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Pointe to Point

O 6º Encontro de Dança Ásia Europa realiza-se em Lisboa entre 12 e 27 de Junho no Museu do Oriente. Conheçam este evento através das palavras da sua coordenadora Catarina Saraiva e descubram os três artistas portugueses que irão estar presentes.

Durante os últimos anos a Associação alkantara tem sido uma das principais responsáveis pela dinamização das artes performativas, principalmente da dança contemporânea, fomentando a troca de experiências entre criadores, artistas, intérpretes e público. Este ano, o ponto alto desta partilha é o 6º Encontro de Dança Ásia Europa – Pointe to Point (PTP) , promovido pela Asia-Europe Foundation (ASEF) que se realiza entre 12 e 27 de Junho no Museu do Oriente.

Existente desde 2003, este projecto é desenvolvido alternadamente na Ásia e Europa, tendo permitido o intercâmbio entre mais de 100 artistas europeus e asiáticos. Durante duas semanas, 20 artistas oriundos de vários países da Europa e da Ásia centram-se na criação de um terreno de exploração focado na dança contemporânea e outras artes, no trabalho dramatúrgico e na colaboração internacional. Fomentam-se experiências, descobertas e questionamentos sobre o mundo contemporâneo e criam-se condições para o desenvolvimento de colaborações que possam surgir no âmbito deste projecto.

O projecto é orientado e coordenado artisticamente por Tang Fu Kuen (Singapura) e Jaime Conde-Salazar (Espanha), que vão também trabalhar intimamente com os participantes enquanto facilitadores dos seus projectos artísticos.

Embora este encontro se realize durante duas semanas, apenas existem apresentações públicas nos dias 13 e 14 de Junho. Durante estes dois dias, no Museu do Oriente, é possível assistir a um conjunto de peças que vão desde instalações, excertos de trabalhos, espectáculos e palestras que pretendem, acima de tudo, criar estímulo e material de trabalho para todos os participantes.

Catarina Saraiva, coordenadora do Pointe to Point 2009

A importância para a Associação alkantara que o 6º Encontro Dança Europa Asia se realize em Lisboa…

A alkantara tem desenvolvido, ao longo dos anos, uma série de ligações entre vários artistas de vários países e continentes. Estas ligações assumem o formato de residências, de apresentações de espectáculos (alkantara festival) e encontros. A nossa tentativa é precisamente a de estabelecer pontes entre artistas e contactos com práticas artísticas bastante distintas, numa tentativa de quebrar preconceitos e também de permitir o enriquecimento pessoal e artístico. Ao longo destes anos conseguimos estabelecer relações com vários artistas e organizações europeias, africanas e latino-americanas mas nunca chegar à Ásia. Há uns anos atrás, o então director de alkantara, Mark Deputter, iniciou estes primeiros contactos que estão agora a dar frutos.

Sendo que o nosso objectivo é abrir contactos entre vários pontos do mundo, a importância deste encontro é precisamente a de permitir, num ambiente mais informal e intenso do que aquele que é um festival, conhecer artistas europeus e asiáticos, ter um feedback sobre as formas de trabalhar num continente tão vasto quanto o asiático e, ao mesmo tempo, permitir que artistas com diferentes backgrounds possam criar laços e ligações entre si que possam ser desenvolvidas em relações mais profundas e que podem, precisamente, dar azo a colaborações que possam finalizar em espectáculos ou outro tipo de relação colaborativa.

Por outro lado, para nós é importante colocar Lisboa no mapa das artes performativas contemporâneas, uma cidade onde esta contemporaneidade é uma realidade e é possível desenvolver projectos de carácter internacional com todas as condições necessárias para tal. O facto de termos um espaço permite-nos também acolher com uma maior regularidade e estrutura este tipo de projectos.

O encontro tem a duração de duas semanas mas apenas vão existir apresentações publicas em dois dias …

Os encontros que temos promovido ao longo dos tempos, este será o 13º encontro que promovemos desde 1998, têm tido objectivos muito diferentes. Foram encontros de formação, de reflexão, de criação. Um dos factores que nos interessa nestes encontros é a riqueza de oportunidades existente, isto é, um dos pontos fulcrais na organização destes encontros é o de promover o encontro entre artistas que vêm de culturas e com backgrounds distintos entre si. Isto gera, automaticamente, a possibilidade de enriquecimento pessoal pela confrontação de diferentes metodologias e formas de perspectivar o mundo.

O Pointe to Point, não sendo uma iniciativa do alkantara, mas antes um convite que nos foi feito pela Asia Europe Foundation, segue os mesmos preceitos de qualquer outro encontro organizado por nós. Colocar em confronto, e este confronto é sempre positivo, diferentes artistas e diferentes formas de visualizar o mundo, com as suas estéticas e interpretações pessoais. Este encontro começa com as apresentações pessoais de cada artista para que nas seguintes semanas exista um terreno de liberdade criativa e de colaboração entre os artistas seleccionados. Digamos que estes dois dias de apresentações públicas são dois dias em que os artistas que participam neste encontro se apresentam entre si. Durante as duas semanas que se seguem seguem um programa que não é formal nem estruturado mas que vai desde actividades em grupo, orientadas por Jaime Conde Salazar e Tang FuKuen que darão matéria para reflexão a todo o grupo, até ao desenvolvimento de colaborações artísticas. Queremos que aproveitem este período para experimentarem o que acham essencial no processo criativo e em colaboração. O encontro terá lugar no espaço alkantara mas também noutros estúdios pela cidade, nomeadamente nos estúdios da EDSAE e da Re.Al. São duas semanas de laboratório, de experimentação mas também de criação de laços e de possíveis colaborações. Estaremos muito atentos ao que se irá passar durante todo o encontro, fazendo uma documentação intensa mas também olhando para as colaborações que podem surgir para que as possamos acompanhar no futuro e, eventualmente, podermos apresentá-las no festival.

No final destas duas semanas poderemos abrir as portas do nosso espaço ao público e mostrar, informalmente, o que se fez.

Artistas a não perder…

Os 18 artistas que participam neste projecto foram seleccionados através de candidaturas. Foi um processo de selecção muito duro e intenso porque recebemos mais de 100 candidaturas de artistas europeus e asiáticos, pelo que não é justo salientar um em relação a outro. A selecção destes artistas foi feita com o intuito de termos um grupo bastante eclético mas, ao mesmo tempo, com uma linguagem que pudesse ser comum a todos, neste caso, as artes performativas contemporâneas. Muitos dos artistas seleccionados já conhecíamos, outros são surpresas totais, pelo que também nós estamos muito curiosos. A certeza é que todos têm um trabalho com um nível de qualidade elevado, tendo em conta os diferentes contextos em que têm criado e crescido enquanto artistas.

Expectativas e objectivos …

Promovemos e incentivamos muito a auto-aprendizagem e estes encontros são um terreno propício a isso, criar confrontos entre ideias e abrir perspectivas, trocar experiências e conhecimentos. O que nos motiva a fazer este tipo de encontros é que sabemos que existem sempre artistas que iniciam aqui os primeiros contactos e relações e que continuam a trabalhar para além destes momentos. Neste projecto, queremos ir mais longe e vamos proporcionar o acompanhamento a essas possíveis colaborações. A seguir ao encontro, se existirem artistas que queiram desenvolver um trabalho em colaboração e que nós consideremos artisticamente interessante, preparamos terreno para que essas colaborações possam ser desenvolvidas noutras residências, que serão acolhidas por parceiros espalhados na Europa e Ásia. Nós próprios estaremos interessados em acompanhar os processos artísticos e inclusivamente, se proporcionar, em pensar em apresentá-los na próximas edição do festival.

A participação portuguesa

Ana Trincão – “Timeline”

Ana Trincão trabalha “no cruzamento, entre as artes visuais e a dança”. Licenciada em Artes Plásticas pela Escola Superior de Arte e Design as Caldas da Rainha, Ana Trincão frequenta regularmente formações na área da dança e coreografia em Portugal e no estrangeiro, onde destaca o trabalho com Louic Touze, Jeremy Xido, Claudia Heu, Hooman Sharifi, Deborah Hay e João Fiadeiro. Graduada com o grau 5 pela Royal Academy of Dancing em ballet clássico. Desenvolve projectos no âmbito das artes performativas desde 2006 e encara o PTP como um local de “troca e o confronto entre pessoas que buscam alguma coisa em comum”.

No PTP, Ana Trincão irá apresentar “Timeline”, uma instalação que estará patente das 16 às 23 horas nos dias 13 e 14 de Junho. Este trabalho é descrito no dossier de apresentação do PTP da seguinte forma: “em cima da mesa estão dispostos, como uma timeline, objectos, pequenas esculturas, fotografias, textos, livros, conversas que foram momentos importantes dos meus projectos artísticos. De uma certa forma significam pontos de viragem”.

Teresa Prima – “Projecto B”

“Eu pertenço ao clube dos que dançam, dentro dele por vezes sou coreógrafa, outras performer e ainda orientadora/monitora. Todas estas vertentes fazem parte do que me define artisticamente”, disse-nos Teresa.  Com um passado sempre ligado às artes performativas, está muito “contente” por participar no PTP: “Já queria ter concorrido na edição anterior só que nessa altura estava na Índia a estudar dança. Eu acho o pressuposto do Festival fantástico”.

No PTP, Teresa Prima vai apresentar, no dia 14 de Junho às 18:15, uma palestra/performance, apelidada de “Projecto B”, que a própria descreve como sendo “uma viagem à procura da beleza”. “Acabei de passar para o papel o conceito do Projecto B e estou em fase de pré-produção. Na prática, já deu os seus primeiros passos em termos de investigação, através da realização de um exercício coreográfico para 11 alunos da Escola Profissional de dança do Ballet Teatro e um Atelier de Pesquisa Coreográfica no NEC que em muito contribuíram para a definição da sua identidade”, disse-nos.


João Evangelista – “holding a tiger by the tail (or life is not a dress rehearsal)”

João Evangelista vive e trabalha em Amesterdão e escolhe “não se definir” justificando que as definições fecham “o campo de potencialidades, que é exactamente o que a arte abre”. “As definições são criadas por historiadores de arte, curadores e programadores culturais, que necessitam de nomes, logos, para definir o que descrevem e muitas vezes vendem (…) daqui a 50 anos, talvez o meu nome apareça na secção de Live Art e me definam como a performance artist that was too stubburn to be just a dancer’”, conclui.
Trabalha com diversos meios como a dança, vídeo, instalações e escrita, sendo que a escolha do meio está sempre relacionada com o objecto/tema que é abordado no seu trabalho. A sua obra procura expor assuntos captados a partir de obsessões pessoais, curiosidades, ansiedades e banalidades sobre a vida quotidiana. Tem trabalhado com vários artistas tais como Forced Entertainment, Goat Island, Xavier Le Roy, Thomas Lehmen, Didier Dorvillier, Debora Hay, Keren Cytter, Zhana Ivanova, entre outros.

Declarou-se “surpreendido” por ter sido escolhido para o PTP e encara a sua presença como uma oportunidade para tornar mais “flexível” o seu “eurocentrismo”. “O PTP oferece-me a oportunidade de abrir algumas portas e mudar a minha percepção e posicionamento na forma como dialogo com o meu trabalho”, disse-nos.

A performance que traz a Lisboa (dia 14 de Junho às 21:30) é-nos apresentada pelo próprio da seguinte forma:

“É um trabalho de 2007, sobre a forma como uma pessoa aprende a viver através de imagens. É um álbum de família que eu teria se tivesse nascido em Nova Lisboa, e não em Lisboa … um ‘what if…’. Procuro desmistificar a forma como colecções de imagens que documentam vidas passadas são usadas como ferramentas para transmitir e condicionar as gerações seguintes. É um trabalho onde procuro o paradoxo do pessoal e do impessoal, uma vez que conto uma história que não é minha, como se fosse minha. Um mentiroso honesto, ou um honesto mentiroso. Como é que a memória cada vez é mais criada à volta do sentido da visão e não de outros sentidos corporais…”

Todas as iniciativas do PTP a decorrer nos dias 13 e 14 de Junho têm entrada gratuita e estão obviamente limitados à lotação da sala. Espera-se que o público alfacinha dê razão a Teresa Prima que nos disse “não ter qualquer dúvida” que o interesse pelas formas de arte contemporânea “existe em Lisboa”.



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