serpentwithfeet, “soil”

serpentwithfeet | “Soil”

serpentwithfeet não pode ou não deve ser explicado através de ideias ou racionalidade, dado encontrar-se muito mais próximo de uma experiência multidimensional que ultrapassa a própria existência física mas é irresistível ou mesmo tentador fazer esta incursão através das palavras.

Muitas vezes, a hesitação ou o medo de falhar falaram mais alto em relação a escrever sobre “Soil” porque é fácil falhar quando se está diante de um artista que não tem nada a perder e o diz de forma desassombrada, intensa, frágil, forte, tudo ao mesmo tempo, sem receio de poder parecer contraditório.

Desenganem-se aqueles que desejam apenas abraçar essa vertente etérea da música de Josiah Wise que, nos dias que correm, dá pelo alter ego serpentwithfeet (pode surgir uma outra designação, de tal modo se apresentam a sua fluidez e liberdade artísticas) e acaba de lançar o seu primeiro longa duração, “Soil”. Se se andar em busca de um determinado tipo de música, específico, bem identificado, daqueles que cabem perfeitamente nas caixas da normalidade e do conhecido, este não é um som que possa ficar arrumado e sossegado. Serpent é irrequieto, deslizante como uma serpente mas tem pés, vem para colocar à vista de todos verdades, as suas, que não podem ficar caladas. Por isso, todo o contexto da sua música pode parecer estranho por ser precisamente tão libertador e sincero, bastando, aliás, ficar atento às letras para perceber que não estamos perante um simples R&B ou soul, estilos que aliás o músico admite como estando intrinsecamente ligados às suas raízes musicais.

Músico, negro, perfomer excêntrico, coleccionador de bonecas, estudante de música na Universidade das Artes em Filadélfia, homossexual assumido, não parece, contudo, deixar que esses elementos simplistas o definam ou limitem, rejeitando inclusive o factor raça no modo como foi inicialmente recebido no mundo da música, as pessoas apenas não lhe prestavam atenção por não ser conhecido do meio. Alheio a isso, construiu o seu percurso musical na cena queer nova-iorquina de modo insistente e consistente, lançando músicas novas com frequência no SoundCloud na esperança que alguém desse por ele. O que é certo é que o facto de ter encontrado poiso por Nova Iorque depois do seu périplo por Paris e Londres acabou por dar frutos e acabaria, assim, por gravar o seu primeiro EP, *blisters*, em colaboração com o produtor Haxan Cloak, nome que já havia colaborado anteriormente com Björk, uma das grandes inspirações de serpentwithfeet, a par de Brandy. A recepção não poderia ter sido mais entusiástica e desde então Serpent não parou, chegando mesmo a ser convidado para dar voz a uma remix de “Blissing Me”, tema retirado do mais recente álbum da cantora islandesa.

Josiah Wise fez parte do coro da igreja e a sua infância teve como suporte ensinamentos religiosos que mais tarde deixariam de fazer sentido sobretudo pelo facto de ter absoluta necessidade de mostrar abertamente todos os aspectos da sua personalidade, sobretudo as suas manifestações de amor e desejo para com outros homens, como, aliás, faz questão de transpor para a sua música, para as suas letras. Possivelmente, não estamos habituados a que a música associada ao R&B e à soul tenham como temas centrais assumidos com tanta frontalidade os relacionamentos entre homens, não que isso constitua um choque mas antes uma novidade refrescante na música actual e especificamente nestas sonoridades. O percurso do cantor foi algo atribulado nesse e noutros sentidos e para encontrar a sua própria voz, livre dos pressupostos da família ou dos professores que o foram acompanhando, foi preciso passar para lá da fase do falseamento do seu discurso.

Falseamento aqui significará ter de eliminar sujeitos ou nomes das letras que escrevia para parecer algo que, na realidade, não é e, por isso, serpentwithfeet é o depuramento quase doloroso desse processo de limpeza, um quase renascimento que implicou escrever letras para músicas como se fosse outra pessoa e, em última instância, renegar a tudo isso e nascer de novo, disso dá conta muitas vezes nas suas entrevistas o cantor norte-americano que quando passou pelo estudo da música em Filadélfia foi aconselhado a moldar o seu intenso e incomum vibrato. Estranhando o aconselhamento por não se identificar com ele, Josiah acabaria por pôr para trás das costas todos os conselhos e, não querendo ouvir mais nenhuma voz a não ser a sua, criou o seu próprio espaço musical, fundindo as suas influências e raízes musicais com as particularidades que o tornam verdadeiramente único.

O espaço musical de serpentwithfeet é um mundo imenso de influências que o cantor decanta criando sonoridades que não pensávamos poder ver casadas ou até mesmo próximas umas das outras. Partindo quase sempre da matriz do gospel, soul ou R&B, Josiah Wise desenha depois uma paleta muito ampla de sons que soam tanto a visionários como barrocos, talvez por ter tido formação clássica e se sentir ainda hoje influenciado tanto pela sonoridade como pela disciplina que essa formação lhe conferiu antes de seguir outros caminhos. Ouvir serpentwithfeet é muitas vezes difícil mas quase magnético, queremos fugir mas não conseguimos, há uma sereia que nos chama e ficamos irremediavelmente presos e isso deve-se à invulgaridade de tudo o que o rodeia. Se, por vezes, estamos em terreno de vulnerabilidade emocional, despida e entregue, em contrapartida a sonoridade nem sempre acompanha a doçura da voz, do tom, do vibrato e queda-se por incursões de tons muito próximos dos espirituais negros, de quando a música representava resistência contra a opressão dos brancos, e que se misturam depois com as influências da música clássica, sobretudo nos coros que acompanham muitas vezes as faixas de “Soil”. Essa fusão torna-se patente logo na primeira faixa do álbum, «whisper», uma espécie de canto gospel na forma mas no conteúdo uma afirmação bem definida de personalidade e voz que mistura universalidade com intimidade sem que isso pareça estranho. É nesta primeira faixa que se encontra o canto da sereia já que a estranheza causada por um tema neo-gospel que contém coros próximos do canto gregoriano e que versa sobre afirmação pessoal e universal é algo que possivelmente ainda não foi ouvido.

Ao longo de “Soil” vamos encontrando aqui e ali a reminiscência de um mundo sonoro ainda por inventar e, simultaneamente, somos transportados para o espaço da espiritualidade religiosa mesmo que não acreditemos em deuses criados pelos homens. Essa influência ou sentimento religioso pode não estar relacionado com a igreja mas é muito possível que a vivência de Josiah contribua para que a sonoridade da música cantada nesse contexto surja aqui com alguma frequência, basta ouvir «wrong tree», onde tanto o formato como o conteúdo nos remete para a questão do pecado, céu e inferno, fruto proibido mas gira, no fundo, em torno de um amor bastante real. Não haverá melhor exemplo dessa mistura mágica de mundos e influências que esta faixa, em que as palmas, os coros e o órgão da igreja servem de pano de fundo a uma canção sobre a rejeição amorosa e a rejeição da verdade e da identidade para a qual Josiah Wise tanto remete, em praticamente todas as entrevistas que tem dado. Em «mourning song» voltam a juntar-se os mesmos elementos numa enorme canção espiritual negra sobre sentir a falta de alguém, algures entre o espaço religioso do amor e o sentimento sagrado do abandono, do desgosto amoroso mas ao mesmo tempo da libertação que representa deixar todos os monstros à solta sem medo do fogo do inferno, deixando entrar as chamas como forma de purificação e não de punição eterna.

serpentwithfeet ergue um altar sofrido mas sem arrependimento ao amor, uma forma maior de expressão criativa que agarra sem cerimónias em todas as influências culturais do passado como se lhes prestasse homenagem e simultaneamente as arrancasse do peito directamente para o chão, talvez para lá do chão e directamente nas chamas do inferno. Quando Josiah Wise vai buscar essas referências fá-lo para tornar menos dolorosa a experiência do crescimento, da evolução, remetendo sempre para os temas que lhe são queridos e que passam quase sempre pelas razões do coração, envoltas em grilhões que só existem para serem estilhaçados. serpentwhitfeet entra nas salas para automaticamente aquelas lhe pertencerem e esse sentimento poderoso pode ser transposto para a forma como encara a música, crua mas doce, contraditória, forte, directa mas não necessariamente auto-biográfica, muitas vezes parecendo até um pouco fantasiosa, dramática, desesperada mas cujo fim é precisamente de derrubar por completo essas barreiras.

“Soil” não é apenas música, é um outro universo de música em que serpentwithfeet marcou a ferros o seu lugar, a sua imagem, a sua linguagem, sem recorrer a cópias de ninguém, suficientemente independente para trabalhar lado a lado com os melhores produtores e músicos da cena alternativa, afirmando sem medo aquilo que é e não esperando nada menos que a aceitação incondicional ou nada. Chamar-lhe o que quer que seja é criar um limite e serpentwithfeet não tem fim, não conhece limites, apesar de ser dono de um lirismo tão íntimo que chega a assustar os mais incautos. “Soil” é um trabalho assombroso, doloroso, livre, cheio de referências musicais ricas, do canto gregoriano aos espirituais negros, passando pelo gospel e pelo R&B, misturando todos esses mundos a seu bel-prazer, assim lançando provocações heréticas de homem negro gay num mundo que nem sempre se compadece com aquilo a que não está habituado a acolher – sexo, amor, fragilidade, sentimentos, desejo, querer, escrito e descrito com as palavras todas ou através de belas metáforas carnais. O novo não é fácil de incorporar no que já existe e serpentwithfeet se não é completamente novo, pelo menos soa a completamente novo.



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