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Madrepaz | “Bonanza”

Captar este espírito vívido e explosivo de sons e experiências é uma alegria imensa, sabe bem ouvir música assim, sem barreiras, cheia de referências mas com personalidade própria, digerindo de forma exímia todos os sons ouvidos para dar forma a uma identidade única na nova música portuguesa.

No meio de uma maravilhosa tempestade sonora, os Madrepaz entregam ao mundo o seu projecto para o que virá a seguir: Ecce “Bonanza”! Não se poderá dizer que com esta banda multicolor é preciso que depois da tempestade venha necessariamente a bonança porque é no ponto de confluência de tantas paisagens musicais e criativas que reside a grande atracção. Nenhum dos membros de Madrepaz parece estar habituado a limitações à criação e a sua capacidade de adaptação às mudanças faz com que se tenham tornado num dos projectos mais diversos e apelativos da música portuguesa. Se o primeiro trabalho já representava um ar fresco a irromper por estas paisagens fora, “Bonanza” dá um passo em frente na criação de uma bolha sonora que só serve os Madrepaz, apesar de existirem algumas bandas portuguesas na actualidade que seguem trilhos parecidos.

A questão com os Madrepaz é que ouvi-los soa a loucura à solta porque ninguém no seu perfeito juízo iria misturar tantos estilos de música num só álbum. A anos-luz de ser uma crítica negativa, é antes assim saudável e inovador num panorama musical que precisa urgentemente de ser livre e em que poucos fazem projectos verdadeiramente genuínos, soltos e desprendidos, apesar da renovação vinda das novas gerações. Os Madrepaz mostram-se tal e qual como são e fazem tudo aquilo que lhes dá na gana, “Bonanza” é admirável nesse seu fundo de verdade e descontração. Continuando a passear um pouco pelas paisagens musicais próximas dos Tame Impala em vários dos seus temas, também se afastam convenientemente dessas colagens porque misturam ao prog rock fortes pitadas de folk, já para não falar da sua imagem de marca, o pop xamã, completamente à solta em temas como «Salsa Xamani», o terceiro single extraído deste trabalho. Pormenores deliciosos como a história da gravação do teledisco do single que dá tema ao álbum, “Bonanza”, fazem com que por detrás de um simples disco resida vida, vitalidade e ideias. No meio da tempestade Félix, documentaram a banda no seu natural habitat criativo, bucólico e agora tempestuoso, para dar corpo àquilo que virá depois da tempestade de se juntarem todos para um novo álbum.

Por entre temáticas relacionadas com essa vivência no campo, para onde costumam refugiar-se para compor os seus temas, algures no Ribatejo, podemos entrever o simbolismo do crescimento pessoal, como se torna mais claro em temas como «Luz de Candeia», este muito próximo do espírito country folk mas também fazendo lembrar a tradição da nossa própria sonoridade dos anos 60/70. Esse espírito está presente também no tema «Queimando Incenso», que se aventura por um belíssimo solo de slide guitar e que lhe mistura depois um belo polvilhado de saxofone, transformando-a numa espécie de clássico de smooth jazz na sua segunda metade. Se pudéssemos pensar que o registo de “Bonanza” seria linear dentro destas sonoridades, logo a seguir Madrepaz nos lançam para um dos mais dançáveis temas do álbum, «Gostava de Ver», fazendo lembrar um pouco do grande sucesso psicadélico que foi «Sopra o Vento», piscando os dois olhos à psicadelia e introduzindo-nos a uma linha de guitarra que às vezes soa a baixo, maravilhosa, distorcida, caminhando lado a lado com as etéreas teclas a lembrar idos anos 70. Este é, sem dúvida, um dos pontos mais altos de um álbum que tem nas suas onze faixas praticamente só pontos altos.

“Bonanza” é um raro exemplo de lucidez sonhada com a certeza de não ter certezas e transporta isso com orgulho e solidez. É um LP que sabe respirar vindo de uma banda que sabe ir embora quando é preciso para poder ouvir a sua voz interior como grupo criativo. Este segundo disco de Madrepaz, para além da riqueza melódica e de ter convidados de luxo para instrumentos que não têm incorporados na formação actual, traz-nos a sensação de estarmos ao mesmo tempo no presente e no futuro, sendo certo que os elementos do passado estão tão bem incorporados no ADN destes músicos que conseguem criar um novo som a partir dessas bases. Por isso, não é de estranhar que temas como «A Minha Porta é Sagrada» nos possam remeter para o universo de Zeca ou João Afonso e para influências de música popular portuguesa misturada com elementos do rock psicadélico vindo da América do Norte e bandas-sonoras dos Goblin nos filmes de Argento. Quando falamos destas sonoridades pode parecer pouco provável que surjam misturadas e soem bem e é isso que é surpreendente em Madrepaz: soa tudo muito bem e em harmonia! Se se espera caos, também não se encontrará porque nada está fora do sítio, este universo é tão natural aos elementos da banda como beber água da fonte.

Os Madrepaz conseguem ainda outra improbabilidade deliciosa que é fazer um tema instrumental baseado nas tradições da música clássica indiana, «Raga Dharma», por entre estes quase 4 minutos de música introduzir sonoridades kraftwerkianas, robotizadas, e mesmo assim nós ficamos sob a influência desta faixa como uma extensa hipnose musical. Poder-se-ia pensar que depois dela não se poderia colocar um tema de salsa pop xamânica mas acontece que se pode, os Madrepaz acabam de o legitimar com a faixa precisamente chamada «Salsa Xamani». É aí mesmo que proferem que “Não dá para agradar a todos/cada qual sua loucura” e apesar de, por esta altura, já termos suspeitado de que era esse o espírito que guiava o álbum, a banda faz questão de o coroar com este hino perfeito que se passeia alegremente pela música cubana com laivos de Camões: Roda gira, tudo muda. A última faixa de “Bonanza”, «Mil Folhas», é tudo aquilo que ninguém esperava que pudesse fechar um álbum e é um gozo danado de ouvir. É um tema de música popular portuguesa que faz lembrar os temas do Duo Ouro Negro, mesclado de laivos da música do Nordeste do Brasil, os temas dos bailes dos anos 60 e os ritmos da América Latina e possivelmente uma das melhores faixas que a música portuguesa recente nos deu a ouvir, de uma riqueza sonora e criativa que só ouvida.

Captar este espírito vívido e explosivo de sons e experiências é uma alegria imensa, sabe bem ouvir música assim, sem barreiras, cheia de referências mas com personalidade própria, digerindo de forma exímia todos os sons ouvidos para dar forma a uma identidade única na nova música portuguesa. A única coisa que se pode esperar dos Madrepaz é que não percam esta capacidade incrível de surpreender a cada faixa de um álbum sem terem manias ou pretensões a nenhum título porque é isso que faz deles os Madrepaz. Não é todos os dias que se pode respirar um LP como “Bonanza”, abençoada tempestade que lhe deu origem.



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