Isto devia estar a ser registado para a posteridade. A voz e presença de JP Simões são complementadas de forma sublime pela guitarra de Nuno Ferreira que chega a soar a algo parecido a um órgão (são os pedais, senhor, são os pedais) e o trabalho de precisão e sensibilidade de Ruca Rebordão na percussão e todos os demais instrumentos e objectos que o rodeiam.

«Fado Tropical» canção que Chico Buarque de Holanda, prémio Camões 2019 (finalmente entregue), compôs originalmente em 1964 para uma peça de teatro chamada “Calabar” e “ofereceu” a Portugal em 1974, na sequência da revolução dos cravos, foi cantada com o sotaque das Terras de Vera-Cruz e de Camões, num momento magnífico. “Ai, esta terra ainda vai cumprir o seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Há versos que atravessam séculos; “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, é um deles. Cantamos todos juntos e levamo-nos em ombros e sentimo-nos uns felizardos por José Mário Branco “nos ter deixado tanta coisa boa”.

«Mariazinha» antecede «Lembra-me um Sonho Lindo» de Fausto Bordalo Dias, porque se há algo que caracteriza a música e canções de José Mário Branco é a partilha e a camaradagem. E ali gritamos juntos, à desfilada! Estamos perto do fim – porque JP Simões deixou “o carro mal estacionado”, mas ainda há tempo de encher um pouco mais os nossos corações, com «Ser Solidário» e assim, improvavelmente, sermos felizes. Que bela noite!



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