“O gato comeu-te a língua?” | Joana Rombert

“O gato comeu-te a língua?” | Joana Rombert

O animal que mais línguas tem comido às crianças ao longo dos tempos, desmistificado e simplificado para pais e educadores

Antoine de Saint-Exupéry, esse tão conhecido e sábio escritor da famosa obra “O Principezinho”, deixou-nos uma breve mas marcante herança literária e uma mão cheia de pensamentos que nos fizeram abrir os olhos e começar a olhar para as crianças de maneira completamente diferente.

Entre essas ideias, há uma que parece encaixar na perfeição quando mencionamos o tema do desenvolvimento da fala, da linguagem, da leitura e da escrita infantil: as crianças têm de ter muita paciência com os adultos. Sim, é verdade. As crianças é que têm de ser pacientes, pois, muitas vezes, esses mesmos adultos parecem esquecidos que também já passaram por essa fase e que, na altura, não tiveram pressa nenhuma de crescer.

Este homem e Joana Rombert têm, pelo menos, uma coisa em comum: ambos percebem imensamente de crianças. Antoine de Saint-Exupéry sabia descrevê-las e desenhá-las enquanto personagens maravilhosas, ingénuas e cheias de significado; Joana Rombert é capaz de as conhecer, desmistificar, ajudar a compreender e, acima de tudo, apresentar soluções e dar conselhos quando a compreensão dos adultos parece ter atingido o limite.

Só que no que toca a crianças e à maneira como elas se relacionam com o mundo através dos sentidos, Joana tem uma vantagem clara: é terapeuta da fala e passa o seu dia no hospital e, em consultas, a responder às ansiedades dos pais, tantas vezes com dificuldade em compreender e aceitar as diferenças dos filhos.

Das várias estratégias, técnicas, jogos e conselhos que Joana Rombert deixa no seu livro “O gato comeu-te a língua?” (Esfera dos Livros, 2013), um dos mais importantes é, certamente, também dos mais difíceis de pôr em prática: ter paciência e incentivar sempre as crianças a comunicar, mostrando interesse mais pelo que elas dizem do que como que elas fazem. O que no final acaba por marcar a diferença é que, para além de serem umas verdadeiras esponjas a absorver conhecimento, precisam muito de se sentir ajudadas e ver o seu valor reconhecido pela família.

Nada do que Joana propõe é fácil, até porque estes conselhos e ajudas são aplicados a problemas sensíveis como a dislexia, deficiências auditivas, gaguez e até mesmo a dificuldade em aprender a ler e escrever. Mas, como Joana é uma clínica das crianças, não se esquece nunca que elas aprendem tanto ou mais a brincar do que sentadas na escola com um professor. Entre treinos práticos que podem ser feitos em casa com os pais, há jogos tão simples para cada situação que elas nem vão perceber que estão a aprender a lidar com aquilo que as torna, de alguma maneira, diferentes.

Como estamos a tentar lutar contra um gato que tantas línguas pequeninas tem comido ao longo dos tempos, este é um livro interessante e extremamente prático que fala claramente para gente que não percebe nada do assunto e que pode estar assustada com o que tem entre mãos. Com a mesma calma com que se dirige a uma criança, Joana fala com os adultos e educa-os discretamente a identificar e a saber lidar com os sinais de alerta, sempre com estratégias próprias para cada caso para que não escape nada.

Acima de tudo, ensina-nos a nós, adultos, que não é preciso ter medo das diferenças: num mundo onde a comunicação é cada vez mais importante, é preciso ficarmos atentos aos pormenores que nos diferenciam dos outros e de que maneira. Porque o problema não é a diferença, mas sim os olhos com que a vemos. E como os olhos de uma criança não são os mesmos de um adulto, elas têm de seguir à risca o conselho do senhor Exupéry e ter paciência com os pais e os professores. Porque, lutando contra as suas dificuldades, elas vão acabar por chegar ao infinito e mais além.



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