SALVATORE MEREU

Salvatore Mereu

À conversa com o realizador de “Bellas Mariposas”, filme presente na Festa do Cinema Italiano

Salvatore Mereu recebeu a RDB para uma conversa em que partilhou o seu percurso cinematográfico, esclareceu-nos sobre a realidade que o cinema italiano enfrenta, revelou-nos a característica da nova geração de cineastas italianos, e ainda nos apresentou o seu último filme, “Bellas Mariposas”.

Salvatore Mereu nasceu e viveu na Sardenha, até ter dado início à sua vida universitária em Bolonha, onde estudou teatro e cinema. Hoje reside novamente na Sardenha, o seu refúgio e terra natal. Durante os anos 90 fez algumas curtas-metragens; posteriormente avançou para as longas-metragens, “Ballo a tre passi”, “Sonetàula” e “Tajabone”.

SALVATORE MEREU

Agora, chega a Portugal com a quarta longa-metragem, “Bellas Mariposas”, realizada em 2012, na cidade de Cagliari, na Sardenha. Um filme sobre duas grandes amigas, Cate e Luna, no início da adolescência. Ambas vivem no mesmo prédio e bairro, problemático e degradado, onde contam com uma desestruturação familiar eminente. Juntas, lançam-se à vida, às ruas da cidade, aos sonhos e aos gelados.

Salvatore, fala-nos um pouco do teu percurso cinematográfico e das tuas primeiras longas-metragens

Eu nasci e vivi na Sardenha. Lá não se faz cinema, é muito difícil, embora os meus filmes sejam, quase na maioria, lá filmados. Tive de mudar-me para outras cidades de Itália durante uns tempos. Fui para a Universidade de Bolonha e depois para a Escola Nacional de Cinema em Roma, onde estive três anos. Concluí os estudos com 28 anos.

Desde aí comecei a realizar filmes; iniciei-me pelas curtas-metragens e depois avancei para as longas-metragens. Para além disso, também sou professor de cinema. Alterno, assim, a minha actividade profissional entre o ensino e a realização.

A minha primeira longa-metragem foi “Ballo a tre passi”, realizada em 2003, ganhou três prémios no Venice Film Festival e outro no David Di Donatello Awards, esteve nomeada no Rotterdam International Film Festival, no Sundance Film Festival e noutros festivais italianos. Trata de quatro histórias diferentes, passadas na Sardenha.

A minha segunda longa-metragem, “Sonetàula”, realizada em 2008, esteve na Berlinale, e também com ela percorri imensos festivais. Já o terceiro filme, “Tajabone”, foi feito com os miúdos da escola de cinema e a recepção foi muito boa.

Como sentes o panorama do cinema em Itália?

Em geral, é difícil fazer cinema em Itália, embora a qualidade seja bastante boa e haja uma nova geração de realizadores muito promissores. O problema está na distribuição cinematográfica nacional, já que é complicado os filmes independentes italianos terem saída. Os que, de facto, têm saída, são as comédias e os típicos filmes americanos. Os filmes independentes enfrentam bastantes dificuldades de afirmação em Itália, entre o grande público. A distribuição cinematográfica em Itália precisa de uma revolução.

Na tua opinião, qual achas que é a linha temática que a nova geração de realizadores italianos está a seguir?

Há uma geração de cineastas italianos fabulosos, que realizam filmes muito interessantes. Por exemplo, o Matteo Garrone, realizador de filmes como o “Gomorra” e o “Reality”. É, sem dúvida, um grande realizador. Outro exemplo é o Marco Bellocchio, que realizou o “Bella Adormentata”, ou o Leonardo di Costanzo, que esteve comigo no festival de Veneza com o filme “L´intervallo”.

O modo de fazer cinema mudou muito. Os cineastas actuais encontram a sua preferência pela periferia, pelos subúrbios e pelos bairros degradados. O mundo marginal é, hoje, extremamente focado, é aí que ronda o interesse. O argumento centra-se muito nos adolescentes, numa geração que se sente deslocada e perdida no mundo. A dificuldade que se sente em crescer e em encontrar um lugar ao sol. Há um distanciamento entre filhos e pais, porque os pais renunciaram o seu papel.

Por exemplo, no filme “Io e Te”, de Bernardo Bertolucci, o protagonista é um adolescente que diz aos pais que vai de férias para uma estância de ski. Em vez disso, fica sozinho na cave abandonada do apartamento. Há um abandono e desinteresse por parte dos pais primordialmente presente e retratado.

Fala-nos um pouco do teu último filme, “Bellas Mariposas”, já que, no fundo, esse foi o filme que te trouxe a Lisboa

Há um crítico de cinema, Goffredo Fofi, que certa vez disse que estamos perante uma geração de cineastas que tratam pela primeira vez, de forma pronunciada o desencaminhamento dos adolescentes, a sua solidão e o sentimento de abandono incontornável.

“Bellas Mariposas” nasceu de uma adaptação da obra póstuma de Sergio Atzeni, uma narração feita na primeira pessoa, por Caterina, uma jovem adolescente. O filme aborda a história de duas miúdas, melhores amigas, pertencentes a famílias numerosas. Lançam-se a uma viagem particular, uma pequena aventura, para verem o mar. Elas são do mesmo prédio e criaram uma relação de irmãs, têm-se uma à outra. Existe muita cumplicidade entre elas, pois a situação familiar é semelhante e desastrosa.

Quais foram, talvez, os realizadores que te influenciaram neste último trabalho?

É muito difícil responder a essa pergunta, isto porque o filme é baseado num livro, por isso, a grande influência veio directamente dessa obra. Posso, claro, referenciar alguns realizadores que admiro e acompanho, e talvez na realização deste filme tenham estado algo presentes, como Ettore Scola, Gianni Amelio e Eric Rohmer, para dar alguns exemplos.

“Bellas Mariposas” está incluído na secção Competitiva da 6ª Edição da Festa do Cinema Italiano. Esteve em exibição no Cinema São Jorge, dia 25 de Março, e será repetido no dia 27.



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