“Plutocratas” | Chrystia Freeland

“Plutocratas” | Chrystia Freeland

Os donos do capital

São vários anos a mover-se nas esferas dos empreendedores mais afortunados do planeta, com provas dadas para comprová-lo no Financial Times, Washington Post ou Thomson Reuters Digital. Chrystia Freeland faz, em “Plutocratas (Temas e Debates), um apanhado do seu corpo de trabalho e investigação, revisitando até algumas reportagens de destaque sobre o fosso que separa o 1% mais abastado do resto da população.

Derivado da junção de ideias indissociáveis – riqueza e poder -, a plutocracia assumiu proporções bíblicas no ocidente após a ascensão em flecha do investimento privado norte-americano, pois os lucros da Revolução Industrial tinham vindo a acumular-se. Magnatas como Carnegie, Ford ou Rockefeller provaram que a última palavra está nas mãos de quem tem a maior soma de dinheiro, dinheiro que, por sua vez, não gosta de passar pelas mãos de todos. Nada de novo, até Freeland nos avisar de algo que nos parecemos ter esquecido pós-2008: alguma desta minoria poderosíssima também é capaz de dar bom nome ao capitalismo, seja através de grandes acções de filantropia ou pela meritocracia que ditou a ascensão destes à riqueza.

Mas existem bons motivos para o erguer de vozes como as do movimento Occupy. A ordem mundial assente no capital tem permitido às BRICs prosperarem, como nunca, à custa da arraia-miúda, ao mesmo tempo que permitem uma mobilidade social nunca antes vista. Por sua vez, no ocidente anglófono, milionários, multimilionários e ultramultimilionários (sendo este último o estrato dos 0,01%) respondem ao crescimento das potências emergentes trocando o labor bem pago da classe média local por mão-de-obra asiática, que fá-lo por uma ninharia. É deveras incerto se a globalização alguma vez permitirá uma uniformização do poder de compra, ou se trará apenas roturas paradigmáticas na proveniência do maior detentor de capital. Há umas décadas atrás, não contávamos que tantos chineses pudessem querer o estilo de vida que os norte-americanos, por exemplo, tomavam por garantido.

Freeland cumpre com algum rigor o princípio da imparcialidade da sua profissão, pese que pessoas como Eric Schmidt (da Google) seja um amigo pessoal que estima. Ficamos a saber, que nisto dos ricos, há gente boa e má, tudo bem suportado por uma torrente de estatística e notas de citação. A autora não advoga uma doutrina socialista, mas também não cai no erro comum à crítica da esquerda: o achar-se que há uma caça às bruxas aos endinheirados pelo valor da sua riqueza e não pela desigualdade animalesca que essas riquezas geram.

Embora validar o darwinismo social não seja o objectivo de “Plutocratas”, Chrystia Freeland assenta desde cedo que o capitalismo funciona como meio de distribuição de riqueza. E, somente de um ponto de vista teórico, não está de todo errada. Porém, a circulação de capital, digamos, mais equiparada, é que parece ser incompatível quando se passa dos livros para a selva do mundo dos grandes negócios e patrões, gerido a partir de Wall Street. Porque, no meio disto, ainda existem muitos de nós a querer – ou pelo menos a tentar – viver bem sem que hajam valores de seis a nove dígitos a aparecerem no extracto bancário – porque o resto, meu amigos – como diria Jorge Jesus -, “são peaners”.



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