“Mildred Pierce” | James M. Cain

“Mildred Pierce” | James M. Cain

Cheira a clássico

Se há clássicos de índole futebolística que, de tempos a tempos, páram o país, já na Literatura há livros que deveriam ter o poder de fazer ajoelhar muito bom leitor.

James M. Cain, nascido em 1892, é hoje considerado um dos grandes mestres do policial americano. Foi repórter, serviu na Força Expedicionária Americana na Primeira Grande Guerra e deu aulas de Jornalismo, antes de tentar a sua sorte como guionista em Hollywood.  Aos 42 anos viu publicado o seu primeiro romance, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, que apesar de ter sido considerado obsceno se tornou num clássico instantâneo. Já mais tarde, em 1941, o escritor americano iria lançar um olhar contundente sobre o lado social da vida humana, criando uma personagem que se tornou eterna, celebrizada no grande ecrã por Joan Crawford (1945) e, no pequeno ecrã, por Kate Winslet, numa recente adaptação da produtora americana HBO. O seu nome? Pierce. Mildred Pierce.

Mildred Pierce” (Suma de Letras, 2013) é uma personagem capaz de provocar no leitor sentimentos extremos, que vão do desejo de a abraçar ternamente a dar-lhe um valente par de estalos. Tem um grande coração, uma força interior imensa e mantém um preconceito em relação à vadiagem, apesar de a atrair até si como um íman.

O começo do livro é desde logo um prenúncio de eternidade: uma discussão conjugal que vai ardendo em lume brando e onde, em poucos minutos, se mistura a descrição da sujidade laboral com o cenário imaculado da cozinha onde Mildred e Herbert, o seu marido, se confrontam.

Herbert é presidente da Pierce Holmes, uma empresa que cresceu aproveitando a expansão imobiliária dos anos 1920. Nove anos mais tarde, a reboque da quinta-feira negra, a empresa enfrentou a falência, já que havia trocado o depósito bancário por um investimento em acções que correu demasiado mal. Desde então, Herbert esteve como que à espera de uma nova vocação, deambulando entre o conforto familiar e os braços de uma amante que o vai distraindo do lado chato da vida.

Depois de se decidir pela separação, um pequeno escândalo para a época, Mildred junta toda a sua força e determinação para providenciar o sustento das suas duas filhas, seja vendendo bolos, trabalhando como empregada de mesa, juntando cupões ou lançando-se num negócio por conta própria. O que, para Veda – a sua filha mais velha -, representa um sinal de fraqueza e submissão social.

James M. Cain oferece-nos uma história sobre o lado negro da natureza humana, um retrato de uma sociedade cínica e dependente de convenções sociais. Mildred é uma personagem com uma tendência para se apaixonar pelos homens errados, manipulada por uma filha mimada, egoísta e desprezível. A sua história é um pouco a de toda a natureza humana: das suas fraquezas e motivações, do acreditar que o mal só se manifesta lá fora, do decidir amar por conta e risco seres que mereciam antes ser trancados atrás de uma porta, para a qual não deveria existir uma chave. Um verdadeiro clássico.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This