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Reflectir espaços acidentados

E depois do incêndio, o que vem? Inês Moreira, curadora da exposição "Rescaldo e Ressonância", convidou três artistas de media diferentes a fazer esta reflexão.

Tudo começou há um ano atrás. No dia 5 de Maio de 2008, a parte oriental da Reitoria da Universidade do Porto (UP), instalada na antiga Faculdade de Ciências da Universidade, aos Leões, deflagra em chamas. Dominado o fogo, e evacuadas as pessoas e o património das bibliotecas e Museu de Zoologia, instalados na área atingida, ecoa o som do desastre. No rescaldo, Inês Moreira vê uma oportunidade de dar uma visão sobre os espaços atingidos. A interpretação “do espaço pelo espaço”, explica-nos. Licenciada em Arquitectura pela FAUP, com um mestrado em Arquitectura em Barcelona doutoranda em Conhecimentos Curatoriais, no Goldsmiths College, Londres, a actual professora convidada no mestrado de Museologia da Faculdade de Letras da UP Inês Moreira encontra-se envolvida em vários outros projectos, debruçando-se, nomeadamente, sobre os espaços não convencionais de exposição. O projecto Rescaldo e Ressonância pretende fazer, de um modo concreto, essa reflexão.

O que é Rescaldo e Ressonância?
O projecto surge enquadrado “num acontecimento (o incêndio) e paralelamente ao conhecimento do edifício e das histórias que aqui foram tendo lugar. Existe um fascínio pelos espaços e sentido de memória histórica que pode ser preservada através de diversos projectos culturais que são efémeros.”, diz-nos Inês Moreira.
A exposição, instalada numa área de cerca de 400 m2, procura mostrar um edifício acidentado e os vestígios, cuja interpretação “reside sobretudo no mundo do imaginário.”

Responsável pela direcção de produção e desenho do espaço da exposição Depósito: anotações sobre densidade e conhecimento (patente na Reitoria da UP de Janeiro a Junho de 2007), Inês Moreira faz um paralelo entre as duas, relacionando-as em torno do edifício. “Eu vejo isto em ligação com outras experiências no edifício, com o património. Só que neste incêndio o que ficou foi um vazio que fala dos mesmos espaços. Há uma ligação conceptual entre falar do património através dos objectos e falar do edifício através de um vazio.”

Esta exposição é, fundamentalmente, “um percurso instalativo que interpreta o espaço com recurso a diversas linguagens artísticas: som, vídeo, fotografia e instalação espacial.” Sobre o que não é, Inês Moreira responde que “ não é uma exposição de obras de arte num museu ou numa galeria de arte. É o contrário disso.”

Inês Moreira + André Cepeda + Paulo Mendes + Jonathan Saldanha
Ao pensar na exposição, Inês Moreira não hesitou em convidar André Cepeda, Paulo Mendes e Jonathan Saldanha, “porque todos eles têm explorado o limite técnico e conceptual do próprio media em que trabalham.” André Cepeda “é um fotógrafo que usa grande formato e que desenvolve um trabalho técnico muito perfeito, com impressões digitais de grande qualidade e imagens muito trabalhadas”. Paulo Mendes trabalha a narrativa audiovisual com uma plasticidade que, mesmo que não conte uma narrativa linear, consegue ter uma ligação inequívoca. E Jonathan Saldanha “participa em diversos projectos de som e música, trabalha com a ressonância e tem manifestado um interesse no ‘indizível’, aquilo que está para além do compreensível”.

O trabalho dos quatro enquadra-se numa fracção do edifício reconfigurada pelo fogo e pelas obras de recuperação do telhado. Nela habitam pombas e detritos, manchas nas paredes e pedaços de tecto caídos no chão. Tudo isto faz parte do cenário base para esta consciência espacial, em que o próprio espaço estabelece jogos de ironia, tais como o aviso “desligar os aquecedores” nas paredes ou o símbolo de saída de emergência que sobrevive, incólume, numa das zonas mais deterioradas pelo fogo.

Tal sorte não teve o laboratório em que o incêndio começou, presumivelmente, devido à explosão de uma lâmpada. É exactamente esse tema que Paulo Mendes usa como mote para a sua instalação vídeo, mesmo no centro da exposição. “ O Paulo mostra o erro humano, lâmpadas a partir, ideias de explosão. Usa imagens captadas aqui e combina-as com imagens do cinema ou de arquivo. Mostra como é que o nosso imaginário colectivo do incêndio é marcado também pelo cinema. O Paulo explora essa ligação entre a realidade e a ficção.”, explica Inês Moreira.

Jonathan Saldanha procurou explorar as sensações que o incêndio provocou nas paredes do edifício. “O Jonathan criou uma grande instalação com colunas de automóveis reutilizadas e com os móveis que lá estavam, reorganizando a sala. Captou sons neste espaço e no seu próprio corpo, amplificou tudo isto com um som muito físico, em que a sala e o corredor de entrada da exposição reverberam, uma coisa muito física, e explorou os sons mais invisíveis que o espaço pode ocultar.” A fechar o percurso da exposição, André Cepeda documenta o espaço, em 240 “slides, uns com película de boa qualidade, outros com película fora do prazo, outros com revelações de polaroids que não correram tão bem, enquanto noutros utilizou negativos e revelações sépia.”

Inês Moreira considera que esta variedade de experiências permitiu uma exploração da plasticidade da película fotográfica, ao mesmo tempo que regista os rastos de água nas paredes, as cinzas, os espaços acidentados, o abandono, os móveis desorganizados. Estas fotografias são projectadas em telas de materiais pobres sobre as estantes metálicas – que, da biblioteca do piso de baixo, inundada durante o incêndio, foram relocalizadas, adquirindo a configuração que o laboratório teria – e cuja concepção espacial esteve a cargo de Inês Moreira, assim como o conceito da exposição.

Fazendo um balanço geral, Inês Moreira afirma que “esta é uma exposição que, visualmente, não é espectacular, mas que espero provoque algumas sensações físicas que despertem um sentido mais simbólico do que é um espaço acidentado.“

Sinergias para fora e de dentro
No contexto da exposição, os alunos do mestrado em Museologia da Faculdade de Letras foram convidados a participar no processo de reflexão que a exposição sugeria. “Os alunos de Museologia participaram no workshop e foi-lhes feito o desafio de começarem a pensar sobre o que certos espaços poderão vir a ser.” Os mestrandos em Museologia foram convidados a interpretar estes espaços em confronto com museus, e questões como acesso ao público e relação com a cidade e, a partir daí, chegar a conclusões no contexto da faculdade e da cidade. Inês Moreira considera importante esta interacção e dinâmica entre a Universidade e a Cidade, que vá além da programação das instituições, e que, além de envolver os alunos e de os colocar no papel de investigadores, crie sinergias entre os vários agentes culturais e sociais da cidade.

Assim como ela crê poder acontecer com o seu Petit Cabanon – a rampa de lançamento para alguns dos seus projectos e a plataforma de reflexão e concepção de outros. Situado fisicamente no CC Bombarda, o Petit Cabanon tem vida externa ao seu espaço físico, uma vez que existem relações com as instituições da cidade, como acontece com a UP, e que Inês Moreira espera se venha a tornar “um centro de investigação independente ou um centro de investigação interdisciplinar”.

Do Porto ou do mundo?
Ainda que esta exposição aconteça na cidade do Porto, Inês Moreira diz-nos que assim é, devido ao incidente que a sugeriu, sendo que ela nos conduz a uma reflexão sobre espaços acidentados, no geral, e sobre o uso desses como áreas não convencionais com fins culturais. Embora a exposição seja para o Porto e no Porto, as suas preocupações não são de contextos locais, mas sim sem fronteiras. Assim são também os intervenientes nessa criação: André Cepeda estudou em Coimbra, e expôs em Bruxelas e em França; Paulo Mendes é de Lisboa, mas vive agora no Porto; Jonathan Saldanha esteve, nas últimas semanas, em residência artística em Roterdão; e a própria Inês Moreira divide o seu tempo entre o Porto e Londres. “As pessoas circulam e participam em diversas redes de reflexão”, o que ajuda a que se chegue a conclusões mais universais do que locais.

Mais info:
A exposição está patente no 4º piso da Reitoria da Universidade do Porto, até ao dia 31 de Agosto de 2009. Com entrada livre, encontra-se aberta ao público de terça-feira a sábado, das 10h às 20h. Mantém uma programação pontual paralela à exposição.



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