“Ouro” de Thomas Arslan

“Ouro”

Os caminhos tortuosos do oeste selvagem

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Um rio, um barco, quatro pessoas. Numa luta contra a suave corrente os “passageiros” sentem a natureza que pode ser sinónimo de busca, incerteza e, por vezes fortuna. Remexendo e coando as águas estes garimpeiros encontram ouro. Dois pedaços do precioso metal que podem mudar a sorte e a vida.

É com estas imagens, conceitos e ideias que o cineasta alemão Thomas Arslan preenche a tela nos primeiros instantes de “Ouro”, a mais recente aventura em forma de filme do realizador de obras como “Dealer”e “In the Shadows” e que terá honras de participação no próximo Festival de Cinema de Berlim.

A ideia para este filme surgiu depois de Arslan vasculhar documentos que retratam a louca corrida ao ouro que teve lugar no final do século XIX e que levou milhares de garimpeiros ou aspirantes a tal a percorrerem milhares de quilómetros em busca de um suposto “El Dourado” que se encontrava em Klondike, Yukon, noroeste do Canadá.

Levados pelo desespero, ganância e outros sentimentos limite, milhares de pessoas enfrentaram o desconhecido e foram arrebatados e consequentemente derrotados pela imensidão de uma paisagem dura, fria e, acima de tudo, selvagem.

É envoltos dessa incerteza mas protegidos por uma esperança resgatada no fundo dos seus âmagos que um grupo de sete emigrantes alemães decide fazer aquela que seria a sua maior aventura de vida e, quem sabe, a derradeira tentativa de conseguir um futuro risonho do Novo Mundo. Assim, em 1895, encabeçados pelo trapaceiro Wilhelm Laser (Peter Kurth), Emily Meyer (Nina Hoss), o jornalista Gustav Muller (Uwe Bohm), o paternalista tocador de banjo Joseph Rossman (Lars Rudolph), os cozinheiros Otto e Maria Dietz (Wolfgang Packhauser e Rosa Enskat) e o bagageiro Carl Bohmer (Marko Mandic) partem rumo a Klondike.

Aquilo que segundo Laser seria uma viagem de “recreio” durante seis semanas revelar-se-ia numa difícil prova que tinha na natureza envolvente um misto de beleza e castigo. Com o passar dos dias, as mentiras e escolhas do organizador do trajeto e a falência psicológica do restante grupo faria, faseadamente, vítimas entre os membros do grupo.

A par da magnífica fotografia, “Ouro” tem na banda sonora uma forma de dar mais intensidade e mostrar o caminho que cada cena quer levar e intuir, sendo os acordes planantes da guitarra de Dylan Carlson (membro da banda “Earth”) o “diálogo” presente mais forte pois aos seus personagens Arslan apenas faz com que os discursos sejam, na sua maioria, circunstanciais. A atmosfera árida que assombra o grupo de aventureiros exibe-se mais expressiva que o semblante dos atores cujas tonalidades faciais “apenas” servem para compor a natureza que os engole.

A personagem interpretada por Nina Hoss é o sinónimo mais flagrante dessa intenção estética e é a falta de paixão e distanciamento de Emily que paradoxalmente aproxima o espetador da tela. Por sua vez, a câmara de Arslan desenvolve um puro exercício de fragilização dos personagens face à já referida grandiosidade opressiva da natureza envolvente e marca o ritmo a seu bel-prazer utilizando, por exemplo, o fade como arma para terminar “capítulos” ou girar a estória noutra direção.

A exploração do género western – afastado da noção americana do mesmo e seguindo a filosofia de Kelly Reichard em “O Atalho” pelo autor de “In the Shadows” assume em “Gold” a forma de um “road movie” muitas vezes a tocar na esfera do documentário. Os parcos momentos de ação, principalmente concentrados nos momentos finais da trama, resultam de um singelo somatório de acontecimentos do passado apenas revelados face à solidão que assombra alguns personagens em particular.

À medida que a acção se desenrola o grupo desfaz-se, os rostos tornam-se austeros e zangados, as roupas sujas. Cada indivíduo luta contra a própria vontade e os sentimentos mesquinhos anunciam o desespero. A expiação da alma pode conduzir à culpa e os fantasmas interiores podem superar com distinção a fragilidade de cada um.

No fundo, “Gold” resulta de uma visão pessimista de alguém que procura um qualquer sonho e vê o mesmo ser colocado em causa por algo tão itinerante como o espaço e o isolamento que própria natureza representa, estejamos a falar de uma corrida ao ouro no século XIX ou outra demanda fixada no calendário da memória.

Longe de moralismos bacocos e falsos sentimentalismos Thomas Arslan mostra um filme que traduz de forma “fria” e directa e muito competente as dificuldades que um “sonho” pode representar assim como é inesperado o labirinto que significa a busca da felicidade. Aqui a racionalidade suplanta o sentimento mais apaixonado e a conquista de muitos pode ser tentada de forma individual pois a (inter)acção humana adapta-se às condições vigentes.



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