Óscares 2016 – Nomeados e Previsões

Óscares 2016

Já são conhecidos os nomeados para a edição 2016. Conheçam as nossas apostas.

Num ano em que a crise ainda foi imperatriz global e os problemas raciais uma constante em terras do Tio Sam, ironicamente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas encontrou o enredo para nova noite de Óscares em histórias reais ou “baseadas em factos reais”, de redenção e superação, talvez pensando no fracasso da cerimónia anterior.

Os argumentos cinematográficos envolvendo vidas e eventos ligados à luta por direitos sexuais estão decididamente na moda, mas a eterna batalha dos negros americanos contra a brutalidade policial e a descriminação a que ainda estão sujeitos foi ignorada, assim como os próprios negros, completamente arredados das nomeações e da celebração marcada para 28 de Fevereiro. (Uma mudança de cada vez, para não assustar ninguém.)

O óbice de toda esta nova vaga do cinema americano é a clara ausência de um pulsar que lhe insufle vida para além do miserabilismo e do fait-divers mal gerido, a que se junta, para nossa desgraça, a clássica lágrima vazia de conteúdo, induzida pelos truques habituais, como um filtro de cor certeiro ou uma banda sonora pungente.

O pior deste status quo é a subjacente e inabalável fé, por parte dos grandes estúdios e produtoras norte-americanas, de que a afirmação repetida de qualidade, mesmo que falsa e fartamente financiada, para além de premiar estes exercícios de puro estilo e manipulação, granjeia algum tipo de reputação de requinte e bom gosto, e com isso popularidade.

Infelizmente, esta fórmula continua a resultar para a cansada e envelhecida Academia. No entanto, como confirmam as audiências da cerimónia anterior e as vendas de bilhetes de cinema a nível mundial, para o resto do Mundo pouco mais vale do que um excelente desbloqueador de conversa para a semana seguinte ou uma distraída descarga da internet perante o tédio dominical. Mas lá chegaremos.

Os Melhores Filmes do Ano

Apesar de alguma incerteza habilmente gerida pela imprensa americana, os nomeados foram os esperados, com algumas surpresas, como Bryan Cranston por Trumbo, ou Stallone por Creed.

Um fenómeno surpreendente e um verdadeiro cavalo de Tróia feito à medida da Academia para 2015, foi Mad Max, Fury Road (“Mad Max: Estrada da Fúria”). Êxito de crítica e público, com duas estrelas planetárias no elenco e um realizador experiente a dirigir os trabalhos, apesar de ser um filme de acção pura, consegue o feito inédito de ser nomeado para o prémio principal dos Óscares, superando a praga de filmes e infinitas sequelas da Marvel e DC Comics que o antecederam.

Um argumento sólido e simples, com uma heroína como protagonista, visualmente magnífico, uma montagem soberba, mas mantendo um equilíbrio constante entre acção, espectáculo e contenção, algo invulgar para este género. É um dos filmes do ano, sem qualquer dúvida, embora seja duvidoso que conquiste a estatueta mais cobiçada.

Como sempre, os filmes dramáticos abundam e a ideia de ter novamente 8 filmes a concurso para Melhor Filme do Ano induz o espectador em erro, dada a qualidade dispar dos nomeados e o espanto perante alguns dos excluídos.

Room (“Quarto”), adaptação de um afamado livro de Emma Donoghue, resulta num telefilme cinzento e dispensável, sem chama nem actuações memoráveis. A gestão das tensões dramáticas é aborrecida e previsível, o argumento óbvio e interminável. Não consta nem entre os vinte melhores do ano…

Bridge of Spies(“A Ponte de Espiões”), o regresso da famosa dupla Spielberg/Hanks, os irmãos Dupont de Hollywood, insiste na fórmula do filme-político-mas-que-também-tem-sentimentos-e-por-acaso-fala-dos-serviços-secretos-americanos-que-afinal-até-fizeram-o-bem-apesar-do-11-de-Setembro, que anualmente tem feito parte dos nomeados.

Spielberg abandonou definitivamente o seu passado de realizador para as massas, inovador e surpreendente, assumindo a sua já provecta idade para reflectir sobre as distâncias que ainda nos separam em tempos globalizados, recorrendo a factos passados relativamente públicos.

A alegoria é por demais conhecida, mas aqui, a juntar ao argumento dos manos Cohen, à eficiência do seu cinema e ao brilho que a estrela Hanks confere a tudo o que toca (mesmo para quem não espreite nem um segundo da película e tenha já algum asco aos tiques de representação que repete à exaustão), temos uma sólida actuação do britânico Mark Rylance.

Se tiverem oportunidade, espreitem o Cromwell que desempenha na perfeição na excelente série Wolf Hall.

The Big Short (por cá, “A Queda de Wall Street”) é uma verdadeira parada de estrelas. Brad Pitt, Steve Carrell, Christian Bale, Ryan Gosling. Bastaria o primeiro nome para a atenção mediática ser garantida mas, com todo o conjunto, as nomeações eram praticamente obrigatórias, independentemente da qualidade do filme.

Adaptado de um livro de Michael Lewis, acerca da “bolha” especulativa do imobiliário e do crédito na origem da crise global que ainda hoje sentimos, foca-se na perspectiva dos “Big Short” (os pequenos investidores de Wall Street, que conseguiram antecipar a derrapagem histórica da bolsa americana) para construir algo como “a crise para totós”, juntando à “prequela” da história que já todos conhecem a explicação de alguns conceitos, com a condescendência benevolente que só a sátira e metaficção permitem, num retrato coeso da realidade fragmentada e por vezes críptica do quotidiano da alta finança, onde práticas reiteradas rapidamente se tornam lei, desde que multipliquem pelo máximo denominador comum o que ainda faz o Mundo rodar.

Apesar de demasiado longo, temos como recompensa o camaleónico Christian Bale, o actor do “método” que nunca falha, com um dos desempenhos do ano (mais um), transformado no excêntrico Michael Burry, o primeiro a ver o que mais ninguém foi capaz de detectar. A ironia cómica: tem um olho de vidro.

Brooklyn (nova adaptação de um romance, desta feita do premiado Colm Tóibín) funciona como uma homenagem à segunda geração de irlandeses que se estabeleceram nos EUA, onde Brooklyn foi durante muito tempo a sua casa. Uma história de amor e de família, que se mistura com a saudade de casa e do futuro que tarda em chegar. É um filme competente, mas aquém do que poderia veícular, ficando-se pelos clichés de filmes similares e adocicando demasiado as dificuldades de integração dos estrangeiros nos EUA entre as duas guerras mundiais. As cenas em Ellis Island são paradigmáticas deste romancear da História.

Por falar em irlandeses, Spotlight (“O Caso Spotlight”) remete-nos para a Boston suburbana do início do séc. XXI, onde uma verdadeira “omertà”ocultou, por largos anos, dezenas de casos de abuso sexual de menores por parte de padres católicos, com o conhecimento da população, da Igreja e do próprio poder local.

O jornal Boston Globe expôs o caso nacional e mundialmente e é a sua perspectiva que surge aqui retratada, num filme interessante mas com poucos motivos de relevo, para além do elenco e da direcção de actores. O nomeado Mark Ruffalo não surge como potencial vencedor na categoria de Melhor Actor Secundário.

E se Cast Away (“O Náufrago”, 2000) fosse um filme de ficção científica passado em Marte e realizado por Ridley Scott, em que a NASA usaria todo o dinheiro que tinha para resgatar um astronauta dado como morto (Matt Damon)? Tinhamos The Martian (“Perdido em Marte”) e evitávamos que alguém nos tentasse convencer que Tom Hanks foi inesquecível naquela cena com a bola.

Scott presenteia-nos com a qualidade que lhe é reconhecida, numa bela (embora inverosímil) história de sobrevivência e superação, com Matt Damon a conseguir fazer esquecer as suas escolhas cinematográficas mais recentes. Uma bela experiência cinematográfica.

“Last but not the least” temos aquele que é já um dos filmes do ano, superando Mad Max. The Revenant (“O Renascido”) é um triunfo e não restou alternativa à Academia senão render-se às evidências e nomeá-lo para 12 categorias.

Criado para ser uma verdadeira experiência imersiva, do primeiro ao último segundo, The Revenant consegue-o com um sucesso invejável e recorda-nos porque gostamos tanto de cinema.

Depois de surpreender com o fantástico Birdman em 2014, Alejandro Gonzalez Iñárritu deslumbra-nos com um enredo de inspiração histórica e baseado num livro de Michael Punke, em que Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um pioneiro/caçador/vendedor de peles, é abandonado como morto pelo grupo que acompanha, mas luta pela sobrevivência, para tentar saldar uma dívida de honra e vingança.

O trabalho de edição, fotografia e montagem roça o surreal, com planos aparentemente impossíveis e cenários deslumbrantes, captados in loco com a mestria do génio Emmanuel Lubezki.

O Óscar de Melhor Actor do ano vai para… Leonardo DiCaprio. Actuação perfeita do americano, eterno candidato e injusto derrotado na noite das estatuetas douradas. Tom Hardy é um soberbo actor secundário, como o empedernido e traiçoeiro John Fitzgerald e o Óscar ficaria bem entregue nas suas mãos, embora seja esta a categoria com maiores incertezas quanto ao premiado.

Ryuichi Sakamoto e Alva Noto trazem uma ambiência sonora mística e completamente entrosada com a acção, passando quase despercebida como mais um elemento potenciador num filme de fôlego como este. Um dos muitos esquecidos das nomeações.

Os Esquecidos e  os injustiçados

Quentin Tarantino fora dos Óscares principais? Inacreditável, porém verdade.

The Hateful Eight (“Os Oito Odiados”) esteve perto do cancelamento, quando o seu argumento foi tornado público antes do tempo. Revoltado, traído, com todo o dramatismo que o caracteriza, Tarantino anunciou o fim do projecto. Inesperadamente, pouco tempo depois, começaram as leituras públicas do texto com todo o elenco e o público aderiu à iniciativa. O filme ia finalmente ser realizado e anunciava-se o regresso de Tarantino para a oitava parte de uma obra singular.

Como habitualmente, The Hateful Eight é um pastiche de referências culturais e cinematográficas, elevadas ao nível de divertimento e sofisticação a que Tarantino nos habituou. Desta feita, a influência de Agatha Christie é clara, principalmente a sua peça “Mousetrap”, a mais representada de sempre, ainda hoje em cena, com mais de 25 mil apresentações desde 1952.

As coincidências são numerosas e inequívocas: o número de personagens, o facto de partilharem o mesmo espaço durante dias devido a uma tempestade, a existência de um crime com vários suspeitos. O toque de originalidade chega com a fusão do enredo policial com o western, a que Tarantino acrescenta as suas personagens memoráveis, com as melhores falas do cinema do século XXI, num jogo de xadrez em que a jogada seguinte nem sempre é a mais óbvia.

Samuel L. Jackson é outro injusto esquecido das nomeações, com o papel de Major Marquis Warren, veterano da Guerra da Secessão e temido caçador de prémios, cujas intenções e carácter se mantêm misteriosas, constituindo-se como a consciência do grupo durante o filme.

Os negros são geralmente esquecidos da História desta época conturbada dos EUA, mas foram de grande importância para a vitória do Norte, sendo na sua maioria fugitivos do Sul em busca de liberdade, apesar de, durante grande parte da guerra, terem um ordenado inferior e serem relegados para tarefas menos dignas, como limpeza e manutenção de equipamentos.

A Academia, mais uma vez, esqueceu o que a rodeia e escolheu ignorar uma escolha óbvia.

A recente polémica que Tarantino criou, junto dos sindicatos de polícia norte americano, pela sua presença em manifestações do movimento “Black Lives Matter”, com ameaças de boicote generalizado ao filme por parte dos afiliados, veio tornar ainda mais clara esta referência, já presente noutros clássicos instantâneos como Django Unchained.

A cartada de classe chega com o histórico Ennio Morricone, um dos melhores compositores de todos os tempos (Tarantino dixit, num discurso embargado pela…emoção, quando recebeu o Globo de Ouro em seu nome), que traz uma sonoridade inconfundível e o peso de uma carreira ímpar a um filme que se preza do respeito que demonstra pelos clássicos. É um Óscar mais do que garantido, por esta e por todas as outras bandas sonoras com que nos presenteou ao longo da vida, que são, hoje e nos anos vindouros, património da Humanidade.

Jennifer Jason Leigh interpreta Daisy Domergue, criminosa capturada pelo temível e deveras néscio John “Hangman” Ruth (um excelente Kurt Russell), famoso por nunca matar os seus “prémios” e entregá-los vivos às autoridades, apenas para assistir ao seu enforcamento. Daisy é maltratada durante todo o filme, mas o seu sorriso maléfico e enigmático e as constantes tiradas certeiras, cedo fazem antever que pouco terá de ingénua. Uma nomeação completamente justificada para um dos melhores papéis da sua já longa carreira.

A opção por câmaras que filmaram clássicos como Ben-Hur, surte um magnífico efeito na imagem do filme, com fotografia, iluminação e montagem que dão à obra uma qualidade superior.

Só nos EUA, em 2015, é possível um filme, um realizador e um argumento deste calibre, serem excluídos da lista de nomeados.

Ridley Scott, realizador de reconhecido talento e qualidade, também não chegou à nomeação de melhor realizador por The Martian, sendo superado por realizadores e filmes menores como Lenny Abrahamson e o seu tépido Room.

O desejo de novidade e renovação (e muito provavelmente, uma boa campanha promocional) não deviam fazer a diferença na análise da qualidade do trabalho cinematográfico, mas as nomeações deste ano apenas confirmam que os critérios de escolha de candidatos e vencedores se mantêm uma incógnita para quem está mais distante da galáxia hollywodiana.

Michael Cane, Rachel Weisz e Jane Fonda, actores do excelente Youth (“A Juventude”) de Paolo Sorrentino, são o trio de esquecidos deste ano. Rachel Weisz teve dois excelentes papéis em 2015: Lena Ballinger em Youth e a sua personagem em The Lobster, um daqueles filmes extraterrestres que persiste na memória bem depois dos créditos finais, realizado pelo grego Yorgos Lanthimos (o mesmo de Dogtooth, 2009). Qualquer um deles era merecedor de um reconhecimento, pela consistência e entrega das suas actuações.

Michael Cane surge em Youth como protagonista, pela primeira vez em décadas, encarnando Fred Ballinger, maestro reformado que se isola numa estância de luxo nos Alpes, onde as suas memórias o perseguem e se cruzam com o presente, entre personagens singulares na sua excentricidade. Uma delas, com apenas uma cena, quase rouba o filme para si.

Jane Fonda é Brenda Morel, pessoa que se tornou nas suas personagens e vice-versa, musa do realizador Mick Boyle (Harvey Keitel), que fez a sua carreira sempre contando com o talento dela, até que chega a hora do adeus. O reconhecimento por esta representação pungente, teria numa nomeação a homenagem justa a uma das grandes actrizes americanas.

Idris Elba, comandante sanguinário em Beasts of No Nation, o primeiro filme produzido pela Netflix, tem uma das actuações do ano num drama que, infelizmente, ainda retrata a realidade de muitas crianças e famílias destroçadas nos confins de África, onde as câmaras e a internet não chegarão tão cedo.

Sobram muitos outros exemplos (a lindíssima Alicia Vikander em Ex-Machina, o miúdo Jakob Tremblay em Room ou um fantástico John Depp no sombrio Black Mass) e a lista seria interminável, mas porque necessariamente subjectiva, deixemo-la por aqui e passemos às apostas para dia 28 de Fevereiro, nas categorias principais.


Apostas

Melhor Filme: Embora Spotlight tenha vindo a ganhar alguns prémios, que indiciam uma liderança, não parece ter o perfil que arrecade a estatueta. The Revenant tem como senão o facto de Iñárritu ter ganho com Birdman há um ano, mas nova vitória daria excelentes parangonas para o dia seguinte. É uma aposta segura.

Melhor Realizador: Alejandro G. Inãárritu (The Revenant), pelas anteriores razões, embora aqui com fortíssima concorrência do experiente George Miller (Mad Max). É muito provável que triunfe o australiano pelo filme notável que realizou.

Melhor Actor: Leonardo DiCaprio (The Revenant). A justiça tarda, mas não falha.

Melhor Actriz: Brie Larson (Room) tem um Globo de Ouro e boa imprensa. Cate Blanchett (Carol) é a nova Meryl Streep, quanto a nomeações, prémios e prestígio. Se a escolha fosse minha, ganhava Cate Blanchett, mas a Academia desespera por sangue novo, por isso a estatueta vai para a lareira de Brie Larsson.

Melhor Actor Secundário: Tom Hardy consegue a sua primeira nomeação, mas este ano é de Sylvester Stallone. Também eu estou incrédulo com a frase anterior, mas é mesmo.

Melhor Actriz Secundária: Kate Winslet (Steve Jobs) vem embalada com nomeações e prémios anteriores, mas Jennifer Jason Leigh (The Hateful Eight) tem um desempenho memorável e ganha o Óscar.

Melhor Cinematografia: Depois de Gravity e Birdman,  Emmanuel Lubeski (The Revenant) ganha pela 3ª vez consecutiva. É um trabalho espantoso e inovador a todos os níveis.

Melhor Banda Sonora: Pode e deve ser o ano de consagração de Ennio Morricone (Hateful Eight). Mas Carter Burwell (Carol), nomeado pela primeira vez é um sério rival.

Melhor Argumento Original: com a inexplicável ausência de Tarantino, poderá ser desta que um Óscar “sério” é atribuido a um filme de animação como Inside Out (Divertidamente). Mas atendendo aos prémios já atribuídos esta temporada, os vencedores serão Tom McCarthy e Josh Singer (Spotlight – O Caso Spotlight).

Melhor Argumento Adaptado: Adam McKay and Charles Randolph (The Big Short ou A Queda de Wall Street). Escrita perfeita, carregada de ironia e sensibilidade, referências culturais e piscadelas de olho ao espectador. Muito bom.

 

Divirtam-se e vejam bom cinema.



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