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Sci-fi Disney

Kurt Russel a pensar como um computador. Chimpanzés controlados pela mente humana. Buracos negros que nos levam ao Céu e ao Inferno… Durante décadas a Disney têm-se servido da ficção científica em pueris comédias infantis e em obras de culto com subtexto bíblico.

Não é, certamente, uma das imagens de marca do estúdio, mais conhecido pelas personagens antropomórficas com estruturas familiares invulgares, adaptações animadas de contos de fadas ou um rebanho de pop tweens. Mas, passando os olhos pela filmografia da Disney, vemos que a ficção científica é um dos géneros mais recorrentes.

O primeiro filme sci-fi da Disney foi, curiosamente, a adaptação de um dos precursores do género, o livro 20.000 Léguas Submarinas de Júlio Verne. Realizado em 1954 por Richard Fleischer (que mais tarde realizou dois outros clássicos sci-fi: Fantastic Voyage e Soylent Green), o filme é ainda hoje visto como um dos melhores filmes do género e, essencialmente relembrado pelo design do submarino Nautilus, cuja reprodução em tamanho real pode ser encontrada na EuroDisney.

Mas depois desta entrada em cheio nos cânones do cinema de ficção científica, a Disney passou as décadas seguintes sem produzir um filme sci-fi convencional. Em vez disso, lançou várias comédias infantis com alguns elementos do género, quase todas elas tendo como pano de fundo o “universo partilhado” da cidade universitária de Medfield.

Medfield Weird Science Academy

Medfield surge pela primeira vez em The Absent-Minded Professor, de 1960, onde o Prof. Ned Brainard cria a gosma saltitante conhecida como flubber (provavelmente mais conhecido nos dias de hoje pelo remake, “Flubber”, de 1997). Esta blob, para além de criar o caos na cidade ao pinchar sem controlo, era também capaz de fazer um Model T voar de forma comparativamente estável.

Medfield volta a ser palco de experiências científicas absurdas na trilogia “Dexter Riley”. Difícil de imaginar, mas Kurt Russel, o durão das películas sci-fi de John Carpenter (The Thing, Escape from New York e Escape from L.A.) encarnou por três vezes Dexter Riley, um jovem universitário com acne, que em três etapas da sua vida académica ficou tão inteligente como um super-computador (The Computer wore Tennis Shoes, 1969), tornou-se invisível (Now you see him, Now you don’t, 1972) e chegou a ser o homem mais forte do Mundo (The Strongest Man in the World, 1975). Isto tudo enquanto salvava a Universidade da falência sempre eminente e lutava contra o chefe do crime organizado local, que, depois de capturado num filme, terminava a sua pena logo no início do filme seguinte.

Havia, no entanto, concorrência aos avanços científicos de Medfield. Em The Misadventures of Merlin Jones, de 1964, um aluno super-inteligente da Universidade de Midvale cria uma máquina capaz de ler e controlar mentes alheias, servindo-se dela para convencer um chimpanzé a espancar o bully local.
Do Buraco Negro do Purgatório à Arca de Noé cósmica

Depois da estreia de Star Wars: A New Hope, em 1977, vários estúdios começaram a apostar na produção de space operas, como Buck Rogers in the 25th Century e a série original de BattleStar Galactica.
A Disney não quis ficar fora do zeitgeist e em 1978 lança Black Hole, o seu primeiro filme genuinamente sci-fi em décadas.

O filme conta a história de um grupo de astronautas que encontra, próxima de um buraco negro, uma antiga nave com apenas um sobrevivente humano tresloucado, que vive com um exército de servos robôs.
Sem contar com o robô trapalhão V.I.N.Cent (que estranhamente se assemelha a um M&M), seria quase impossível dizer que o filme era um original Disney. No entanto, Black Hole iniciou um estranho trend no sci-fi do estúdio: o aparecimento de subtextos religiosos.

Quando os astronautas finalmente se aventuram pelo buraco negro, acabam por entrar num rodopio que os leva ao Inferno, onde o vilão do filme e o robot maligno que este controla se fundem numa figura diabólica. Os heróis acabam por escapar deste cenário dantesco, guiados pelo espírito de uma mulher de túnica branca, que os leva por um corredor de cristal de volta ao Universo.

Em Tron, de 1982, a mística cristã está ainda mais presente. Neste filme de culto, pioneiro no uso de CGI, programas de computador com forma humana erguem templos para adorar os seus “Utilizadores”: as figuras que os criaram e que traçam o seu destino. Um programa maléfico não acredita na existência de tais seres, e obriga os seus crentes a lutar como gladiadores. Flynn (Jeff Bridges), um programador informático, é descarregado para o computador para salvar os seus fiéis desse vilão ateu. Imitando Jesus, Flynn acaba por sacrificar o seu corpo digital para salvar o computador e sobe assim de volta ao Reino dos Utilizadores.
Mesmo em pleno século XXI, estes temas ressurgem. Os argumentistas de Wall-E, a produção da Pixar mais conhecida pela sua mensagem ambientalista e anti-consumismo, admitiram que a personagem Eve teve como inspiração duas figuras bíblicas.

A inspiração mais óbvia é, como o nome indica, Eva, que foi criada para ser companheira de Adão, quando este vivia só no Paraíso. No filme, Eve vem acompanha Wall-E, que vive só num planeta Terra, abandonado pela humanidade depois da poluição e o aquecimento global o tornarem inóspito.

A segunda inspiração é um pouco menos óbvia. Eve guia a nave que transporta os últimos sobreviventes humanos de volta à Terra após colher uma rara planta ainda viva. No Antigo Testamento, uma pomba branca com um ramo de oliveira no bico guia a Arca de Nóe a terra seca após o Dilúvio.

Estranha coincidência serem os filmes Disney mais próximos dos cânones do sci-fi os que têm o subtexto mais exotérico. De notar, no entanto, que só Black Hole é que assume a existência de um Deus, ou pelo menos, de um Paraíso. Tanto em Tron como em Wall-E, nenhuma ideia teológica é defendida ou forçada na audiência. Os aspectos bíblicos ecoam apenas de forma mais ou menos subtil na história.

No futuro: mais sci-fi Disney.

Os fans de sci-fi podem esperar mais destes filmes da parte da Disney. Já no final deste ano estreia aos cinemas Tron: Legacy, uma sequela de Tron, feita quase trinta anos depois do original.
O ideal seria mesmo que o estúdio contratassem argumentistas da recém-adquirida Marvel para escrever mais clássicos de ficção científica.

Um regresso a Medfield ou Midvale parece, no entanto, fora dos planos do estúdio. Uma pena para quem esperava um remake musical de Merlin Jones, em que o primata também cantaria.



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