“O Circo Invisível” | Jeniffer Egan

“O Circo Invisível” | Jeniffer Egan

O tempo nunca pára, somente parece fazê-lo

Os anos (19)70 têm dado pano para mangas, seja pelo debate ideológico ou, como nos interessa aqui falar, ao nível da sua apropriação e recriação por parte das artes, entre elas a Literatura.

Se o lado mais psicadélico e colorido tem sido o mais explorado, revelado em monumentos como “Fear and loathing in Las Vegas”, de Hunther Thompson, outros há que preferem explorar o seu lado mais nostálgico onde, ao festim de LSD e rodadas de álcool se segue, normalmente, uma ressaca embebida em perda e nostalgia.

O Circo Invisível” (Quetzal Editores, 2014), da autoria de Jennifer Egan, é um desses livros habitados pela melancolia, num encantamento que nos chega – e à personagem principal – de forma tardia através de uma trágica herança.

Phoebe vive obcecada com a memória da irmã Faith, uma idealista hippie morta em Itália em 1970, encontrada com vestígios de anfetaminas e LSD no sangue «mas não o suficiente para que ela estivesse sob os seus efeitos naquela altura.»

Enquanto que o irmão conseguiu ultrapassar de certa forma esse instante trágico, gerando uma fortuna a partir dos 5000 dólares deixados pelo pai em testamento, Phoebe permaneceu em casa da mãe, fazendo desta um escudo humano e ocupando o quarto da irmã, agindo como a sombra de um ídolo caído: «Phoebe crescera rodeada de esboços de Faith.»

A obsessão é tal que, para tentar descobrir a verdade sobre a vida e a morte da irmã, Phoebe decide recriar passo a passo a viagem que antecedeu a tragédia, partindo de São Francisco pela calada para atravessar a velha Europa em busca de respostas.

Atravessado pelo drama político e, sobretudo, pelas tensões familiares, “O Circo Invisível” revela-se como uma viagem iniciática que abre as portas à idade adulta, servindo ao mesmo tempo como uma elegia a uma geração que se perdeu pelo caminho, entre o desejo de revolução, o amor livre e a inconsequência de viver o dia como se não houvesse amanhã. «O tempo nunca pára, somente parece fazê-lo». Uma grande verdade.

Primeiro livro de Jennifer Egan, “O Circo Invisível” lançou as sementes que conduziram a “A Visita do Brutamontes” – também com edição pela Quetzal -, livro galardoado com o Prémio Pulitzer.



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