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8 ½ Festa do Cinema Italiano – O Rescaldo

Histórias de uma cultura apaixonante

A 5ª edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano trouxe-nos a visão de um País em mudança que enfrenta novas realidades, adapta-se e acolhe novos povos, mas não esquece a sua história e rica herança cultural.

Panorama

Nesta secção destaca-se “This Must Be The Place” de Paolo Sorrentino, filme de abertura do festival. Protagonizado por Sean Penn, que vive a pele de Cheyenne com uma imagem a “la Robert Smith”, transmite-nos um retrato humanizado de uma ex-estrela de rock com um olhar ternurento de criança que nos cativa ao longo de toda a história. Sean Penn continua a surpreender-nos com o seu talento inigualável, como na cena quando no meio de um grupo de mulheres diz qual o segredo para o bâton durar mais ou o imperdível diálogo que tem com David Byrne sobre as vicissitudes e dramas da vida. Desarma-nos e desconstrói o estereótipo de rock star de uma forma natural e ao mesmo tempo sui generis. A sua personagem vai finalmente encontrar-se e fazer a passagem para a vida adulta na sua viagem para os Estados Unidos da América.

“Terraferma”, realizado por Emanuelle Crialese, mostra-nos uma família de pescadores que enfrenta várias batalhas presentes no conflito de gerações entre uma mãe que procura um futuro fora da ilha e o filho que quer continuar a seguir a tradição da pesca com o seu avô. O confronto entre os pescadores da antiga geração e a polícia marítima italiana sobre a prática da tradicional lei do mar e a batalha entre a força policial local e os pescadores e os que defendem o negócio do turismo e são contra a emigração ilegal.

Todas estas batalhas se reúnem uma noite fatídica, quando o avô adere à tradição e se recusa a deixar emigrantes africanos na água para se afogarem. Este acto vai afectar todos os membros da sua família, ainda mais quando acolhe uma mulher grávida.

A personagem do neto, Filippo (Fillipo Pucillo), que está dividido entre gerações e que nutre quase uma adoração pelo seu avô, é desafiada na cena mais perturbadora do filme em que lhe é dada a possibilidade de defender a “Lei do Mar” e falha.

Focus Pietro Marcello

Pietro Marcello transmite-nos uma sensibilidade extrema e um olhar incomum sobre as realidades que filma. “La Boca Del Luppo” mostra-nos uma invulgar e bela história de amor e faz-nos pensar que os filmes às vezes acontecem na vida. Neste documentário é transmitida uma poesia que nos toca e nos envolve na história de Génova. Domina magistralmente o jogo entre o passado e o presente; ao longo do filme a nossa curiosidade vai aumentando e queremos saber mais sobre o Enzo e a Mary. “Il Passagio Della Linea” mostra-nos uma visão solitária e intimista sobre vidas que se cruzam no passado e no presente nas linhas de comboios, que temem um futuro incerto que parece estar escrito no destino. Algumas passagens, como as paisagens, lembram telas de quadros transpostas para o Cinema.

Focus Paolo Sorrentino

Paolo Sorrentino é um dos cineastas mais distinguidos e sofisticados que surgiram nos últimos anos no Cinema italiano. Em “Le Conseguenze Dell’Amore”, Titta di Girolamo é um homem de meia-idade a trabalhar forçadamente para a máfia como portador de dinheiro. Esta personagem tem uma atitude cínica perante a sociedade que observa como alguém que não espera mais nada do que a última rotina vivida há oito anos numa cidade da Suíça, em que o seu único refúgio é a sua dose semanal de heroína, até que se apaixona por uma jovem que irá mudar a sua vida.

Em “IL Divo”, de subtítulo “A Extraordinária vida de Giulio Andreotti”, conta a história do fim da Primeira República e o início do processo da máfia contra Andreotti. A Itália parece transpirar política familiar. Disso saiu uma guerrilha corrupta, chamada Máfia. Um agrupamento provinciano, mas, ainda que seja pequeno, forte em influência pela violência usada em seus “métodos de persuasão”.

O grande mafioso, já que foi condenado pela justiça, é um palhaço vivido por Toni Servillo – que não é reconhecido pela caracterização do personagem. Ele, o Giulio do filme, não nos convence, e parece ser essa a ideia principal da crítica irónica de Paolo. Ali vemos tudo muito marcado, seus movimentos maquinais, seus discursos ensaiados, sua postura rígida. A realidade é completamente distorcida sem que isso seja levado num sentido pejorativo. Os planos do realizador são estilizados e simples, quase geométricos, os truques visuais e a música é inteligentemente introduzida em cada cena como um elemento crucial de emoções. Um sentido de timing perfeito conduz o espectador cena após cena.

Destacamos também “Lá-Bas”, realizado por Guido Lombardi e vencedor da secção competitiva. Um filme que explora os dilemas de um jovem emigrante africano em Itália dividido entre a sua arte, os seus princípios, e a sobrevivência num novo País que o leva a envolver-se em caminhos obscuros.

“Sette Opere Di Misericordia”, de Gianluca e Massimiliano De Serio, mostra-nos uma abordagem original do trajecto de uma jovem clandestina que persegue uma saída da sua situação precária. Os gémeos exploram a consciência humana nos seus limites existenciais. Imagens fortes, cruas, pontuam quase todo o filme, as falas são quase nulas. O olhar do espectador segue a narrativa dividida por capítulos sob a forma dos sete actos de misericórdia da igreja católica.

A 8 ½ Festa do Cinema Italiano realizou-se em Lisboa de 12 a 19 de Abril e proporcionou ao público o que melhor se faz no Cinema italiano, mostrou a sua cultura, gastronomia e trouxe muita festa “a la italiana”.

O festival levou também o cinema italiano ao Funchal, Coimbra, Guimarães e Porto.



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