rdb_rythmbasedlovers_header

Rhythm Based Lovers

Sincronismo, Amor e Ritmo.

Quando lemos pela primeira vez o nome Rhythm Based Lovers no centro de um 12 polegadas, segundos antes de cair a agulha e nos resolvermos com as expectativas, somos instantaneamente – quase por reflexo – atingidos por um disparo de associações perfeitas, neste caso todas as que a nossa cabeça consegue romanticamente gerar entre Sincronismo, Amor e Ritmo.

É um autêntico gatilho, e quando o som entra em jogo a mística adensa-se. O equilíbrio que se assume improvável entre o estalido maquinal e uma música de pulsação sensual e livre – um híbrido despido e directo entre o Jack de Chicago, Funk e propulsão Boogie – volta a acontecer intuitivamente, aqui como no passado, em alturas de transição que preparavam caminho para estilos como o House e o Techno.

Mas este segundo capítulo de magia orgulhosamente obsoleto não se confunde com o primeiro – não há detalhes revisionistas nem heranças superficiais. A música é pura e honesta, mostrada nos seus primeiros takes e feita totalmente em equipamento vintage. É algo tão exposto que tudo parece uma troca directa entre as máquinas – romance entre basslines, acordes e síncope – como se o nome atribuísse uma carga poética aos interfaces DIN Sync usados desde os 80’s como forma de sincronizar as caixas de ritmos e sintetizadores Roland. Amantes sincronizados pelo ritmo como drum machines a fazer disparar as notas de teclados.

O verdadeiro nome a seguir é  no entanto Jason Letkiewicz, que através dos seus alter ego, incluíndo Steve Summers, já lançou por editoras como FrequeNC, Clone (Jack For Daze), Future Times e Touch Your Life. Custa a acreditar mas é a sua primeira entrevista.

Descobri a música de Rhythm Based Lovers através do 12 polegadas que editaste na FrequeNC, que é uma editora bastante carismática e independente, mas nunca encontrei muita informação sobre o projecto. O que é e quem é Rhythm Based Lovers?

RBL tem apenas 1 membro que sou eu (Jason Letkiewicz). Muita gente acha que há mais pessoas envolvidas e eu tenho gostado da confusão gerada em torno disso. A Ambiguidade para mim é uma mais-valia.

Eu não criei uma mitologia específica acerca de RBL. O nome originalmente surgiu quando um amigo meu brincava com outro amigo nosso, que não tem sentido de ritmo absolutamente nenhum, sobre este precisar de encontrar uma Rhythm Based Lover para que o seu filho pudesse nascer com um sentido natural de ritmo (risos).
É também um nome que expressa a ideia ancestral de ligação profunda e significativa entre pessoas através da música. Sempre fui muito inclinado para os aspectos rítmicos da música. Não é que eu não adore melodia, mas o baixo e a bateria são que aquilo que realmente fala comigo. De alguma forma esta ideia dos “amantes” serem “baseados no ritmo” parece-me mais primitiva e crua. Elementos que eu aprecio bastante na música que ouço.

O projecto é uma tentativa minha de ligar vários géneros /aspectos / estéticas da música de dança que eu gosto. Um amigo meu descreveu RBL como o meu projecto WBMX. Eu concordo com isso na medida em que eu deixo que elementos do Disco, House, Italo e Boogie influenciem o som. Da mesma forma que a maioria dessas velhas sessões da WBMX representavam uma abertura a vários tipos de música de dança.

Testemunhaste os anos dourados da rádio WBMX de Chicago, com o Farley, Hurley e todos os outros DJ’s lendários?

Infelizmente não testemunhei a era WBMX em primeira mão. Eu soube através da internet. Especialmente fazendo download dos mixes de sites como o deephousepage . O meu primeiro grupo Manhunter era formado por mim e pelo Ari G (Beautiful Swimmers). Nós  e um pequeno grupo de amigos eramos os únicos  a gostar desse tipo de música de dança em DC. Ainda não tinhamos conhecido o Andrew Morgan de PPU na altura. Éramos sortudos ao ponto de encontrar muitos dos discos tocados nessas sessões de rádio em lojas de discos nesta zona. Especialmente na zona de Baltimore. A cena club de Baltimore parecia bastante influenciada pelo que se estava a passar em Chicago. Logo muitos desses discos ainda se encontram pela cidade e arredores. Na verdade há uma loja de discos lá chamada Dimensions In Music que é gerida pelo Larry Jeter, que tocou bateria no disco “Puddin” dos Belle Farms Estates. Eu vou lá à anos e quase sempre ainda encontro discos incríveis. Na verdade ontem encontrei nessa loja uma cópia da promo do “Funk You Up” de Jesse Saunders na Precision por 10 dólares.

Como é para ti o processo de fazer música?

Relativamente ao meu processo de escrita, ele mudou um pouco ao longo dos anos mas no geral manteve-se bastante consistente com a faceta RBL. Eu costumava fazer música no Ableton há muitos anos atrás, mas fiquei um pouco cansado do interface. Em 2006 comprei uma MPC-1000 e actualizei-a para o sistema JJ OS. Definitivamente tenho uma forte afinidade para com equipamento clássico. Penso que é limitado de maneiras que podem contribuir para resultados interessantes. Muito daquilo que faço enquanto Steve Summers ainda é baseado numa 707 a fazer disparar o som de um Juno-6 com partes de sintetizador tocadas por cima.
Fazes alguma reflexão sobre aspectos como inovação, frescura ou é o eterno apelo das velhas máquinas analógicas que te inspira?

Definittivamente penso em frescura mas mais em termos de usar novas combinações de máquinas. Eu tenho cerca de 7 ou 8 teclados diferentes neste momento e uma mão cheia de caixas de ritmos clássicas. Eu gosto de fazer pelo menos 2 músicas com a mesma combinação de sons. Assim, pelo menos na minha cabeça, elas funcionariam bem juntas no mesmo disco. Gosto de manter os arranjos minimais se possível. Às vezes gosto de ser mais linear como no “Boogie Vision” e noutras alturas eu gosto que eles soem circulares, como no “Caught In The Moment”. Algumas vezes são compostas do princípio ao fim e noutras são o produto do acaso.

Como acontece e o que é que procuras quando experimentas com o equipamento?

Normalmente gravo tudo ao vivo para 2 faixas sem overdubs, mas há excepções. Enquanto estou a gravar gosto de tocar teclados, mexer na mesa de mistura e adicionar efeitos de forma a que isso não possa ser recreado de forma exacta outra vez. Desta maneira todas as versões possuem um elemento de acaso. Muito disto é subtil. Eu gosto de ficar obcecado com detalhes que a maioria das pessoas nunca vai notar. Há algo de importante em tentar captar esse momento especial ao vivo. Adicionando um elemento humano às máquinas. Eu sei que isso era uma grande parte do processo de grupos como Drexciya e imagino que também seja assim com as primeiras produções do Larry Heard.

Como separas na tua mente o trabalho que fazes enquanto Steve Summers e Rhythm Based Lovers? Pergunto isto porque embora os dois projectos partilhem características a nível de som (sobretudo o sentir analógico e claro elemento de composição de música de dança old school) parecem ter cada um o seu próprio universo e influencias. Durante algum tempo comprei os discos como sendo de artistas diferentes.

Para já o projecto Steve Summers tem sido brincar com um tipo de som específico que eu adoro. Esse som é predominantemente o som das faixas House de Chicago do período entre 85 e 87. Eu pego em elementos que adoro, como a crueza, a profundidade, a estranheza e tento fazer faixas novas que sublinhem isso. E também gravo tudo o que é Steve Summers num gravador de cassettes de 8 pistas. Adoro o som das velhas mixtapes de Jack e para o meu ouvido a música soa simplesmente melhor em cassette. 95 % das gravações Steve resultam de takes improvisados, o que vai de encontro ao que estava a dizer antes sobre  capturar a versão mágica. 2 das 3 faixas no Jack For Daze (“Shake the House”, “Message From The Past”) são o primeiro take da primeira vez que toquei essas músicas. Nalguns casos voltei atrás para fazer outras versões mas estas não me afectaram da mesma maneira que as primeiras versões.

Uma coisa que mencionaste, que para mim, é a ideia mais importante é a ideia de que cada projecto tem o seu próprio mundo. Foi um esforço muito consciente da minha parte que cada projecto habitasse o seu próprio mundo. Há certas peças de equipamento que eu uso apenas para um deles e não para o outro. Normalmente tenho que estar num certo estado de espírito para trabalhar num deles e não no outro, e isso é algo que é determinado no momento.

Eu faço muitas faixas sob vários nomes. Não sei se visitaste o meu site, mas o confusedhouse.org tem alguns desses outros projectos lá. O mais novo é sob o nome Alan Hurst. Este é o meu projecto de Library Music ao estilo de Mort Garson ou Bernard Fevre.

Nesse projecto não uso sequenciadores para as partes de sintetizador. São todos tocados um de cada vez para um gravador de 4 pistas que eu tenho. As faixas são curtas. Normalmente entre 1 e 3 minutos. Queria que tivesse muitas limitações. O único equipamento que uso são um Space echo, um delay Memory Man e um Creamware Minimax. O Minimax é uma réplica hardware verdadeiramente fantástica do Minimoog. As músicas são interessantes para mim porque eu começo apenas com uma linha de baixo e toco tudo até ao fim sem fazer ideia sobre como vão ser as outras partes. Depois sobreponho uma faixa de cada vez à mão até que tenha uma música que me deixa satisfeito.

Outro projecto de que me orgulho é Death Commando Project. É a minha homenagem ao terror e às bandas sonoras Slasher. Tem algo de John Carpenter e Goblin às vezes mas é um pouco mais minimal. Eu tive uma ideia para um filme Slasher chamado R.I.P. Current. Ao invés de fazer o filme fiz apenas a banda sonora que gostaria que acompanhasse o filme não existente.

Sentes que pertences à cena de dança e DJing actual?

Eu não me sinto particularmente ligado a alguma cena de música de dança ou DJing aqui. Isso resulta provavelmente do facto da nossa Crew ter funcionado de forma muito independente aqui na zona de DC. Sinto-me sobretudo ligado a outros artistas que estão a fazer uma exploração profunda da música e parecem partilhar muitas das mesmas influências e ideias. Os Beatiful Swimmers voltaram agora de uma pequena tour europeia e traziam coisas incríveis para contar sobre as pessoas que conheceram. Em particular disseram que Ulm era um sítio fantástico e que as pessoas lá eram muito similares ao nosso grupo de amigos aqui. É fantástico saber que posso viajar até um sítio onde não conheço ninguém e ainda assim sentir imediatamente aquele ligação profunda através da música.

Qual é a tua ideia da festa perfeita ou clube?

A festa perfeita para mim é uma festa caseira. Sempre me diverti mais nessas. Enquanto vivia em Portland tocava regularmente numa festa semi-regular que acontecia num quarto pequeno de um amigo.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This