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Rui Murka

Uma figura de cariz e expressividade inigualáveis.

Rui Murka é para uma  vasta panóplia de amantes e conhecedores da música electrónica num todo, curiosos e boémios de alguns dos bares emblemáticos das cidades de Lisboa e Porto, uma figura de cariz e expressividade inigualáveis neste âmbito.

Nos diversos picos de catalisação de uma certa força motriz que adaptou, nutriu e estendeu alguns registos singulares, mais ou menos actuais, (acid jazz, jungle, house, dub, etc) para as pistas de dança, Murka é um nome que se impõe, regista e serve como/de inspiração ou fonte a outros, mais novos, que curiosamente, ou não, numa conversa em que lhe lanço o repto, destacou em preferência, ou por os sentir mais próximos, referiu, de si (de KaSpar a Vitor Silveira ou Tiago Miranda) ou, na sua geração e antecedente, por com eles partilhar e aprender, alguma dessa força, vontade, iniciativa e até persistência naquilo em que acreditam – de Dexter (DJ residente no Lux) a Pedro Tenreiro ( figura de destaque nas noites de Magia Negra – soul, funk, northern-soul, etc- que incute ao já emblemático Club de Funk) ou Rui Miguel Abreu e Isilda Sanches entre alguns mais (veículos de uma informação de raiz que passou ao longo dos anos pela partilha de expressões singulares, letais e essenciais ao seu entendimento e posterior divulgação como o hip-hop, o funk, a soul e toda a imagética que envolve e acomoda algumas noções claras e emergentes de registos tão únicos como mágicos).

O percurso de Rui não foi, naturalmente e para quem conhece bem o meio, atípico. O mesmo contou como tudo foi acontecendo e se desenvolvendo até hoje.

“Comecei a passar música em meados da década de 90 em bares do Bairro Alto (Keops, Nova, Captain Kirk). A música electrónica ainda não estava instituída e pelo Bairro o som fresco e alternativo passava pelo Trip Hop, Acid Jazz ou Jungle. Havia um circuito de bares que estendiam pela noite, o que se ouvia de dia na rádio X-Fm, ou se consumia em lojas de discos como a Contraverso (Zé Guedes) ou Lollypop (Rui Miguel Abreu e Rui Vargas).

Passei pelo Ciclone (antigo Johnny Guitar), um club relâmpago que durou cerca de um  ano, onde os ritmos quebrados e energéticos do Drum’n’bass eram a cadência perfeita para a festa. Por essa altura, fazia parte da Cool Train Crew, juntamente com TIago Miranda, Vitor Belanciano, Nuno Rosa, Dinis e Johnny. Aqui, dançar era a palavra de ordem” referiu. “Começávamos à meia-noite com o mesmo bpm que terminávamos a noite. A acompanhar-nos, para além do público, apenas um strob, que estava ligado a noite inteira”, recordou nesta alusão ao seu início de percurso pelas noites.

“Em 98 fui convidado para ser DJ residente do Frágil, onde me mantenho até hoje. Gosto bastante do trabalho de residente onde se pode moldar o público ao longo do tempo. Ao contrário da actuação isolada num club, onde só existe aquela oportunidade para as coisas correrem bem e, logo, há menos margem para criatividade. No Frágil as minhas preferências vão para o House, Techno e Disco.

Como residente, trabalhei em várias casas, de onde destaco o Lux, pelo profissionalismo (raro em Portugal) e persistência na programação. Actualmente, sou, também DJ residente do MusicBox (Lisboa), onde a atitude musical vai para uma mescla de vários estilos (Disco, Hip Hop, Techno, Funk), do Indústria no Porto com as sessões mensais Univeroul e dos Casinos Lisboa e Estoril. Aqui acumulo as funções de booker e responsável pela selecção musical da segunda hora do programa Casino Lisboa na Rádio Oxigénio – 2ª a 5ª feira das 20h às 21h”, partilhou.

As diferenças entre o ser DJ hoje e o seu significado em tempos um pouco mais longínquos , em que ainda dava os primeiros passos na Indústria, são entendidos pelo DJ de modo claro. “Ser reconhecido nunca poderá ser objectivo de um DJ, mas sim uma consequência do trabalho desenvolvido. Se invertermos esta lógica, o processo criativo sofrerá, inevitavelmente, alterações”, começou por discernir. “No entanto, há diferenças, sobretudo no acesso à música. Há uma década atrás, eras capaz de ir atrás de um DJ pois ele tinhas discos e sonoridades, que mais ninguém tinha. Hoje a música está acessível a todos, quase no imediato. Até o circuito de vinil em segunda mão é quase instantâneo”.

Mas há na sua óptica outra fragilidade patente nesse acesso mais fácil à música: “outra diferença tem a ver com a qualidade do som, que em certa medida piorou. Um ficheiro MP3 não tem a mesma qualidade que um ficheiro Wav, e este não tem a mesma qualidade que um Vinil. O púbico pode não perceber as diferenças a nível técnico, mas tem implicações nos sentimentos que o DJ está a provocar”.

As distinções latentes passam não só por um certo comportamento actual que desvia o desenvolvimento e partilha sonora da sua verdadeira essência, como no que isso implicará para um DJ na sua plena consciência de uma certa alienação que o espaço físico onde tudo se passava outrora traduz e tende, infelizmente, a desvanecer no presente. Foi o próprio que o reforçou neste diálogo. “Talvez a diferença maior, tenha a ver com o o circuito de DJs ter passado de uma certa clandestinidade povoado por minorias, para um espaço social que prolonga as nossas rotinas diárias onde é mais frequente ver pessoas a tirar fotos, enviar sms ou postar no Facebook do que a dançar. A alienação procurada na música e na noite, simplesmente, mudou e o DJ banalizou-se”

Além das pessoas próximas que destacou e foram referidas no início do texto, há ainda os espaços e outras gentes que pela mesma convicção e quase obstinação salutar nessa vontade e paixão pela música, Rui Murka não quis esquecer. Assim: “Vahagan, António Alves, Bruno Safara, DJ Ride, Mr Cheeks, Rui Torrinha, Jorge Caiado, Fazuma, Flur, Groovement, Supafly, Rádio Oxigénio, Frágil, MusicBox, Humberto (Social Disco Club), Rui Maia, Pedro Ricciardi e José Belo”, foram os outros que enalteceu na Indústria pelo motivo que reforçou em conversa: “porque admiro a sua persistência em lutar pelo que acreditam e, sobretudo, porque aqueles que me estão mais próximos são sempre os mais importantes”.

Nestas conversas com DJs e/ou produtores há sempre uma curiosidade repetida, até pelo modo amplo e igualmente distinto do trajecto e disponibilidade sensorial, social e até interpretativa de cada um, que me é comum. A inevitável correlacção entre o ser DJ e o estar/trabalhar numa loja de discos. Rui Murka explicitou o seu ponto de vista: “Trabalhar numa loja de música dá-te a possibilidade de ouvires mais música para além daquela que escolhes para o teu trabalho de DJ. Na minha óptica um bom DJ é aquele que consegue incorporar várias referências nos seus sets. É, também, um óptimo barómetro para perceber o que o público consome, o que por vezes nos deixa desiludidos e sem vontade de continuar…

Se fores um DJ que ainda passe vinil, e se a loja em que trabalhas o vender, tens acesso a discos em primeira mão e podes ficar com uma das das três cópias de um determinado disco que chegou. Mas hoje em dia, isso já não faz muito sentido, pois as lojas de música estão em vias de extinção e podes obter tudo o que queiras e de uma forma imediata num qualquer site. Em Lisboa, destaco a Flur e Supafly. On line, as minhas preferências vão para a Juno, Phonica e Picadilly Records”, reflectiu.

Serão os DJs, músicos, amantes e melómanos conhecedores convictos, bons comunicadores nos cargos da, no passado, exclusividade ou pelouro do jornalismo e comunicação social mais abrangente? Foi outra das curiosidades impostas, clarificadas do seguinte modo por Murka: “As fronteiras entre as várias áreas são cada vez mais invisíveis. Desde que sejam pessoas com competências e conhecimentos válidos, acho que poderão ser uma mais-valia em certas áreas. Por exemplo, poderá ser mais completo ter um DJ, desde que seja um bom comunicador, a falar sobre musica electrónica/dança num programa de rádio ou TV, do que um qualquer curioso amigo do director.

Há um fluxo maior de pessoas vindas de outras áreas para o meio DJ, do que o inverso. É com alguma incredulidade que continuo a ver certos lugares-chave das indústrias ligadas à música, que seriam bem ocupados por certos DJs, mais uma vez entregues a amigos dos directores. No entanto, o mais importante é a pessoa certa no lugar certo. Do ponto de vista de DJ, o pior que pode haver é ter um DJ que só o é, pois tira proveito de um qualquer status que atingiu noutra área. O inverso, também, é válido”.

Para os que já conheciam Rui Murka, a forma organizada e coerente como expõe a sua percepção do meio nas suas linguagens distintas (a pista, a rádio, a loja de discos, etc) não será, com alguma certeza, novidade, mas para o leitor menos atento à sua representatividade na senda poderá ser mote ou estímulo de algum encaixe que despolete alguma da emoção por aqui exposta e que o DJ deixa em jeito de recado final para os leitores RDB: “Paz, amor e muita música”!



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