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“Peregrino” de Terry Hayes

A violência flutua

Existem livros especiais que nos absorvem, consomem, exasperam. A ansiedade que a narrativa provoca, tal a sua complexidade, transforma o simples ato de folhear numa expetactiva crescente. E isso acontece com “Peregrino” (Topseller, 2015), vencedor do National Book Award no Reino Unido, obra de estreia do inglês Terry Hayes, antigo jornalista que se tem distinguido enquanto argumentista e produtor nos campos da sétima arte através de alguns filmes da saga Mad Max, bem como em telefilmes e miniséries cujo reconhecimento da crítica lhe valeu mais de duas dezenas de prémios.

Mas como falar da trama idealizada por Hayes sem revelar demasiado? Bom, imaginemos um thriller condimentado com generosas doses de espionagem, cujas primeiras páginas remetem para uma cena de crime grotesca onde uma jovem mulher é brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan. Mas mais peças se juntam a este intrincado quebra-cabeças: um filho assiste à decapitação do pai na Arábia Saudita; os olhos de um homem são roubados do seu corpo ainda vivo; restos humanos ardem em fogo lento numa qualquer montanha de uma cordilheira no Afeganistão.

Ao todo, são 656 páginas de uma alucinante e intensa espiral de acontecimentos que levam o leitor até a um universo que entrelaça momentos dignos de um filme de ação que James Bond não desdenharia participar, com episódios elevados ao extremo do pormenor e que tem como base para o seu credível entendimento um homem que se perde num labirinto de identidades e aventuras e é conhecido como Peregrino.

Como que uma bússola de orientação múltipla, “Peregrino” alimenta-se de uma série de desventuras dentro da própria estória-mãe e vai desaguar numa missão de vida com um objetivo definido: impedir que Sarraceno, um bioterrorista islâmico, consiga transformar o ocidente no início de um Armagedão global.

Numa corrida contra o tempo, e com intermináveis reviravoltas e viagens pelo globo, Peregrino e Sarraceno jogam uma espécie de partida do “gato” e do “rato”. E ainda que em lados diferentes da barricada, existem alguns pontos de contacto entre herói e vilão: ambos são determinados, implacáveis, astutos e têm no secretismo de quem os apoia uma das maiores armas. Contornar becos sem saída, falsas pistas, sacrifícios e traições, são situações vividas capítulo a capítulo, página a página, e apenas são superadas por elevadas doses de coragem.

Estamos perante uma verdadeira peregrinação, uma coleção de viagens e demandas. O Peregrino abandona, definitivamente, a sua identidade, simbolizando uma espécie de último moicano em prol da paz internacional; Sarraceno desespera por vingança pessoal e encontra no terrorismo internacional a arma que permite chegar a tal fim; o autor veste a pele de um “narrador” que tem em sua posse um conhecimento decisivo e que se mescla entre a subjetividade, o livre-arbítrio e a racionalidade de quem tem um fim definido.

Terry Hayes desenhou um oceano de possibilidade cujos vislumbres de retrospetivas várias dão ao leitor a sensação que a sua leitura não é um ato solitário mais sim uma partilha de experiências in vivo com personagens muito bem construídos, que valem por si mesmas, bem como pelo contexto geral de toda a narrativa.

As cenas dos crimes, a ação da policia, os rituais e procedimentos da justiça e dos “maus da fita”, deixam-nos no olho de um tremendo, alucinante e emotivo furacão de acontecimentos que apesar de contar com alguns clichés não dá um segundo de descanso ao leitor que devora com avidez um livro extraordinário.

Cada momento de “Peregrino” é sinónimo de um facto essencial, um pormenor que faz toda a diferença, uma pista que poderá definir todo o processo. Mas é também mais que isso. É “invadir” vidas alheias, saber mais sobre os seus hábitos, as suas famílias e amigos, as suas virtudes e defeitos. Particularmente, ao longo desta caminhada, o Peregrino aprende a viver com o seu próprio passado e essa pesada herança é tão fascinante, dolorosa e angustiante como a trama em si.

A história move-se como uma espécie de volta ao mundo e à medida que cada minuto, segundo, passa, a contagem decrescente galopa essa stressante realidade, colocando Peregrino e Sarraceno em posições cada vez mais determinantes para salvar ou destruir o mundo.

“Peregrino”, cujo argumento espera por uma adaptação cinematográfica, é, definitivamente, um dos livros do ano, que apenas pecará por um excessivo número de páginas. É um género que emotiva, desafia, uma viagem no mundo e em nós próprios. Os personagens ganham um pouco de nós e nós deles, dá-se uma espécie de metamorfose entre leitor e personagens. É certo que em alguns momentos, o livro pesa, os braços doem, os olhos ardem, mas a leitura é como a vida, não suporta intervalos, pausas, pois as paixões, sejam de respirar ou ler, são humanamente indispensáveis.

Caminho sinuoso e, por vezes, desesperante, que percorre o atlas geográfico e mental, “Peregrino” é um livro que não deixa ninguém indiferente, que consume, assusta, diverte, vicia, trazendo à memória episódios marcantes da história recente como a Segunda Gurrra Mundial, o conflito do Afeganistão, o 11 de setembro ou a Guerra Fria. Se dúvidas existissem, Terry Hayes consegue ao primeiro livro uma conquista reservada a poucos pois acerta em cheio!



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