Laufey @ Coliseu dos Recreios (21.03.2026)
Os relógios foram, de facto, incomensuráveis. E que bela maneira de perder a noção do tempo.
No passado dia 21 de Março, no Coliseu dos Recreios, Laufey fez a sua estreia em Portugal. A cantautora islandesa apresentou-se singular e destemida, num concerto que, por certo, ficará na memória para sempre.
- Estamos às portas do Coliseu e duas filas bidireccionais a perder de vista – muitas pessoas de olhos, simultaneamente, apontados e nervosos. Batem as 19h30, impulso do coração, um início de marcha acelerado em direcção à sala-mor que receberia, dali a menos de uma hora, A Mestra do Tempo.
- O espaço no qual o concerto decorreria foi enchendo – naquele hiato temporal todos os copos seriam servidos cheios; como quem diz, lágrimas convictas (e) em abundância, daquelas que caem quando se está feliz. Um espectáculo vigorosamente esgotado.
- Estamos, agora, sob a imensa claridade da ansiedade. Vamos em direcção aos lugares (maioritariamente) marcados e sentados – a perna que não pára de tremelicar é aliada do burburinho excitado. Palmas determinadas (e, em certo momento, ritmadas), braços ondulados em harmonia (ondas bonitas se fizeram), luzes de telemóvel eléctricas e sedentas (verdadeiros pirilampos).
- Grita-se pelo nome da artista. E o rigor com que o público vinha vestido também clamava virtude e vontade.
- 20h42 e o arco-íris musicado começa. Afinal, o ‘pote de ouro’ estava logo ali. Um quarteto de cordas entra em palco; logo após, Laufey surge – a dona do piano, da guitarra e dos nossos corações.
«Fragile» dá a nota de partida. A delicadeza de um primeiro amor. Uma Bossa Nova comprometida e suave. Segue-se «Lover Girl» – um título que fala por si, a distância que dói, o amor que constrói.
- Estamos no conforto de um lar. Os jogos luminosos motivam o acatamento que é apaziguador – um estar-se à mesa com as nossas pessoas, iluminados por velas que não acabam, a comer a melhor refeição de que há lembrança.
Laufey confessa que Portugal não estava nos planos. Digamos que… uma caixa de mensagens cheia fez a diferença. E que diferença. Descobriu-nos tenazes e bons cantores (cantar todas as músicas sem qualquer intervalo não é para todos) e sentiu-se grata por ter vindo. Afirma que voltará. “What a beautiful town, what a beautiful crowd, what a beautiful room! Safe to say I’ll be back again!” | Diz-nos, também, que a perspectiva de um concerto mais intimista surgiu com a ida a novas cidades – “I wanted to feel the room, to feel the people.”
«Silver Lining» vem a seguir. A nitidez que aparece porque se ama. «Bored», «Falling Behind», «Valentine», «Too Little, Too Late» e «Let You Break My Heart Again» – um encadeamento de músicas que falam de enfado enamorado (estar-se apaixonado tem destas coisas), de sobrecarga ensolarada (quando o sol figurativo é em demasia) e de afecto rejeitado (às vezes somos os nossos inimigos predilectos). Existem corações que se quebram, amores que se perdem, namoros que nunca chegam a acontecer – fatiga-nos, desmancha-nos, ficamos doentes e desorientados… já pensaram na possibilidade de se perder o amor da vossa vida porque é demasiado tarde?
- Laufey explica cada detalhe sonoro com a mesma sensibilidade com que uma mãe adormece um filho. É divertida, é de todas as cores, tem uma postura em palco que a diviniza.
- Uma voz que não precisa do “fundo do túnel” para se “ver a luz”. Uma voz que não precisa de amassos, de adereços ou de artifícios.
- Por entre as pessoas que assistiam ao concerto, a artista coroou uma como sendo a mais bem vestida da noite. Contou com a ajuda da mascote Mei Mei The Bunny.
Segue-se uma sequência de canções do seu álbum mais recente, “A Matter of Time“: «Snow White» (a pressão social e o instinto natural competitivo e comparado), «Forget-Me-Not», «Mr. Eclectic», «Carousel» (o medo que nos descubram por completo, sobretudo quando se está apaixonado) e «Tough Luck».
Enfim, «From the Start», «Promise» e «Goddess». Grita-se «I love you» que se mescla com aplausos de pé. É como se os nossos ouvidos estremes ganhassem a coragem de serem infinitos.
Volta para o encore, do qual fazem parte «Letter To My 13 Year Old Self» e uma canção ainda por lançar, algo que ainda não tinha cantado e tocado ao vivo (sobre o medo de, um dia, as coisas desmoronarem). | De facto, acreditar em nós e sonhar alto não estará relacionado com o estar-se no momento presente? E se mais nada houver para além disso?
- Ainda houve tempo para falar de pastéis de nata; refere novamente que está muito grata, sobretudo quando os bilhetes são caros, custam tempo e dinheiro. | Mais alto se levanta a bandeira de Portugal nas mãos de Laufey (presente que não podia faltar vindo directamente de alguém do público).
“Till the next time!”. São 22h15, termina o concerto, e nós ainda envoltos em nuances de sonho.
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