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NOS Alive! 2019 | Dia 1 (11.07.2019)

O dia em que os Ornatos Violeta e Robyn reinaram, cada um no seu palco.

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Podem encontar a reportagem do segundo dia aqui e do terceiro aqui.

Havia algum receio de não conseguir chegar a tempo para ver Sharon Van Etten no Palco Sagres mas felizmente os receios não se confirmaram e o acesso ao recinto foi rápido e fácil. E à hora marcada, 18h50, Sharon Van Etten subiu ao palco acompanhada da sua banda. A norte-americana de Nova Jérsia está feliz e isso não podia estar mais claro nas canções do seu novo álbum, “Remind Me Tomorrow” e a juntar a isso é recebida por uma calorosa e  boa moldura humana. O concerto gravitou quase na totalidade em torno do último álbum, sendo as incursões pelos registos anteriores pontuais mas extremamente apreciadas, em especial na última canção, «Serpents», do já longínquo “Tramp”. Mas voltemos ao início ao som de «Jupiter 4» e «Comeback Kid», extremamente dançável, seguidos por «No One’s Easy to Love» e «One Day», todos do mais recente álbum. «Tarifa» leva-nos pela primeira vez para além de “Remind Me Tomorrow”. A voz de Sharon Van Etten também cresceu, em alcance e em intensidade. Isso aliado a uma natural simpatia, resultou num magnífico concerto, perfeito para um final de tarde bem quente no Passeio Marítimo de Algés. Já a entrar na recta final houve ainda tempo para escutar a magnífica «Seventeen» e como que em contra-ciclo, «Everytime the Sun Comes Up». Um regresso a solo é mais do que necessário.

Foi necessário acelerar o passo para apanhar a parte final do concerto dos Weezer, que já tocavam no Palco NOS. Mesmo a tempo para escutar o mui badalado cover de «Africa» dos Toto, «Island in the Sun», «Say It Ain’t So» (confesso que só me vinha à cabeça um cover velhinho desta canção que os Deftones gravaram)  e “Buddy Holly”. Caso para dizer Happy Days! Uma estreia positiva mas que teria resultado muito melhor num meio mais pequeno e acolhedor como o do Palco Sagres. O culto aos Weezer por cá também é real, mas não tem a dimensão que tem noutros países.

Os Ornatos Violeta significam muito para muita gente. Há toda uma geração que associa alguma destas canções a um momento específico das suas vidas. Há bandas assim. Este parágrafo vai ser um desafio e por isso msmo, certamente longo. O mais fácil seria encher uma ou duas páginas a falar do que aconteceu ali, em Algés, mesmo às portas de Lisboa. Começaram com uma versão (fiel) de «Circo de Feras» dos Xutos. Deu coro. Logo de seguido, com Manel Cruz a fazer as vezes do robot, lançam-se, sem apelo nem agravo a «Tanque». Canção que abre o álbum que serve de pretexto a esta digressão. Seguiram-se «Para de Olhar Para Mim» e «Para Nunca Mais Mentir», cantadas em uníssono e com entrega máxima. Depois cantou-se, chorou-se, abraçou-se, saltou-se e sorriu-se: “Ouvi dizer que o nosso amor acabou / Pois eu não tive a noção do seu fim / Pelo que eu já tentei, eu não vou vê-lo em mim / Se eu não tive a noção de ver nascer o homem”. Há canções enormes. Esta é uma delas. Depois visitou-se o álbum de inéditos e raridades de 2011, com «Há-de Encarnar». É um hino atrás de outro. «Coisas» e «Notícias do Fundo». “Meu desejo / É morrer na paz do teu beijo / Sem futuro / É lutar por um beijo mais puro”, em jeito introspectivo e com os olhos fechados. Sabe tão bem assistir a um concerto com aquele arrepio na espinha que se mantém do princípio ao fim. «Deixa Morrer», da autoria de Peixe, é apresentada por Manel Cruz como uma das canções mais bonitas dos Ornatos. E quando entoamos aquelas palavras não é difícil perceber porquê: “E aparece assim / Acendeu-se a luz / Estão vivos outra vez / Se é tão bom de ouvir / Vivo para ti / Até o nosso amor morrer”. A comunhão continuou com «Chaga» e «Dia Mau», que foi cantada em conjunto numa enorme euforia. Já perto do fim, houve «Capitão Romance», sem Gordon Gano, é certo, mas igualmente bela. Antes Manel agradeceu porque estas coisas (boas) “não acontecem muitas vezes”. Para encore (para cumprir aquelas formalidades), o encore ficou o «Fim da Canção». <3

Seguiram-se os Mogwai, talvez algo incompreendidos e fora de sítio naquele palco mas irrepreensíveis como sempre e com uma qualidade sonora incrível; no meio da distorção conseguir discernir todos os sons não é para qualquer um. A carreira mais recente do colectivo escocês, tem-nos colocado muito pelas bandas sonoras (onde se têm revelado exímios), mas o alinhamento que trouxeram ao Passeio Marítimo de Algés visitou os seus álbuns de estúdio, de uma forma realmente bem distribuída. «I’m Jim Morrison, I’m Dead» no início, passando por  «Auto Rock» no meio, com aquele crescendo incrível ao longo da canção e, já quase no fim, a intensa «Remurdered», para fechar com a fantástica «Mogwai Fear Satan» do já longínquo “Young Team”, de 1997.

Entretanto Loyle Carner já actuava no Palco Sagres, com uma enorme falange de apoio, altamente comunicativo com a plateia. O momento alto terá sido mesmo o dueto com Jorja Smith, que actuara naquele mesmo palco anteriormente. Uma coisa que começou a ficar clara logo neste primeiro dia de festival, e se veio a comprovar nos seguintes, é que a programação diversificada do Palco Sagres deixou transparecer de uma forma muito peculiar o ecletismo do público que frequenta o festival. Já Loyle Carne ficou, naturalmente fã, de Portugal, Lisboa e arredores e da arte de bem receber.

Podia ter-se optado por ver The Cure mais uma vez, mas em vez disso a opção recaiu pela sueca, com 40 anos acabadinhos de fazer mas com uma energia de fazer inveja a muitos. Robyn é um nome incontornável do pop a nível mundial e se é verdade que por cá não temos o “hábito” (digamos assim) de receber este circuito, não é com certeza por falta de público pronto para isso, de braços abertos e com uma vontade ávida para dançar até cair para o lado se for preciso. O espectáculo não tem falhas; a dinâmica é incrível, ao ponto de Robyn sair de palco para trocar o “outfit” mas nós nem ligamos muito a isso porque o bailarino assume deliberadamente o protagonismo nesse momento. Em palco Robyn não faz nada ao acaso. Todos os gestos estão pensados. É uma entertainer. É uma provocadora. Tudo ponderado até ao mais ínfimo pormenor. A dado momento damos por nós a pensar que a prestação que estamos ali a assistir ao vivo, envergonharia muitos DJs, com o Palco Sagres a tornar-se numa monumental pista de dança. Num alinhamento que visitou a carreira de Robyn mas que se centrou maioritariamente no mais recente “Honey”, destacaram-se o homónimo «Honey», «Ever Again», «Between the Lines», «Dancing on my own», «Missing U», «Call your girlfriend» e, já a fechar «With every heartbeat». Todas cantadas e dançadas e celebradas como se não houvesse amanhã. E nunca se sabe… Concerto incrível.

 

Texto por Miguel Barba e reportagem fotográfica por José Eduardo Real.

Podem encontar a reportagem do segundo dia aqui e do terceiro aqui.



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